Após a prisão da dentista Dra. Valéria Ribeiro, nesta quinta-feira, 28, diversas vítimas procuraram a polícia para relatar seus episódios como pacientes da profissional que atuava com procedimentos de harmonização facial, como lipo de papada, sem a devida especialização necessária.  

Ao todo, 8 pessoas já entraram em contato com a polícia para fazer a denúncia contra a odontóloga que segue presa em Goiânia. O Jornal Opção conseguiu contato com algumas das vítimas que deram seus relatos à nossa reportagem. 

T.B. (que preferiu não ter seu nome identificado), contou que realizou procedimento de lipo de papada com a dentista em 2023, no entanto, ele foi malsucedido. Segundo seu relato, Valéria teria deixado sequelas permanentes em seu rosto. “Hoje a minha papada está bem maior” e “meu rosto ficou diferente”, disse. Segundo ela, houve retirada excessiva de gordura de um lado do rosto. “Ela aspirou demais de um lado e do outro deixou. Ela errou na aspiração”, afirmou.

A vítima também relatou que desenvolveu trauma após o procedimento. “O trauma que eu tenho de alguém mexer aqui agora é muito grande”, declarou. Ela afirma que, há quatro anos, segue em busca de reparação. 

Toda a avaliação inicial feita no rosto de T.B. aconteceu de forma virtual, segundo seu relato. Ela afirma ainda que apenas um exame de sangue foi solicitado antes da cirurgia. “Não pediu exame de urina, nem nenhum outro”, disse.

À reportagem, ela disse que conheceu a dentista por meio do Instagram e que o conteúdo publicado pela profissional transmitia total confiança. “Ela usava muito o nome de Deus”, relatou. Segundo ela, a dentista costumava publicar orações antes dos procedimentos e depoimentos emocionados de pacientes.

“Antes da cirurgia, ela orava. Depois, filmava os pacientes chorando”, contou. “Você olha aquilo e pensa: ‘Foi Deus que me encaminhou até ela’”, acrescentou. A vítima afirma que o discurso religioso ajudava a convencer pacientes. 

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Dra. Valéria Ribeiro | Foto: Redes Sociais

O primeiro contato após perceber problemas no procedimento

Depois de perceber que o resultado não havia ficado como esperado, a vítima procurou a profissional para questionar o procedimento. Segundo ela, o atendimento foi marcado por constrangimentos e ataques pessoais. “Quando você vai contestar, ela usa a sua própria queixa para te prejudicar”, afirmou. T.B relata que ouviu comentários sobre a própria aparência física. “Ela fala que você tem muita gordura, muita flacidez, que ela fez o que podia fazer”, disse.

Segundo a vítima, em uma consulta presencial, a dentista teria levado outra profissional para participar da conversa. “Ela trouxe a fisioterapeuta junto para as duas me atacarem”, contou. T.B. também afirma que houve total abandono após o procedimento. “Depois que faz a cirurgia, ela não quer mais contato”, disse. “Pegou o dinheiro, ficou difícil de resolver, ela te abandona”, completou.

A vítima também afirma que sofreu intimidação após publicar avaliações negativas sobre o atendimento feito por Valéria Ribeiro. “Eles me deram um prazo para retirar a nota baixa”, relatou. Segundo ela, houve ameaça de processo judicial caso os comentários não fossem apagados. “Disseram que eu seria processada e que teria que pagar danos morais”, afirmou. 

T.B. acredita que o medo de enfrentar ações judiciais fez com que muitas vítimas permanecessem em silêncio. “A coação foi o que mais atrapalhou a gente. As pessoas ficam com medo de denunciar”, declarou.

Desconfiança evitou procedimento no dia da prisão 

Uma outra mulher, identificada pela reportagem como A.S., contou ao Jornal Opção que quase realizou o mesmo procedimento com a dentista, mas desistiu após perceber inconsistências nas informações apresentadas pela profissional durante o atendimento virtual.

Segundo ela, o primeiro contato aconteceu após o marido encontrar o perfil da dentista nas redes sociais. A.S. afirmou que procurava uma profissional especializada em procedimentos faciais e acreditava que Valéria possuía habilitação na área de cirurgia bucomaxilofacial. 

A vítima passou a desconfiar de Valéria Ribeiro após pedir o registro profissional da especialidade e não receber a documentação solicitada. “Eu falei: ‘a doutora é buco? Me passe o registro dela’. Aí ela respondia outras coisas e não mandava o solicitado”, afirmou.

Segundo ela, a dentista enviou apenas um artigo e direcionou a paciente para o perfil do Instagram. “Ela me mandou um artigo falando sobre cirurgia facial e disse: ‘mais informações no Instagram’”, contou.

A mulher também estranhou a rapidez com que o procedimento estava sendo conduzido. “Teve muita pressa para querer marcar”, disse. “Ela queria fazer o procedimento sem nem me consultar pessoalmente”, acrescentou.

De acordo com o relato, toda a avaliação também aconteceu de forma online. “Ela pediu apenas exame de sangue pré-operatório. Não pediu exame de imagem, exame de risco cirúrgico, nada”, afirmou.

A entrevistada revelou ainda que o valor do procedimento variou diversas vezes durante a negociação, o que aumentou a desconfiança. Segundo A.S., inicialmente a lipo de papada teria um custo de R$ 10,5 mil. Depois, como “paciente modelo”, o valor caiu para R$ 6,5 mil e, posteriormente, para R$ 3 mil. “Ela falou que estava com urgência porque precisava dar um workshop e precisava de modelos”, contou. “Eu falei: ‘está oscilando muito das outras médias que eu vi. Muito estranho’”, afirmou.

O procedimento, segundo A.S., estava marcado para acontecer justamente no dia em que a dentista foi presa em Goiânia. “Que bom que eu não cheguei a fazer”, disse.

Após desistir do atendimento, ela procurou outro profissional indicado por familiares da área da odontologia. Segundo a vítima, a diferença na conduta chamou atenção. “Foi o único que não me avaliou pelo WhatsApp. Falou que era só presencialmente”, contou.

Ela afirmou ainda que o novo profissional solicitou exames que nenhum dos anteriores havia pedido. “Ele pediu exame de imagem, exame de risco cirúrgico. A conduta foi completamente diferente”, declarou.

A vítima também alertou para a importância de os pacientes verificarem a especialização dos profissionais antes de realizarem procedimentos estéticos. “As pessoas têm muita ilusão de mágica, de resolver rápido e fácil”, afirmou.

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