Juan Marsé, em “Caligrafia dos Sonhos”, registra devaneios de um garoto na Barcelona pós-guerra

Romance do escritor espanhol comprova a força de sua narrativa, ao descrever a vida de famílias de um bairro popular da cidade catalã na época do regime de Franco

Mariza Santana

Ringo é um garoto de 15 anos, filho adotivo de uma família catalã, amante de música e das histórias do faroeste norte-americano. Mas a dura realidade do bairro popular da Barcelona do período pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945), onde mora, não lhe garante muitas perspectivas. Ele convive com o clima pesado do regime de Francisco Franco, o racionamento de alimentos e a atividade secreta de seu pai.

Nesse cotidiano, o garoto se refugia nos devaneios e na fantasia propiciados pelos livros e pelos filmes de cinema. Trabalhando de noite numa torrefação caseira clandestina de café, e passando as horas do dia sonolento na mesa do bar do bairro, sempre acompanhado de um livro, Ringo vai, pouco a pouco, se envolvendo com o drama vivido pela vizinha massagista, Vitoria Mir, e sua filha, Violeta.

Escrito com lirismo, “Caligrafia dos Sonhos” (Alfaguara, 290 páginas, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman), do escritor espanhol Juan Marsé, reforça a força da sua narrativa, deste que é considerado um dos mais importantes escritores da língua espanhola, sendo detentor de vários prêmios literários. Seu livro de estreia, “Últimas Tardes com Teresa” (confira resenha no link abaixo), já havia comprovado todo o talento de Marsé, ao traduzir em palavras, a dura vida dos pobres e migrantes espanhóis, principalmente por meio de suas desventuras.

Em “Caligrafia dos Sonhos”, o leitor é convidado a observar o cotidiano dos personagens de um bairro humilde de Barcelona através dos olhos de um garoto sonhador. Um dos destaques é o episódio da sua infância, quando Ringo abate um pássaro com sua espingarda, e depois se vê tomado por um forte sentimento de remorso pelo ato. É pura poesia.

Juan Marsé, escritor da Catalunha | Foto: Reprodução

Em seguida, o garoto Ringo, já na puberdade, acompanha atentamente, mesmo demonstrando total desinteresse, o enredo que envolve as vizinhas Vitoria e Violeta Mir com um ex-jogador de futebol manco, que apresenta toques de romantismo, drama e loucura.

O desfecho do romance é surpreendente (e, confesso, adoro ser surpreendida pelo escritor), pois nada era como parecia ser. Entretanto, é recomendável não contar nada mais além que isso, para não comprometer o efeito da mestria literária de Juan Marsé.

“Caligrafia dos sonhos” é o relato de como, dentro de um garoto sonhador, pode estar se formando aos poucos um grande escritor. Inclusive, Juan Marsé já havia confessado que a obra tem pontos autobiográficos. E na realidade, a maioria das obras literárias reproduz muito da vida de seus autores, como se fosse um caleidoscópio formado de imagens fragmentadas de sua vida.

Juan Marsé (cujo nome de batismo é Juan Faneca Roca) nasceu em 1933, em Barcelona, e faleceu no ano passado, também em sua cidade natal, aos 87 anos. O texto de apresentação de seu livro de estreia, “Últimas Tardes com Teresa”, foi escrito pelo prêmio Nobel de Literatura de 2010, o prosador e crítico literário Mario Vargas Llosa. O escritor peruano é outro gigante da literatura de língua espanhola.

O escritor catalão Juan Marsé também é autor de “Feitiço de Xangai”, “Rabos de Lagartixa”, “O Amante Bilíngue”, “Essa Puta Tão Distinta”.

Mariza Santana é crítica literária do Jornal Opção. E-mail:Mariza Santana – [email protected]

Leia mais sobre a literatura de Juan Marsé

Livro de Juan Marsé mostra romance entre migrante e rica universitária na Barcelona pós-guerra

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.