Trótski: Volóchin escreveu os melhores poemas sobre a Revolução Russa

Astier Basílio

Em Moscou

No dia 28 de maio deste ano, completaram-se 149 anos do aniversário de nascimento do poeta Maksimilian Volóchin.

Nascido em Kiev, na Ucrânia, em 1877, Maksimilian Volóchin iniciou os estudos universitários em Moscou, de onde foi expulso por ligação com o movimento estudantil.

O poeta e artista plástico viajou para Europa e fixou residência na Crimeia.

Em 1909, protagonizou um duelo com o poeta Nicolai Gumiliov, futuro marido da poeta Ana Akhmátova, por causa da poetisa Cherubina de Gabriak. Os dois saíram ilesos daquele que foi o último duelo da literatura russa.

Artista plástico de grande talento, Maksimilian Volóchin como ninguém pôde observar os acontecimentos políticos da revolução de 1917. Como um pintor, traçou em seus versos aquilo que via ao seu redor.

Maksimilian Volóchin mereceu de Liev Trótski, também ucraniano, o seguinte elogio: “Estes são os melhores poemas sobre a Revolução Russa, apesar da sua forma contra revolucionária”.

Compartilhamos abaixo nossa tradução de um dos poemas desse ciclo.

Maksimilian Volóchin pintura
Maksimilian Volóchin | Pintura

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Terror

Reuniam-se à noite a trabalhar. Iam lendo

Denúncias, informes e processos.

Assinavam às pressas as sentenças.

Bocejavam. Bebericavam vinho.

De manhã davam vodca aos soldados.

Anoitecia e à luz de castiçais

Chamavam de uma lista mulheres, homens

E os levavam à sombra de algum pátio.

Os sapatos, as vestes,  roupas íntimas

Retiravam, fechando-as em fardos.

Enchiam uma carroça. Iam embora.

Dividiam os anéis e os relógios.

Conduziam de madrugada os nus,

Os descalços, num chão de pedra em gelo,

Sob o vento que sopra do nordeste,

A descampados pelos arrabaldes.

À beira do barranco, a coronhadas.

Levantavam, então, suas lanternas.

Meio minuto com metralhadoras.

Terminavam o serviço a baionetas.

Eram postos nas covas os não mortos.

Rapidamente cobriam-nos com terra.

Cantando uma canção imensa, russa,

Voltavam à cidade, a suas casas.

Vinha a aurora e então se aproximavam

Daquele arrabalde, esposas, mães e cães.

Remexiam a terra. Disputavam os ossos.

Davam beijos na carne tão querida.

26 de abril de 1921, Sinferopol

Maksimilian Volóchin três fotos 2

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O soneto abaixo reflete o impacto da queda do império russo.

Paz

Com a Rússia acabou… Disso redunda

Que a berramos, maldamos, maldizemos

Descascamos, cuspimos e bebemos,

A enxovalhamos nas praças imundas.

*

Vendemo-la na ruas: querem isso, a

Liberdade, direitos aos civis

Terras, repúblicas? O nosso país

O povo pôs no esterco igual carniça.

*

Ó, Senhor, estraçalhe, espalhe e envie

Pragas, açoites sobre nós aqui,

Por um lado alemães, do outro mongóis.

*

Dê-nos a escravidão, pois é preciso

Que o pecado de Judas que há em nós,

Expie-se até o Dia do Juízo!

23 de novembro de 1917, Koktebel