A distribuição dos recursos do Fundo Eleitoral entre candidatos para as eleições de 2026 tem provocado insatisfação dentro dos partidos, inclusive entre nomes que disputarão pela primeira vez cargos majoritários. Presidente do PSOL em Goiás e candidata ao Senado, Cintia Dias critica o modelo atual de divisão dos recursos e afirma que a concentração do dinheiro público em candidaturas já conhecidas cria uma disputa desigual.

Para Cintia, o problema vai além da quantidade de dinheiro destinada a cada candidato. Na avaliação dela, a forma como os partidos administram os recursos acaba favorecendo quem já possui estrutura política, mandato ou maior exposição pública, enquanto candidatos que tentam construir uma trajetória eleitoral encontram dificuldades para financiar a própria campanha. “Não existe democracia se existe burocracia”, afirma em entrevista ao Jornal Opção.

Segundo Cintia, a dificuldade de acesso aos recursos compromete principalmente candidaturas que buscam ampliar a diversidade da representação política. Ela cita como exemplo a necessidade de aumentar a presença de mulheres na política, mas questiona como isso pode ocorrer sem que essas candidaturas tenham condições financeiras mínimas para disputar uma eleição.

“Você fala: as mulheres têm que ocupar espaço. As mulheres têm que ocupar espaço sem recurso? Como é que faz campanha sem dinheiro?”, questiona.

A dirigente defende que a distribuição deveria seguir critérios mais equilibrados, com mecanismos que garantissem uma parcela dos recursos também a candidatos com menor estrutura e menor exposição política.

Na avaliação dela, o sistema atual permite que os partidos cumpram as regras formais de distribuição, mas concentrem a maior parte do dinheiro nas candidaturas consideradas mais competitivas.

“Hoje, quando você recebe o fundo, você tem que passar 40%, que você tem que dividir com todo mundo. Só que os partidos fazem isso, dividem 40% com todo mundo e o resto só com quem já é candidato ou quem já tem uma exposição muito grande”, afirma.

Para Cintia, o resultado é uma espécie de ciclo em que quem já possui visibilidade recebe mais recursos, enquanto os candidatos que precisam justamente do financiamento para se tornar competitivos acabam com menos condições de campanha.

“Os outros que estão tentando, chegando lá, não recebem nada. Não chega recurso. Então, isso não é democracia”, diz.

Ela classifica esse modelo como uma “plutocracia”, em referência à influência do poder econômico sobre a disputa eleitoral. Na avaliação da presidente do PSOL, o dinheiro acaba se tornando um fator determinante para definir quais candidaturas terão condições efetivas de chegar ao eleitorado.

Diferença entre candidaturas

Cintia também compara os recursos destinados a candidaturas proporcionais já consolidadas com aqueles disponíveis para uma candidatura ao Senado. Segundo ela, a diferença demonstra a dificuldade enfrentada por quem disputa uma eleição majoritária sem ocupar um mandato atualmente.

“Não é justificativa o deputado que tem quatro anos trabalhando para ser eleito, reeleito, receber dois milhões, enquanto uma candidatura que é a nossa, que é a Senado, recebe 160 mil, tendo que pagar 60 mil para comunicação dos deputados, que senão não tem tempo de TV”, afirma.

A dirigente considera que a diferença de estrutura pode comprometer a competitividade das campanhas. Para ela, o debate sobre o Fundo Eleitoral precisa levar em consideração não apenas a existência de regras para distribuição, mas também se os critérios adotados permitem que diferentes candidaturas tenham condições reais de apresentar suas propostas aos eleitores.

A crítica ocorre em um momento em que os partidos começam a estruturar suas campanhas para a eleição de 2026 e definir prioridades para aplicação dos recursos. O Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) é uma das principais fontes de financiamento público das campanhas eleitorais brasileiras.

PSOL aposta em aliança para ampliar bancada

Além da discussão sobre financiamento eleitoral, Cintia avalia que a composição da chamada Frente Progressista Popular poderá ampliar o espaço do campo progressista em Goiás nas eleições deste ano.

Ela cita como uma das apostas a candidatura de Edward Madureira, do PT, para a Câmara dos Deputados. Para Cintia, a articulação entre os partidos pode fortalecer candidaturas que individualmente teriam mais dificuldade para alcançar uma estrutura competitiva.

A presidente do PSOL também destaca a candidatura de Barbara Bombom, apontada por ela como uma das principais apostas para ampliar a representação de pessoas trans na política goiana.

“Disparadamente é a mulher trans que está mais pontuando, que está mais articulada na política”, afirma.

Cintia também aposta na eleição de outras mulheres para a Câmara dos Deputados e acredita que o campo progressista poderá ampliar sua representação na Assembleia Legislativa de Goiás.

“Acho que vai abrir espaços para outros nomes”, avalia.

Boulos e o palanque de Lula em Goiás

Outro ponto destacado por Cintia é a visita do deputado federal e ministro Guilherme Boulos a Goiás. Para a dirigente, a presença do ministro nas agendas políticas do Estado ajuda a reforçar a articulação da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Goiás.

Segundo ela, a passagem de Boulos pelo Estado representa uma tentativa de aproximar a estrutura nacional da campanha das articulações locais.

“A presença dele é para isso, é para garantir que o palanque do Lula esteja representado, esteja vivo”, afirma.

Cintia avalia que a participação de lideranças nacionais pode ajudar a consolidar a estratégia do campo governista no Estado e fortalecer os nomes que estarão envolvidos na disputa eleitoral.

Para a candidata ao Senado, a construção do palanque de Lula em Goiás passa justamente pela integração entre as forças que compõem a aliança e pela capacidade de apresentar candidaturas competitivas para diferentes cargos.

Ela afirma ainda esperar que a movimentação das lideranças nacionais produza efeitos sobre a estrutura da campanha em Goiás.

“Eu espero, realmente, que tenha retorno”, diz.

Com a eleição se aproximando, Cintia pretende usar a discussão sobre financiamento eleitoral como uma das pautas de sua atuação política. Para ela, garantir recursos mais equilibrados é uma condição para que novas candidaturas tenham possibilidade de competir e para que a diversidade política não fique restrita aos nomes que já possuem mandato, estrutura partidária ou reconhecimento público.

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