Caminhos de um editor

Nova editora goiana pretende resgatar autores esquecidos e subestimados pelo mercado editorial

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

A Editora e Livraria Ca­mi­nhos, fundada em no­vembro de 2013, está nas últimas etapas de preparação para sua entrada no mercado. Adotando a filosofia de priorizar a qualidade artística e o apuro gráfico em seu catálogo, o selo disponibiliza inicialmente quatro títulos de poesia em pré-venda para novembro e dezembro. Nessa entrevista, o escritor e editor Mário Zeidler Filho, idealizador da Caminhos, apresenta suas opiniões sobre o cânone literário, o mercado editorial goiano e brasileiro, o papel das editoras independentes na revelação de novos talentos e, principalmente, no resgate de autores injustamente esquecidos.

A Editora e Livraria Caminhos propõe abrir espaço a autores injustamente esquecidos ou negligenciados no mercado editorial nacional. Essa negligência é apenas do mercado ou também da imprensa, da academia, dos formadores de opinião de modo geral?
A questão é um pouco mais complexa do que aparenta porque o mercado editorial tem muitas facetas, cada uma com regras próprias. Como em qualquer área da indústria cultural, o que tange grande parte do mercado é a publicidade, o marketing, então não importa se falamos de livros ou sapatos, o que se vende é o produto da estação. Mas existe esta fatia de mercado que chamamos “culturalmente relevante”. Neste campo, o papel da imprensa e da academia, da chamada “classe intelectual” em geral, não se limita a movimentar o mercado, divulgando e debatendo as obras, pois os membros e apêndices desta classe são os principais agentes do mercado, são os produtores e consumidores destas obras. A mediação entre a produção e a divulgação de uma obra literária acontece quase exclusivamente entre pares, enviesada pela “política literária”. Então o julgamento nem sempre é justo, são muitos pesos e muitas medidas, e uma obra de maiores méritos pode não ter um reconhecimento proporcional.

Nesse sentido, o senhor concorda com o crítico Rodrigo Gurgel quando ele defende que o cânone literário precisa ser revisto, que muitos autores superestimados ocupam o lugar de escritores que mereceriam mais destaque?

Mesmo discordando de certas conclusões do Gurgel, que, aliás, não é o primeiro a propor este tipo de revisão, concordo que os cânones literários brasileiro, ocidental ou universal não podem ser tratados como dogma, até porque estas “injustiças” acontecem mais frequentemente do que gostaríamos. Uma delas é notada na comparação que ele faz entre Afonso Arinos e Hugo de Carvalho Ramos. Hugo era depressivo e suicidou-se pouco depois de publicar, às próprias custas, seu livro “Tropas e Boiadas”. Ele não era exatamente um literato de salão. Num caso mais próximo, logo após a publicação de “Poemas e Elegias”, de José Décio Filho, que agora reeditamos, a revista “Carioca” fez uma resenha favorável, mas reparando, como aspecto negativo, “seu anonimato voluntário e quase agressivo”. A falha do poeta não estaria num “soneto de pé quebrado”, mas em sua ausência da cena literária. Essa atitude não é de forma alguma um fenômeno recente. Num dos diálogos socráticos encontramos o “maior poeta de Atenas”, famoso não exatamente por seus versos, mas pelos grandes banquetes que oferecia. Agora, quem é este grande poeta? Não fosse Platão, nem mesmo saberíamos de sua existência, enquanto Homero continua a ser lido. Mesmo partindo de iniciativas modestas ou até individuais, o próprio tempo ajuda a corrigir estas falhas, e nesta linha podemos citar vários “ressuscitados” ilustres: Augusto dos Anjos, Cesário Verde, Sousândrade. Este é o tipo de iniciativa que tentamos tomar, da forma mais criteriosa possível. É bom lembrar que nem todos os esquecidos foram subestimados e que muitos dos “superestimados” tendem a ser abandonados, como os sapatos, logo que passa a estação.

Qual o efetivo papel que pode ser desempenhado pelas editoras independentes, levando em conta o espaço que ocupam no mercado e na mídia, no resgate desses autores?

O papel de resgatar ou descobrir novos autores tem sido, na verdade, desempenhado, sobretudo, pelas editoras independentes. Dificilmen­te uma grande editora irá apostar em autores obscuros, que não sejam promessas seguras de retorno financeiro. Nas pequenas editoras a própria falta de recursos nos leva a assumir estes riscos. Não podendo ir a Frankfurt com alguns milhões de dólares na mala para arrematar algum best-seller mundial, os pequenos precisam estudar, buscar nichos e procurar autores cuja publicação lhes renda, pelo menos, alguma satisfação pessoal e talvez algum prestígio no mercado. A divulgação acaba acontecendo de forma mais específica, no boca-a-boca, procurando interessados e tentando criar alguma repercussão. Quando o interesse atinge os “formadores de opinião”, o espaço na mídia acaba acontecendo. É um processo que envolve grandes esforços, maiores na medida da falta de recursos, mas vemos bons resultados. Por exemplo, nos últimos prêmios literários se vê entre finalistas e laureados um número expressivo de autores publicados por pequenas editoras, principalmente em categorias importantes mas pouco vendáveis, como a poesia. Claro que, uma vez premiado, as grandes editoras fazem o favor de “assumir” o autor. Mas então o pa­pel de descoberta ou resgate já foi cumprido, e o pequeno editor pode voltar ao trabalho com mais respaldo e visibilidade, quiçá algum lucro.

Uma das principais preocupações da Editora Caminhos é com o apuro gráfico de suas edições. Destacar essa questão significa que, de modo geral, os livros no Brasil, e em Goiás, são mal feitos, mal editados?

Existem, sim, algumas verdadeiras aberrações, e o senso estético de alguns editores é bastante duvidoso. Mas considerando todos os problemas que nosso mercado enfrenta, o livro brasileiro, no geral, é passável. Quero dizer, a maioria não chega a ser ilegível. Por outro lado, algumas editoras realizam trabalhos exemplares neste sentido. Em Goiânia, a Editora da Universidade Federal de Goiás e as Edições Ricochete têm alcançado bons resultados, mas é preciso admitir que o mercado editorial goiano tem muitas limitações. Existem poucos profissionais especializados, principalmente no que diz respeito à composição e ao tratamento do texto, e isso se vê até nos jornais, que têm muitos problemas de diagramação e nenhuma revisão. Há limitações também na indústria gráfica, que não está preparada ou não está interessada em produzir livros. Mas aqui o desinteresse e a falta de estrutura são reflexos do mercado, que é muito modesto e não tem, por assim dizer, uma vida própria, já que a maioria das editoras trabalha apenas com edições pagas pelos autores ou por meio de patrocínios, leis de incentivo e coisas do tipo. Talvez isso lhes dê alguma segurança financeira, mas não chegam a ter uma identidade cultural e muito menos um catálogo consistente. Con­correm no mercado editorial apenas como prestadores de serviços. Se concorressem por leitores, talvez o cenário fosse mais alentador. Mas é preciso esclarecer que o “apuro gráfico” que tentamos dar ao nosso projeto editorial não significa a exuberância de livros como os da Ricochete. Optamos por uma aparência puramente tipográfica, diretamente relacionada com os critérios que utilizamos na escolha do nosso catálogo, isto é, que privilegie o texto em si e evite o supérfluo, preservando sua autonomia.

Quais são as obras do acervo de abertura da Caminhos?

A centelha que deu início à editora aconteceu em 2011, quando eu, o escritor Filipe de Oliveira e o tradutor Sérgio Marinho, editamos uma plaquete, com cerca de cem cópias distribuídas entre amigos, de alguns sonetos do Heitor Quilles, então sob o pseudônimo João do Infinito. Quilles, que sempre foi muito rigoroso com sua poesia, continuou trabalhando os sonetos, até, de certa forma, esgotar suas possiblidades poéticas, e por isso aparecem agora como “Últimos Sonetos”. Nada mais natural, então, que iniciar nosso catálogo com este volume, que tem uma poesia de qualidade rara. “Violetas Viola­das”, de Teresa Godoy, chegou a ser impresso nos anos 1990, mas com a morte repentina da autora nunca chegou a ser lançado e continua, a rigor, “inédito”. Tem agudeza e uma sensibilidade poética muito feminina, e apesar de alguns traços típicos da época é uma obra esteticamente madura. Os depoimentos da primeira edição mostram que teve bom acolhimento crítico mesmo antes de vir a público; então, trata-se ao mesmo tempo do resgate e da descoberta de uma obra, o que não poderíamos deixar passar. Por sua vez, José Décio Filho não é exatamente um desconhecido, já que continua sendo um dos autores mais destacados em nossa história literária, considerado o mais importante da Geração de 45 em Goiás. Décio teve uma vida atormentada, que obviamente se refletia em sua poesia, mas mesmo as partes mais irregulares de sua obra estão alguns degraus acima da poesia comum de autores menos negligenciados. “Poe­mas e Elegias” teve duas edições anteriores: em 1953, pela Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, e uma edição póstuma, em 1979, organizada por Oscar Sabino Júnior, com patrocínio da Caixego.

Sempre nos espantou que em 35 anos a obra nunca tenha sido reeditada, e mesmo entre as anteriores, nossa edição será a primeira a ser regularmente comercializada, ou seja, a poesia de José Décio Filho estará realmente disponível ao público pela primeira vez. Já Antonio Macha­do é um dos poetas mais importantes do século 20, tão importante quanto Lorca na poesia espanhola, e “Campos de Castela” é sua obra mais representativa, sendo uma verdadeira lacuna do mercado brasileiro que pretendemos preencher. Teve grande influência entre os poetas brasileiros modernos, principalmente João Cabral de Melo Neto. Começamos por “Campos de Castela”, mas esperamos publicar sua obra completa.

Como foi o processo de seleção dessas obras, considerando que elas serão responsáveis pela apresentação da editora?

Quem tem poucos recursos tem também poucas opções. Mesmo assim, nossos primeiros planos eram começar com cerca de oito títulos, incluindo dois autores latino-americanos importantes, ainda inéditos no Brasil, cujos direitos de publicação ainda estamos negociando. Alguns reveses e um contato mais próximo com o mercado local acabaram por nos colocar, digamos, mais de acordo com a realidade, e por isso nos concentramos nesses quatro títulos, para nós, quase obrigatórios. Para um futuro próximo, planejamos edições de Oscar Wilde, Gabriele D’annun­zio, Sherwood Anderson, John dos Passos, e os citados Cesário Ver­de, Augusto dos Anjos e Hugo de Carvalho Ramos. Tam­bém continuamos com nossas pesquisas, e é claro, aceitamos sugestões e estamos recebendo originais.

A Caminhos também atua na internet. Recentemente houve um levante contra o quase monopólio do site Estante Virtual na venda de livros usados por encomenda. Como o senhor avalia esse episódio?

Na verdade, o levante não foi exatamente contra o monopólio, mas contra o aumento repentino das taxas e a falta de transparência nas contas do portal. Realmente, com taxas de mais de 10%, fora os outros custos, a venda de livros mais baratos fica inviável, principalmente para os pequenos livreiros. Houve uma migração para o Livronauta, que é a plataforma que usamos, mas a Estante ainda tem maior visibilidade. Como leitor, considero o mercado de livros usados muito importante, e como editor ele funciona como termômetro do que está sendo lido e do que pode ser editado. Achei o episódio positivo porque houve uma organização entre os livreiros ante uma ação impositiva da Estante, mas, neste ponto, acho mais perigosas as ações das grandes livrarias, que exercem uma pressão financeira muito grande e às vezes ultrapassam os limites do respeito. Recentemente, uma rede de megastores retirou os nomes das editoras da descrição detalhada dos livros em seu site. Isso é um erro tremendo, porque as editoras são referências muito importantes e dizem muito sobre a qualidade e a confiabilidade do texto. E mesmo quando “autopublicado”, o texto não sai direto da cabeça do autor para as mãos do leitor, existe uma grande cadeia intermediária de trabalho que precisa ser respeitada.

Leia trechos dos lançamentos de estreia da editora Caminhos

Campos de Castela

Cultural_1885.qxdAntonio Machado (1875-1939) está, ao lado de Federico Garcia Lorca, entre os maiores poetas de língua espanhola no século 20. Influenciando poetas tão díspares quanto João Cabral de Melo Neto e Waly Salomão e citado constantemente por estudiosos de literatura e filosofia, Antonio Machado nunca teve no Brasil a publicação integral de nenhuma de suas obras. E no conjunto destas, “Campos de Castela” representa uma realização definitiva.

DE PROVÉRBIOS E CANTARES

II
A quem nos justifica nossa desconfiança
chamamos inimigo, ladrão de uma esperança.
Jamais perdoa o néscio se vê a noz vazia
que fez quebrar aos dentes bons da sabedoria.

IV
Nossas horas são minutos
quando esperamos saber,
e séculos ao sabermos
o que se pode aprender.

V
Nem fruto verde colho
fora da estação,
nem, por louvar-me um tolo,
direi que tem razão.

VI
Disso que chamam os homens
virtude, justiça e bondade,
uma metade é inveja,
e a outra, não é caridade.

VII
Já vi garras ferozes saindo de mitenes,
conheço corvos mélicos, sei de varrões solenes.
O pior cretino leva a mão ao coração,
e o parvo mais espesso transborda de razão.

XII
É o melhor dentre os bons
quem sabe que nesta vida
tudo é questão de medida:
subir ou baixar semitons.

XIII
Virtude é a alegria que alenta o coração
mais grave e desenruga o cenho de Catão.
O bom é o que guarda, qual venda no caminho,
para o sedento, a água, para o bêbado, o vinho.

XIV
Cantem comigo em coro: saber, nada sabemos,
viemos de arcano mar, a ignoto mar iremos…
E entre esses dois mistérios está o enigma grave;
três arcas trancam uma desconhecida chave.
A luz nada ilumina e o sábio nada instrui.
Que dizem as palavras? E a água quando flui?

XX
Ontem eu sonhei que via
Deus e que com Deus falava;
e sonhei que Deus me ouvia…
Por fim sonhei que sonhava.

XXVII
Luz da alma, luz divina,
farol, tocha, sol, estrela…
Um homem às cegas caminha;
às costas, uma lanterna.

Poemas e Elegias

Cultural_1885.qxdJosé Décio Filho (1918-1976) foi um dos maiores poetas do século 20 em Goiás, sendo certamente seu maior expoente na chamada Geração de 45. Dotado de uma lírica forte e personalíssima, sua naturalidade de ritmo e dicção permitem à sua poesia um alcance universal. Embora extensamente elogiado, seu único livro, “Poemas e Elegias” (Bolsa Hugo de Carvalho Ramos, 1953) teve apenas uma reedição póstuma, em 1979.

POEMA VERTICAL
Dei um mergulho em mim mesmo,
num pulo de cabeça a baixo.
Tudo lá no fundo está quieto
como caminhos abandonados;
a paisagem esfumou-se e confundiu-se
num apaziguamento de cansaço.
Perdi-me nos atalhos sedutores,
gastei linhas retas e curvas,
inquietações e deslumbramentos.
De místicas visões e amargos projetos
fiz um montão de cadáveres.

Quanto trabalho perdido,
quanto tempo dissipado!
Mas de tudo que ajuntei
na mais lírica desordem,
alguma coisa houve de ficar,
alguma coisa que às vezes
se resolve em poesia ou em silêncio.

GRAVE ELEGIA
Quando me acho triste
(e isto acontece muito),
gosto de sair pelas ruas
qual um homem sem fichas,
vagamente deslembrado
de todos os compromissos.
Não tenho medo dos pobres
e dos vagabundos anônimos
que dormem nos bancos da praça.
Sento-me ao lado deles,
olho as árvores do jardim
e sonho com as matas virgens,
os rios escuros, selvagens,
viajando profundamente.
Se me atropelam na rua
ombros, rostos, gestos aflitos,
levanto os olhos sem susto
e vou sair no mar.
Enquanto os pescadores atentos
colhem peixe das águas,
estou pescando mistérios
para meu repasto.

As coisas só me penetram
quando sou livre e humilde.
As ondas, as músicas mais simples,
os longes, íntimas palpitações
de um mundo sem idade,
vêm aninhar-se no meu peito
como asas fluídicas da vida.
Depois vou-me embora,
leve e corajoso.

Também a luta de todos
já me arrastou às vezes.
No topo dessas tormentas
respirei as noites do ódio
sobre rios de escravidão.

Mas eu não quero importância
nem deitar falsa grandeza
sobre meus pobres irmãos.
Apenas quero existir naturalmente,
sem medo nem vergonha.

É um conforto sentir
que nunca me agradaria
ser general, estadista, chefe,
ou diretor das ondas hertzianas.
Simplesmente quero ser um homem,
pois a vida é muito séria.

Violetas Violadas

Cultural_1885.qxdTeresa Godoy (1931-1997) nasceu em Pirenópolis-GO. Embora tenha demonstrado inclinações artísticas desde jovem, dedicou-se à literatura apenas em seus últimos anos de vida. Sua única obra, “Violetas Violadas”, chegou a ser impressa, mas a morte repentina da autora fez com que o livro nunca fosse lançado.

MARESIA
Vestida de alvorada,
integro a vastidão.
Desbravo rochedos
e seus segredos,
piso areia quente,
cato conchinha,
me faço criança.
Escalo barranco
bordado de heras,
esbarro em bromélias,
arranco uma flor,
prendo nos cabelos:
me sinto bonita e sozinha.

VIOLÃO
do banquinho de boteco,
do gerânio da janela,
vai além,
plantando sonhos,
violando violetas
no sereno da sacada.
Cúmplice de indizíveis momentos,
no lânguido lamento da madrugada.

Últimos Sonetos

Cultural_1885.qxdHeitor Quilles (1969) nasceu no interior do Estado, mas viveu em Goiânia durante todo seu período de formação. Atualmente vive entre o Rio Grande e o Uruguai, onde adotou seu pseudônimo e trabalha como tradutor.

XII
Que é um teatro imenso o nosso globo
sabemos, mas a isso se acrescenta
que neste palco só se representa
um involuntário papel de bobo.

E embora mude sempre o figurino,
o enredo, previsível, não se altera.
Assim, de um bom ator o que se espera
é estar atento às deixas do destino.

Do alto assiste o tempo, enquanto passa,
ao ir e vir de máscaras no espaço.
E o que explica comédia tão sem graça
estar inda em cartaz é que o fracasso
de cada um, de todos é o sucesso.
Mas quem fatura a venda dos ingressos?

XIV
Escreve-se porque viver não é o bastante.
Viver é perder, pasmar-se, enquanto a escrita
recorta na matéria informe do instante
o que ao sentido e à farsa se habilita.

E com palavras, ferramenta asfixiante
que a imprecisão do gesto rude imita,
tenta-se sempre um uso, diferente de antes,
que entre o caos e o silêncio se limita.

Ah, nobre passatempo, pobre religião,
sem encontrar em ti verdade nem fervor,
inclino-me à beleza, extrema distração,

e chego ao absurdo que ia recompor.
Recolho-me do abismo onde outro abismo arrasta,
e ainda assim escrevo, pois viver não basta.

Uma resposta para “Caminhos de um editor”

  1. Com o lançamento de “Poemas e Elegias” a Caminhos se habilita a percorrer uma jornada interessantíssima. Pode desempenhar papel de proa na edição de obras com destaque nacional e reconfigurar a política editorial de Goyaz. Evoé, jovens editores.

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