2 poemas de Maksimilian Volóchin com tradução direta do russo por Astier Basílio
06 junho 2026 às 21h01

COMPARTILHAR
Trótski: Volóchin escreveu os melhores poemas sobre a Revolução Russa
Astier Basílio
Em Moscou
No dia 28 de maio deste ano, completaram-se 149 anos do aniversário de nascimento do poeta Maksimilian Volóchin.
Nascido em Kiev, na Ucrânia, em 1877, Maksimilian Volóchin iniciou os estudos universitários em Moscou, de onde foi expulso por ligação com o movimento estudantil.
O poeta e artista plástico viajou para Europa e fixou residência na Crimeia.
Em 1909, protagonizou um duelo com o poeta Nicolai Gumiliov, futuro marido da poeta Ana Akhmátova, por causa da poetisa Cherubina de Gabriak. Os dois saíram ilesos daquele que foi o último duelo da literatura russa.
Artista plástico de grande talento, Maksimilian Volóchin como ninguém pôde observar os acontecimentos políticos da revolução de 1917. Como um pintor, traçou em seus versos aquilo que via ao seu redor.
Maksimilian Volóchin mereceu de Liev Trótski, também ucraniano, o seguinte elogio: “Estes são os melhores poemas sobre a Revolução Russa, apesar da sua forma contra revolucionária”.
Compartilhamos abaixo nossa tradução de um dos poemas desse ciclo.

1
Terror
Reuniam-se à noite a trabalhar. Iam lendo
Denúncias, informes e processos.
Assinavam às pressas as sentenças.
Bocejavam. Bebericavam vinho.
De manhã davam vodca aos soldados.
Anoitecia e à luz de castiçais
Chamavam de uma lista mulheres, homens
E os levavam à sombra de algum pátio.
Os sapatos, as vestes, roupas íntimas
Retiravam, fechando-as em fardos.
Enchiam uma carroça. Iam embora.
Dividiam os anéis e os relógios.
Conduziam de madrugada os nus,
Os descalços, num chão de pedra em gelo,
Sob o vento que sopra do nordeste,
A descampados pelos arrabaldes.
À beira do barranco, a coronhadas.
Levantavam, então, suas lanternas.
Meio minuto com metralhadoras.
Terminavam o serviço a baionetas.
Eram postos nas covas os não mortos.
Rapidamente cobriam-nos com terra.
Cantando uma canção imensa, russa,
Voltavam à cidade, a suas casas.
Vinha a aurora e então se aproximavam
Daquele arrabalde, esposas, mães e cães.
Remexiam a terra. Disputavam os ossos.
Davam beijos na carne tão querida.
26 de abril de 1921, Sinferopol

2
O soneto abaixo reflete o impacto da queda do império russo.
Paz
Com a Rússia acabou… Disso redunda
Que a berramos, maldamos, maldizemos
Descascamos, cuspimos e bebemos,
A enxovalhamos nas praças imundas.
*
Vendemo-la na ruas: querem isso, a
Liberdade, direitos aos civis
Terras, repúblicas? O nosso país
O povo pôs no esterco igual carniça.
*
Ó, Senhor, estraçalhe, espalhe e envie
Pragas, açoites sobre nós aqui,
Por um lado alemães, do outro mongóis.
*
Dê-nos a escravidão, pois é preciso
Que o pecado de Judas que há em nós,
Expie-se até o Dia do Juízo!
23 de novembro de 1917, Koktebel



