Impressões de viagem sobre Lisboa
06 junho 2026 às 21h01

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Fernando Cupertino
Em Lisboa
Venho com alguma frequência a Lisboa, por razões de trabalho. Desde 2016, coordeno a Comissão Temática da Saúde e Segurança Alimentar e Nutricional dos Observadores Consultivos da CPLP (a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Além disso, estou no meu segundo mandato como membro do Conselho do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, da Universidade Nova de Lisboa, que presido desde outubro de 2023, para um mandato de quatro anos. Consequentemente, isso faz com que, cerca de cinco ou seis vezes ao ano, eu tenha que me deslocar até Lisboa, além das diversas atividades realizadas por videoconferência.
Desta vez, mesmo com uma permanência bem curta, de apenas três dias, aprofundei meu olhar sobre certos aspectos que me chamam atenção, especialmente em comparação com o que temos no Brasil. Enumero alguns deles.
1
Boa parte da população locomove-se utilizando os transportes públicos (metrô, ônibus e bondes, aqui chamados de metro, autocarros e elétricos, respectivamente).
Ainda assim, o volume de automóveis em circulação é grande, o que acarreta congestionamentos em certas horas do dia, tanto em Lisboa, quanto no Porto, as duas maiores cidades do país.
A gasolina teve um aumento importante no preço, certamente em razão dos reflexos da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã. Está custando mais de 2 euros o litro, o que equivale a cerca de 13 ou 14 reais, praticamente o dobro do que se paga no Brasil.

2
As pessoas consagram um bom período de tempo para as refeições, seja em casa, seja nos restaurantes, nas pastelarias (que não vendem pastéis como os conhecemos no Brasil), em supermercados ou mesmo nas praças de alimentação dos centros comerciais. Embora as cadeias multinacionais de hambúrgueres e de outras comidas ultraprocessadas estejam presentes — como em toda parte; uma espécie de pandemia —, aqui a cozinha tradicional continua a ter um peso importante na rotina das pessoas.
3
Em Lisboa, principalmente em suas partes mais antigas, os edifícios de apartamento não são tão elevados. No máximo quatro ou cinco andares (ou pisos, como são chamados). Como há uma população idosa em volume expressivo, é bastante comum ver os idosos a subir e a descer escadas para irem às compras, ou a outras atividades da vida social, o que, por certo, contribui positivamente para a sua saúde e qualidade de vida.
4
As expressões da vida quotidiana, que denotam civilidade, por aqui não se perderam. Dá-se e recebe-se um bom-dia como preâmbulo obrigatório quando se entra em um estabelecimento comercial, por exemplo.

Além disso, é comum ver os mais jovens cederem seu lugar no transporte público para que um idoso possa se sentar. Eu mesmo já passei por essa experiência, o que me levou ao definitivo reconhecimento de que estou mesmo na chamada “terceira idade”.
5
Há uma genuína preocupação das autoridades sanitárias com respeito à alimentação saudável, como uma das estratégias de promoção da saúde. Come-se cada vez mais com menos sal e com menos açúcar. Mesmo os famosos e deliciosos doces conventuais, que dão justa e merecida fama ao país, não são excessivamente doces; os sucos industrializados (aqui chamados de “sumo”) contêm muito mais fruta e menos açúcar do que os nossos.
6
Portugal ainda é um país majoritariamente católico. Assim, mesmo que as estatísticas apontem uma redução do número de fiéis nos últimos tempos, percebe-se que a religiosidade ainda tem um peso importante, com grande adesão às diferentes festas religiosas tradicionais.
7
O futebol é uma grande paixão. A rivalidade entre os torcedores do Benfica e do Sporting, em Lisboa, é uma constante. E lá para o norte, é o Futebol Clube do Porto quem domina as preferências do público.
8
A despeito de ser um país tão pequeno (cerca de 92 vezes menor que o Brasil) e com uma população inferior à da cidade de São Paulo, há uma diversidade imensa na culinária e nos vinhos produzidos nas distintas regiões do país. Costumo dizer aos meus amigos daqui que, em Portugal, come-se muito bem e bebe-se melhor ainda!
9
Se os franceses têm justificado orgulho pela grande variedade e qualidade de seus queijos, os de Portugal não ficam a dever. Seja o famoso queijo da Serra da Estrela, seja o do Azeitão, estão sempre presentes à mesa de todas as famílias, isso sem deixar de mencionar o São Jorge, que vem dos Açores, e muitos mais.
10
Dois aspectos capazes de nos fazer muita inveja: há bastante movimento nas livrarias e muita gente a ler; e há praças e avenidas arborizadas e muito bem cuidadas, onde as pessoas passam o seu tempo livre a desfrutar daquele ambiente agradável, sozinhas ou acompanhadas.
11
Se você chamar um veículo por aplicativo (Uber ou Bolt), haverá uma grande probabilidade de que o motorista seja um imigrante que, muitas vezes, mal consegue balbuciar alguma coisa em língua portuguesa. O que vale é que ajudas do tipo Google Maps ou Waze substituem a necessidade de indicação verbal sobre o destino da viagem. Também no comércio, a presença de imigrantes é imensa: africanos, hindus, paquistaneses, nepaleses, latino-americanos e… brasileiros!
12
Por último, se estiver num restaurante, por mais modesto que seja, não apenas em Lisboa, mas em qualquer outra cidade, por menor que seja, peça o vinho da casa sem medo. Costuma ser de excelente qualidade, pouco importa se se trata de um afamado restaurante ou de uma humilde tasca.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.



