Dani de Brito

(Daniela Rezende Seixo de Brito Mendes Fernandes)

Enquanto Michelangelo
materializava a suprema criação,
no paraíso da onisciência
o próprio Deus escolhia, as cores da paleta,
sem que ninguém percebesse,
e gargalhava frouxo
do estranhamento pudico
dos sábios estudiosos das escrituras.

Deus-e-o-homem.

A generosidade sem tamanho
do sopro da centelha divina
descabelou,
despudoradamente,
a plenitude das nuvens no céu.
Querubins e Serafins emolduravam,
no afresco e no infinito,
o Criador soberano.
Ouvia-se, ao longe,
o coro cintilante,
embasbacado,
dos bebês alados de cachos dourados,
diante-da-espetacular-audaciosa-criação.
Ah, se eu tivesse asas!

E ela? Pobre Eva!
Esperava curiosa e
desconcertada,
sem perder,
de seu olhar distante,
qualquer movimento na Terra,
na intenção divina de existir.

Do altar,
ouvia-se sua insondável respiração
a cada vigorosa pincelada.
Quase se desprendia do teto.
Deveria ter aproveitado mais o conforto dos braços do Criador.

Crentes e ateus hipnotizados
pelas formas e nuances,
instigando o imaginativo e a fé
de cada fiel desleal atolado em crenças,
castigos e questionamentos repreensíveis,
colocando em risco qualquer uma das Cartas aos Apóstolos.

Do Livro Sagrado,
de palavras imutáveis,
infinitas interpretações divergentes
e tonteantes
flutuam,
 frutos de releituras de decoros
e incompreensões.

Pontos de vista?
Poder.
Paraísos fadados a perpétuas discussões.

Fazer o quê?

O autogoverno
de recontar e recriar
conforme conveniências
foi ideia dEle,
ao apresentar o livre arbítrio,
num devaneio ou deleite,
entre uma e outra taça de vinho
num encontro social.

O-homem-e-Deus.

Afasta-te! Não preciso de Ti.
Pobre Adão.
É Ele quem não precisa de nós.
Tu não percebes?

Curiosamente, Ele sentiu-se contorcer
como se vísceras tivesse,
na dor infinita
de expulsar sua “perfeição” do Éden.
A Sua maior criação
exterminou Sua paz.

A criação atrevida caminha.
Caminha por si.
Afinal, é a semelhança idêntica
de tudo o que É.
Sente-se só.
E a concha da Santíssima Trindade
ainda escuta,
benevolamente,
e atende:
Misericórdia, oh Pai!

O teto
infinito
da Capela.

Paraíso ou Juízo?
Oh, Capela!
Talvez, um dia,
nossos dedos voltem a se tocar.

Buonarroti! Buonarroti!
Por que semeaste caraminholas em meus pensamentos?
Maldito alcoviteiro!

Deus-e-o-homem.
O-homem-e-Deus.

3º LUGAR no 21º Prêmio Literário Paulo Setúbal – Nacional –  2023

Daniela Rezende Seixo de Brito Mendes Fernandes – Acadêmica da AFLAG

3ª titular

Cadeira: 3

Dani de Brito é autora, ilustradora e educadora. É graduada em Artes Visuais pela Universidade Federal de Goiás e Educação Física, especialista em Arte Educação Intermidiática e Dançaterapia para pessoas com demência ou doenças psiquiátricas.

Sua trajetória literária iniciou-se em 2008, com um projeto pessoal de histórias para seus filhos, João Vítor e João Gabriel, quando publicou suas primeiras quatro histórias ilustradas e inaugurou a Coleção Menino João. Desde então são 36 títulos publicados e adotados em redes municipais e privadas de vários lugares do Brasil. Algumas de suas publicações são:

  •  Lápis cor de pele?
  • 24 de outubro… Nasce uma capital: Goiânia
  • Ratofredo
  • Cidade da bisa.

Em 2025 foi premiada no X Festival de Poesia de Lisboa, recebendo, como prêmio, a publicação de seu livro no Brasil e em Portugal: Suspiros póstumos de um poeta desgarrado.

A coluna Prosas em Artes é uma colaboração de Andréa Luísa Teixeira e Dani de Brito.

Leia também: Carta requiem por Múcio Teixeira