Comando Vermelho domina garimpo ilegal em terra indígena e usa ouro para financiar tráfico
29 junho 2026 às 07h55

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Uma investigação realizada pela Polícia Federal identificou que o Garimpo Cururu, um dos principais pontos de extração ilegal de ouro na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, está sob o controle da facção criminosa Comando Vermelho (CV). Anteriormente, o grupo atuava apenas na segurança armada dos garimpeiros. Contudo, após ampliar sua presença na região a partir de 2023, a facção dominou as áreas de mineração ilegal e passou a utilizar o ouro como moeda de troca para financiar outras atividades criminosas, como o tráfico de drogas e armas em negociações com países vizinhos.
Para combater essa escalada de violência, uma megaoperação coordenada pela Casa Civil do governo federal está em curso desde março. A ação reúne equipes de vários órgãos federais que trabalham em conjunto para desarticular o crime organizado no território. O programa Fantástico, da TV Globo, acompanhou de perto o trabalho das forças de segurança, marcando a primeira vez que uma equipe de reportagem se aproximou da área para registrar o real poderio dos garimpeiros e do narcotráfico no local.
Pertencente ao povo Nambikwara desde sua demarcação em 1985, a Terra Indígena Sararé estende-se por três municípios e soma 67 mil hectares. Até poucos meses atrás, a exploração ilegal era tão agressiva que abrigava mais de 2 mil garimpeiros e contava com 1.117 pontos de extração.
Segundo a inteligência da operação, o volume de pessoas e a infraestrutura eram tão robustos que um dos principais pontos de exploração passou a ser chamado de “vila”. Além disso, os criminosos escavaram uma complexa rede de túneis, utilizada tanto para apoiar a extração do metal quanto para esconder o armamento pesado e as munições da facção.
As investigações da PF também reuniram registros em vídeo que expõem as tentativas de intimidação por parte dos criminosos, mostrando traficantes exibindo fuzis e escoltando tratores para abrir caminhos na mata. Segundo o delegado da Polícia Federal, Rodrigo Vitorino, a entrada de armas de grosso calibre na reserva está diretamente ligada à chegada dos faccionados, que se valem de esconderijos estratégicos e da densidade da floresta para fugir do cerco policial.
Até o momento, o balanço da megaoperação aponta um prejuízo estimado em mais de R$ 110 milhões para o garimpo ilegal. Foram presas 72 pessoas e apreendidos 153 kg de ouro, além de mais de 42 mil litros de óleo diesel.
As forças de segurança também destruíram 33 túneis, cerca de 4 toneladas de explosivos, 200 acampamentos, mais de 800 motores e 31 escavadeiras. Dando continuidade às ações judiciais, a PF cumpriu na última quinta-feira, 25, um mandado de busca e apreensão contra um suspeito acusado de fornecer as máquinas de escavação e os fuzis utilizados pelos traficantes.
Impactos ambientais e o clamor por segurança
Além do rastro de violência e da criminalidade, a mineração ilegal impõe danos severos e duradouros ao meio ambiente em uma área que há décadas sofre com a falta de proteção. No local conhecido como “Garimpo do 4”, a remoção desenfreada de terra foi tão profunda que atingiu o lençol freático, e o Rio Sararé já manifesta sinais visíveis de contaminação.
Especialistas alertam que o uso de substâncias altamente tóxicas na atividade, como o mercúrio e o cianeto, gera sequelas ecológicas graves. De acordo com o agente do Ibama, Sérgio Suzuki, pode levar centenas de anos para que a flora e a fauna locais se recuperem minimamente. O impacto direto na subsistência foi lamentado por um membro da comunidade local: “Arrebentou toda a natureza, acabou. Ficou muito difícil para a gente sobreviver”, desabafou o indígena, que preferiu não se identificar por motivos de segurança.
Diante do cenário crítico, o governo de Mato Grosso informou que está construindo uma base policial em um dos acessos da Terra Indígena Sararé para servir de apoio e integração entre as forças estaduais e federais, reforçando que permanece à disposição para colaborar com a União. Enquanto as operações avançam, o povo Nambikwara busca reaver o que lhes foi tirado: a paz, a liberdade e o respeito ao território que consideram sagrado.
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