Poesia de Wilson Pereira “navega” pelo rio heraclitiano do passado

“Vento, Cavalo do Tempo” transita por diversas instâncias, em que referenciais que habitam o inconsciente do poeta forjam uma narrativa repleta de signos e sutilezas

Ronaldo Cagiano

Especial para o Jornal Opção, de Lisboa

“E nenhum rio é como esse,/ o rosto magnificente da infância, a pátria imaginada da poesia.”Zetho Cunha Gonçalves

Em “Vento, Cavalo do Tempo” (Editora Água Viva, SP, 2019), sua mais recente safra poética, Wilson Pereira cavalga no dorso da infância e no galope da memória para construir uma obra primorosa formal e tematicamente.

Nesse caleidoscópio poético está presente não apenas o espírito estético de um autor sofisticado em sua oficina criativa (linguagem e lirismo elevados à sua máxima carga sensorial), mas também o apelo, sem exacerbação sentimental, de um tempo psicológico e de um território geográfico e afetivo que têm raízes naquele sentimento que o poeta carrega e que é identidade de todo um fazer literário: “O poeta que sou/ foi o menino/ que fui/ quem o criou”.

Quem acompanha a trajetória literária de Wilson Pereira — na poesia, na prosa, no infanto-juvenil — percebe uma salutar nostalgia que percorre a sua escritura. Se para Augusto Meyer “a memória da infância é uma ilha perdida”, para esse mineiro de Coromandel radicado em Patos de Minas e transcriado em Brasília, mas com um pé fincado naquela universalidade de que nos falavam Púchkin e Liev Tolstói (segundo o qual, cantar o próprio quintal é cantar o mundo), a instância do menino nunca se perdeu, é menos um “aislamiento” físico que um desembarque nas próprias origens. O seu passado insularizado de presentes é que rege a sua pena e com isso “A palavra que soa/ eclode no ar/ seus lumes/ ou seus gumes” para nos dizer do que é realmente essencial e profundo.

Eis um livro que deflagra um inventário existencial, pois “Vento, Cavalo do Tempo”, seccionado por campos semânticos que exploram os vários cenários e olhares do autor (Quânticos Somos, Teias, Canto das Águas, Voos Feridos, Colheita de Poemas, Aromas de Amores, O menino ao Longe e Poemas Diminutos) transita por diversas instâncias – reais ou oníricas – em que referenciais e mitos que habitam o inconsciente do poeta forjam uma narrativa repleta de signos e sutilezas. Na boleia de viagens que o poeta fez pelo grande sertão existencial, as veredas se bifurcam em planos reais e imaginários, espaço em que a criação adquire a plenitude de uma intensa comunicação, muitas vezes de projeções metafísicas.

Wilson pereira, poeta | Foto: Reprodução

Vale destacar nessa obra o encontro de estilos, em que o autor se dá a liberdade de deambular por vertentes que se forjam simbioticamente, conferindo ao todo um resultado plástico delicado. Entre poemas mais longos e minimalistas, do verso tradicional ao hai-kai, da expressão mais discursiva ao discreto humor, o autor emula vários símbolos em sua linguagem nada ortodoxa, mas não se perde em jogos verbais, em contorcionismos vãos ou no poema piada, como sói acontecer com certa geração em voga, em que a poesia perde o sentido para o inútil embaralhar de palavras. Wilson Pereira dosa sua liberdade de construção poética para dizer e tocar, ainda que na singeleza desta sentença: “A vida ensina/ todo dia/ uma nova lição,/ só as escolas/ é que não.” É um poeta que não necessita de arroubos ou contorcionismos verbais para sondar múltiplas atmosferas, pois labora naquela dimensão de que nos falava Ernesto Sabato: “Um bom escritor comunica grandes coisas com palavras pequenas; ao contrário do mau escritor, que diz coisas insignificantes com palavras grandiosas.”

Outra característica a destacar são as referências, intercessões, encontros e vasos comunicantes que sua poesia traz, na linha da intertextualidade, da metalinguagem, do diálogo com outros autores, do flerte com várias obras, numa rica contaminação de processos e que, no fundo, funcionam como homenagem, como em “Imitação de Mário Quintana”; ou neste, tão emblemático:  “Guimarães Rosa,/ tu me contaminas/ me conta Minas.”

Não é demais repetir que na poesia wilsonpereiriana a infância é um elemento primordial, é seu cadinho, onde se processa toda uma alquimia poética; e não há de ser diferente, pois é dela que trazemos a nossa bagagem, nossa formação espiritual, afetiva, psicológica e cultural: nossos totens, temas, fantasias, obsessões estão ali a nos dirigir. Uma arte intimamente ligada às raízes, aos nossos fluxos sensoriais e à nossa plural ancestralidade, o que nos remete ao que já nos dizia com seu farol atento o itabirano Drummond e que Wilson incorpora em todo o seu arcabouço poético: “É o menino em nós/ ou fora de nós/ recolhendo o mito”.

“Vento, Cavalo do Tempo” é também, como título, a composição de um preci(o)so artefato metafórico, nada espelha mais a transitoriedade existencial, senão essa ideia de velocidade, de imperenidade, de tirania do tempo. Estamos sempre subindo e desapeando da vida. No mesmo diapasão, vejo a poesia de WP como uma crônica dos sentidos, um flagrante do quotidiano e uma lanterna sobre o passado que na crônica e na ficção encontra similaridades com o lirismo de um Rubem Braga e João Anzanello Carrascoza, autores em cujo universo capturam  cenários que têm muito a ver com o que é o núcleo da expressão poética encontradiça em Vento, cavalo do tempo: a relação com o mundo anterior, com as tensões domésticas, com o vivido e experimentado em nossa vida interior (e interiorana).

Um livro que nos manda de volta à nossa infância alada, cavalgando no dorso arisco dos tempos, visitando os quintais e rios, os álbuns de família e os segredos do coração, as saudades e perdas que redigem nossa história pessoal e coletiva, seja em Patos de Minas ou em qualquer lugar do mundo, pois esses poemas falam do que diz respeito a uma humanidade perdida,  uma imersão em nossos mundos particulares.

Ronaldo Cagiano, escritor e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.

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