Elizabeth Abreu Caldeira Brito

Nascida em 25 de junho de 1919, na Cidade de Goiás, Regina Galvão de Moura Lacerda é filha de Umbelino Galvão de Moura Lacerda e Zenóbia Santa Cruz Camargo Lacerda. Formou-se inicialmente no magistério. Ainda jovem, realizou o curso de Samaritana Socorrista durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Com a transferência da capital goiana, Regina Lacerda integrou o movimento fundador de Goiânia, para onde se mudou a convite da primeira-dama Ambrosina Coimbra Bueno. Na nova capital, consolidou uma formação plural e transdisciplinar: graduou-se em Artes pela Escola Goiana de Belas Artes, cursou orientação educacional, didática e desenho na Faculdade Santa Úrsula, no Rio de Janeiro, e formou-se em Administração Pública pela Escola Brasileira de Administração, então sediada na capital federal.

O engajamento de Regina Lacerda em “pintar a aldeia” dialoga diretamente com a premissa de Liev Tolstói (e Púchkin) de que o universal nasce do particular.

Regina Lacerda foi professora em Corumbá de Goiás, na Cidade de Goiás e em Goiânia; atuou como diretora da Divisão de Expansão Cultural do Museu Zoroastro Artiaga; exerceu a função de secretária da Escola Goiana de Belas Artes; chefiou a Divisão de Promoção Turística de Goiás; integrou o Conselho Estadual de Cultura e o grupo de trabalho para estudos de proteção do folclore goiano. Em 31 de janeiro de 1978, aposentou-se como técnica em Folclore pela Goiastur, coroando uma carreira inteiramente dedicada à salvaguarda dos saberes populares.

Seu pioneirismo manifesta-se de forma emblemática ao tornar-se a primeira mulher goiana a ingressar na Academia Goiana de Letras, rompendo um espaço até então hegemonicamente masculino. Foi membro da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag), do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás, da Associação Goiana de Imprensa, da Comissão Goiana de Folclore, da Associação Brasileira de Folclore e da Sociedade Geográfica Brasileira, além de ter sido amplamente premiada em âmbito nacional.

Elizabeth Abreu Caldeira Brito foto da capa de Dicionário Crítico das Vozes Femininas da Literatura em Goiás ok2

Sua trajetória inclui viagens internacionais e uma relação de amizade intelectual com Frei Nazareno Confaloni, que reforça sua inserção em redes culturais para além das fronteiras regionais.

Em suas produções, a autora articula pesquisa etnográfica, escuta atenta das vozes populares e elaboração literária, em consonância com a tradição dos estudos do folclore brasileiro. Em “Papa-ceia” (1968), especialmente no subtítulo “O que já foi feito”, Regina Lacerda realiza um gesto crítico de mapeamento do campo folclórico goiano, elencando autores e obras que a precederam, todos homens, como Americano do Brasil, I. G. Americano do Brasil, Renato de Almeida, Luiz Heitor, José A. Teixeira, Padre Victor Coelho de Almeida e Mário Rizério, além de nomes como Henrique Silva, Hugo de Carvalho Ramos, Bernardo Guimarães, Gelmires Reis, Zoroastro Artiaga e Domingos Félix de Sousa.

Regina Lacerda capa de livro sobre folclore 1 500 ok56

1ª mulher a interpretar o folclore goiano

Ao reconhecer esses precursores, Regina Lacerda se insere, na tradição e evidencia sua singularidade: a de ser a primeira mulher a sistematizar, registrar e interpretar o folclore goiano a partir de uma escuta comprometida com as protagonistas que historicamente eram silenciadas.

Em meu artigo “Regina Lacerda precursora de caminhos, narrativas e memórias folclóricas”, a ser publicado no livro “Mulheres”, da Coleção Goiás+300 , abordo a dedicação de Regina Lacerda à cultura de Goiás.

“Sem anel anelar e sem prole, Regina Lacerda dedicou sua existência aos labores culturais, artísticos, históricos e educacionais.”

Seu engajamento em “pintar a aldeia” dialoga diretamente com a premissa de Liev Tolstói (e Púchkin) de que o universal nasce do particular.

As mulheres reginianas ocupam rios, ruas, chafarizes, cultos, festas e bibliotecas. São figuras performáticas do cotidiano, resgatadas do risco do esquecimento e reinscritas no presente pela escrita

Ao narrar a Cidade de Goiás, seus rios, festas, crenças, cantigas e personagens, sobretudo mulheres pobres e negras, Regina Lacerda confere universalidade à sua aldeia, transformando-a em categoria estética e epistemológica. Nesse sentido, sua obra aproxima-se de perspectivas contemporâneas dos estudos culturais e da memória, que compreendem o folclore como prática viva, relacional e política.

Regina Lacerca livro 500 ok3

A inserção de Regina Lacerda na pesquisa folclórica foi decisivamente marcada pelo encontro com o folclorista Alceu Maynard Araújo, que a incentivou, orientou metodologicamente e a indicou como representante de Goiás na Comissão Nacional de Folclore.

Verdadeira fada do folclore

Conforme registra a arquiteta e pesquisadora Narcisa de Abreu Cordeiro, Regina Lacerda transforma-se, a partir desse contato, em uma verdadeira “fada do folclore”, culminando seus primeiros registros sistemáticos no livro Vila Boa. Tal reconhecimento situa sua produção em diálogo direto com a tradição acadêmica do folclore brasileiro, ao mesmo tempo em que a singulariza por seu viés afetivo e memorial.

Regina Lacerda foto Reprodução ok899955
Regina Lacerda: Mário de Andrade a reconheceria como um par intelectual | Foto: Reprodução

As mulheres reginianas ocupam rios, ruas, chafarizes, cultos, festas e bibliotecas. São figuras performáticas do cotidiano, resgatadas do risco do esquecimento e reinscritas no presente pela escrita.

Regina Lacerda também se eterniza como autora: criadora e criatura sobrevivem ao tempo nas linhas e entrelinhas de sua obra.

Seu receio quanto ao possível esmaecimento do folclore, observado por Paulo Brito do Prado, revela-se como motor ético de sua escrita, que transforma o passado recente em presença viva. Assim, Regina Lacerda permanece como precursora de caminhos, narrativas e memórias, inscrevendo Goiás no mapa simbólico da cultura, em especial do folclore goiano e brasileiro.

Publicações de Regina Lacerda

1

“Pitanga” (Goiânia, 1954);

2

“Vila Boa” (Goiânia, 1957);

3

“Cerâmica Popular” (Goiânia, 1957);

4

“Papa-ceia” (Goiânia, 1968);

5

“A Independência em Goiás” (Goiânia, 1973);

6

“Henrique Silva” (Goiânia, 1973);

7

“Cantigas e cantares” (Goiânia, 1978);

8

“Histórias que o homem de bronze contou” (Goiânia, 1981);

9

“Vila Boa – folclore” (após 20 anos, foi reeditado com inovações, desde o seu título, que passou a ser, “Vila Boa – história de folclore”).