“Notre-Dame”, de Ken Follet, é declaração de amor à catedral cujo incêndio chocou o mundo

Livro do autor galês conta um pouco da história do templo religioso católico que é a alma de Paris; expectativa agora é com o início da reconstrução

Mariza Santana

Na tarde do dia 15 de abril de 2019, portanto antes do início da pandemia da Covid-19, as imagens do telhado da Catedral de Notre-Dame de Paris em chamas, e depois do pináculo incendiado se desfazendo, chocaram os parisienses e o resto do mundo. Afinal, o templo religioso pode ser considerado a alma da Cidade Luz, um símbolo icônico da capital francesa juntamente com a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo.

A cobertura da catedral, chamada de “A Floresta” devido à grande quantidade de madeira de carvalho utilizada na sua construção, foi tomada pelas labaredas de uma maneira irremediável, colocando em risco a estrutura física de toda a construção magnífica. Ainda bem que os bombeiros foram rápidos e impediram que o pior acontecesse. Quem gosta de história não deixou de se emocionar com o drama dos franceses, que tanto valorizam seu patrimônio cultural.

Aqui abro um parágrafo. Guardadas as devidas proporções, os parisienses sentiram dor semelhante à dos moradores de Pirenópolis, quando, no dia 5 de setembro de 2002, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário da cidade foi consumida por um incêndio. Vale lembrar que um templo religioso, como uma igreja, é um dos patrimônios mais importantes de uma cidade.

A igreja costuma ser construída em um lugar elevado para que todos a vislumbrem, e as mais antigas acabam se confundindo com a paisagem e a história local. Afinal, quanto casamentos, batizados e cerimônias foram realizados ali. Para a alegria e o sentimento de pertencimento da população de Pirenópolis, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário foi reconstruída, igualzinha como era antes. Moradores e visitantes podem ver e visitar a centenária igreja, que domina, impassível, o centro da cidade histórica goiana.

Ken Follett: um dos maiores best-sellers da literatura atual | Foto: Reprodução

Por isso, o incêndio da Catedral de Notre-Dame de Paris foi tão trágico, não somente para os franceses, mas também para as demais pessoas de diversas nacionalidades. Entre elas está o escritor galês Ken Follett, de 72 anos, autor do sucesso editorial “Os Pilares da Terra” (Rocco, 944 páginas, tradução de Paulo Azevedo), que conta a história fictícia da construção de uma catedral durante a Idade Média, seus defensores e opositores, com todos os ingredientes necessários a um bom romance histórico.

Abalado com a tragédia da catedral parisiense, Ken Follett escreveu um ensaio sobre o templo religioso, denominado “Notre-Dame — A História de uma Catedral”. O escritor inicia sua narrativa justamente se referindo ao incêndio de 2019, para depois contar um pouco sobre a saga de sua construção e reforma ao longo dos séculos. Segundo ele, no ano de 1163, a então Catedral de Notre-Dame tinha ficado pequena demais para uma cidade cuja população crescia devido ao desenvolvimento do comércio.

O bispo Mauricio de Sully, encantado com a Catedral de Chartes, decidiu que era hora de Paris ter um novo templo religioso, mais de acordo com as novidades arquitetônicas da época. “A Catedral Notre-Dame de Paris, assim como a maioria das grandes igrejas góticas que se mantêm como as mais belas construções de inúmeras cidades europeias, foi erguida na Idade Média, uma época marcada por violência, fome e peste”, destaca Ken Follett. Ele conta que a catedral estava “mais ou menos pronta por volta de 1260. Mas o bispo Mauricio tinha morrido em 1196. Ele não chegou a ver sua catedral concluída”.

Catedral de Notre-Dame, em Paris | Foto: Reprodução

Já na Paris do século 19, a Catedral de Notre-Dame estava firme, porém muito desgastada pelas agressões sofridas durante a Revolução Francesa e também por anos a fio de pouca ou nenhuma manutenção. O escritor Victor Hugo a resgatou do esquecimento após escrever o livro “O Corcunda de Notre Dame”, um sucesso literário devido ao drama da cigana Esmeralda e do corcunda Quasímodo, cujo cenário principal era a antiga catedral parisiense.

Foi o suficiente para que a Notre-Dame chamasse novamente a atenção dos parisienses e do mundo. E em 1844 a construção passou por uma grande reforma sob o comando do arquiteto Eugéne Viollet-le-Duc. No século seguinte, e também no início dos anos 2000, a catedral se tornou um dos locais mais visitados de Paris, com filas de pessoas para adentrar ao templo.

Então, em 2019 aconteceu o terrível incêndio, justamente quando passava por uma nova reforma. Agora, os debates são a respeito de sua reconstrução, afinal é preciso devolver a Paris seu maior monumento religioso e um dos mais importantes do ponto de vista arquitetônico. Vamos acompanhar o desenrolar dos fatos. Quem sabe, a saga da reconstrução da Catedral Notre-Dame pode render um novo romance de Ken Follett. Vamos aguardar.

Mariza Santana é crítica literária do Jornal Opção. E-mail: [email protected]

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