Getúlio Vargas: do crepúsculo à entrada para a história

Na última parte da trilogia, o jornalista Lira Neto, amparado numa minuciosa pesquisa, reconstitui os últimos anos da vida de Getúlio Vargas procurando elucidar um dos períodos mais importantes da história política brasileira

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Getúlio Vargas: o mais importante político brasileiro desde dom Pedro II

Salatiel Soares Correia
Especial para o Jornal Opção

E aquela vida tinha tudo para ser pacata como pacato era o dia a dia naquela cidadezinha de 35 mil habitantes, localizada no interior do Rio Grande do Sul, bem perto da fronteira com a Argentina. A São Borja daqueles tempos tinha ruas sem calçamento e precárias condições de saneamento. Somava-se a isso o incômodo do irmão Protásio e da cunhada que ficavam com a presença de um hóspede que atraía muita gente à sua volta e baforava fumaça de charuto pela casa toda. As finanças apertadas levaram nosso personagem a ficar na casa dos outros naquele lugar distante do Brasil moderno que ele ajudou a construir. Um Brasil que caminhava a passos acelerados para a urbanização. São Borja, no Rio Grande do Sul, era a antítese dessa modernização que se construía no eixo-mais dinâmico do país — Rio-São Paulo.

Não, decididamente, não eram aquelas as condições condizentes com a grandeza dele, ainda mais tendo sido ele o homem mais poderoso do Brasil por longos 15 anos: Getúlio Dornelles Vargas, “naquele final de 1945, após 15 anos ininterruptos no exercício do poder máximo da República, um humilhado Getúlio Vargas retornara a São Borja, na qualidade de cidadão comum, recebido como ‘hóspede’ na velha propriedade da família, na estância Santos Reis, da qual era sócio minoritário”, assim atesta, em seus escritos, seu biógrafo, Lira Neto, que dispensa apresentações, no encerrar da trilogia que ele escreveu a respeito da vida do mais importante personagem do Brasil republicano.

No encerrar dessa trilogia, o autor lança um novo olhar sobre o período de “exílio” da vida do filho do general Manuel Vargas: o tempo em que, distante aproximadamente 1.500 quilômetros da capital política do país, Getúlio deveria amargar o ostracismo político. Digo deveria, mas não foi o que o olhar investigativo de seu biógrafo nos mostra. Os fatos que adiante descreveremos revelam que a “velha raposa” apenas voltava a subir no umbuzeiro para, de lá, no momento certo, retornar às luzes da ribalta do palco que nunca saiu. O processo político brasileiro passaria seguramente por aquela cidadezinha do interior.

O Brasil vai a São Borja

Na condição de ator principal da cena política nacional desde a Revolução de 1930, a “velha raposa” não poderia — nem queria — desvencilhar-se dos acontecimentos políticos do país. Getúlio amava o poder.

Se São Borja não podia ir ao Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa, na condição de pulmão político do país, ia a São Borja. O vaivém das principais lideranças políticas era de fato incessante rumo àquele município. Jornalistas, velhas e novas lideranças políticas e admiradores rumavam para aquele minúsculo município do Rio Grande do Sul. De lá, saiu o decisivo apoio varguista para a eleição de seu sucessor, o general Eurico Gaspar Dutra. Foi de lá também que Getúlio se elegeu senador e deputado federal por vários Estados sem ao menos sair de casa. A partir de São Borja, o queremismo — movimento que pregava a volta da “velha raposa” ao poder — tomava conta do país. Em São Borja, o ditador se metamorfoseou num líder de massas. Foi lá na fronteira do Brasil com a Argentina que uma amizade consolidou a construção de um discípulo, filho de um colega de infância de Getúlio: João Belchior Goulart, mais conhecido pelo codinome de Jango. “A ligação dos Goulart com os Vargas era antiga. O pai de Jango estudara com Getúlio nos tempos da escola primária do professor Fabrício Júlio Braga em São Borja. Mais tarde, adquirira, em sociedade com Protásio, um frigorífico na cidade vizinha de Itaqui”, assim nos conta o detalhista Lira Neto. Aliás, detalhes que permeiam todos os escritos de um pesquisador incansável, detalhes que enriquecem sua narrativa. “O quarto de Ge­túlio, mobiliado apenas com a cama rústica, uma mesa redonda, a cadeira de balanço e dois criados-mudos adornados com flores naturais”, narra o autor para em seguida acrescentar: “Como fazia questão [Getúlio] de estar sempre bem barbeado, o estojo amarelo com as lâminas Schick e o aparelho dourado Injector Razor ficava logo à mão”.

Creio ser oportuno reproduzir o que nos conta Lira Neto em diferentes momentos de seus escritos quanto à importância de São Borja como novo centro político do país. “Não me deixam trabalhar.

São dois aviões por dia”, relatava Getúlio a um importante jornalista da época, Samuel Wainer, referindo-se à romaria de políticos que iam à sua procura em São Borja. “Cerca de 5 mil gaúchos, vindos de todos os recantos do Rio Grande do Sul, rumaram em direção à estância São Vicente, propriedade de João Goulart, no dia 19 de abril de 1949, data do 67º aniversário de Getúlio”, diz Lira Neto para, em seguida, revelar o testemunho de Samuel Wainer a respeito do acontecido. “Chega­vam a cavalo, chegavam a pé, vi­nham de longe, trajando ponchos vistosos; era o povo marchando ao encontro de seu líder.” Um último relato do autor nos ajuda a entender a importância de São Borja naqueles anos em que a “velha raposa” lá fi­xou residência. Amigos e adversários políticos iam beber água da mesma fonte varguista. “O ano que antecedeu às eleições presidenciais de 1950 não se encerrou antes de dois grandes acontecimentos, ocorridos em novembro e dezembro, que transferiram o eixo político do país para a pequenina São Borja. Nereu Ramos, sentindo-se desimpedido em relação aos pactos com a UDN, foi confabular com Getúlio em busca de uma nova associação que lhe mantivesse as esperanças a chegar ao Catete. Ademar de Barros, percebendo que o PSP não poderia marchar sozinho na contramão de todos os demais partidos, decidiu fazer o mesmo e também rumou para o Rio Grande, na esperança de conquistar o apoio do líder trabalhista.”

Ainda bem que o velho Gegê acabou mudando de casa. O irmão Protásio e a cunhada não tinham mais a identidade de ter uma residência. Tinham lá suas razões para estarem aborrecidos. Era o preço que pagavam por ter como hóspede quem, naquele momento, já era um mito para amigos, inimigos e para toda a nação brasileira. A pequenina São Borja se transformara, de fato, naqueles tempos, no celeiro político do país.

Alzira Vargas, a eminência parda do pai

O novo olhar de Lira Neto põe luzes na relação de Getúlio com sua verdadeira eminência parda: a filha predileta Alzira Vargas. Destrinchar essa relação entre pai e filha foi possível graças à extensa correspondência a que o autor teve acesso, correspondência essa que possibilitou ao seu biógrafo detalhar a relação de Getúlio Vargas com a pessoa com a qual tinha a mais absoluta confiança.

Desse modo, Getúlio, embora fi­si­camente distante do caldeirão político da capital federal, estava bem pró­ximo de lá. Seus olhos e ouvidos sempre foram a esposa do ex-governador Amaral Peixoto. Mais que uma informante, Alzira se tornou uma importante articuladora política que chegava ao ponto de, em certos momentos, orientar as ações políticas do pai.

Em vários acontecimentos, os escritos do autor demonstram que a filha era a pessoa que Getúlio mais escutava. Em vários momentos, percebe-se essa estreita proximidade. Estar distante do caldeirão político era, em certas situações, o mais prudente. Alzira percebia o fato e aconselhava o pai: “Se passares por aqui [Rio de Janeiro] e depois fores viajar [para o exterior], os trabalhadores se considerarão corneados, pois te elegeram e tu foste passear, ponderava para em seguida aconselhar o pai: ‘mas se ficares aí [em São Borja] espiritualmente prisioneiro, nem o Rodolfo Valentino te ganha em prestígio’”, dizia Alzira com aguçado faro político.

A filha predileta de Getúlio sempre estava atenta a tudo e a todos. Percebia detalhes, sentia emoções de amigos e adversários e disparava a escrever suas cartas ao pai em São Borja. Foi assim, ao perceber que o presidente Dutra necessitava do indispensável apoio político de Getúlio, que Alzira comunicou ao pai: “A atitude de Dutra em relação a ti é de gratidão e simpatia medrosa. Deseja tua colaboração, mas teme”. Em outras ocasiões, o incentivo da filha ia na direção da volta de Getúlio à presidência pelo voto direto. “Quero que te devolvam o que é teu, a glória tomada de 15 anos de luta silenciosa e tenaz, quero que reconheçam, um a um, publicamente, o que te negaram ou silenciaram em covardia. O resto é silêncio, de minha parte. Estou no mesmo barco, para o que der e vier, e qualquer um serve. Decide o que te parece melhor, na certeza de que a parada é tua e de mais ninguém.”

Astuta, Alzira percebia a hora certa de atacar e recuar ante os adversários. Em uma dessas ocasiões, aconselhava o pai a não atacar o governo Dutra. “Atacar seria assustar sem proveito um bando de ratos, descer ao nível deles e até certo ponto decepcionar o povo que espera de ti uma campanha elevada, com coisas concretas e esperanças para o futuro”, aconselhava.

Getúlio e seus adversários

Se existe algo com que o pai de Alzira teve de conviver, ao longo de toda sua vida pública, foi com uma ferrenha oposição não só de políticos, mas de parcela considerável da imprensa. Com estes, a “velha raposa” agia com a imensa flexibilidade inerente aos grandes mestres da política. Calava-se quando a situação assim exigia, sempre, aguardando o momento certo para dar o troco.

Várias passagens dos escritos de Lira Neto evidenciam o modo de ser getulista no trato com seus adversários. A própria retirada estratégica para São Borja foi resultante de apurado cálculo político. Como cálculo político também foram suas sucessivas licenças do Parlamento para se recolher em sua terra natal. O senador Getúlio pouco frequentou a casa, fazendo de seu suplente — o desconhecido Camilo Teixeira Mércio — o senador de fato. O mandato serviu mais como couraça para a “velha raposa” se resguardar de seus inimigos políticos. Inimigos como o combativo Carlos Lacerda, Euclides Figueiredo (pai do futuro presidente João Figueiredo) ou os polêmicos jornalistas Assis Chateaubriand (o Chatô) e David Nasser. “Impotente e desencorajado, vendo esfarrapada a sua mística [ante a derrota dos candidatos que Getúlio apoiava], o chefe do Estado Novo, em São Borja, vacila como um pavio de um grande candeeiro, prestes a se apagar.” Chatô atinha sua crítica ao fato de os candidatos apoiados por Getúlio terem perdido as eleições. Entretanto errou copiosamente ao não considerar o poder político que a “velha raposa” tinha quando ele mesmo se candidatava a qualquer cargo eletivo. Uma coisa era Getúlio apoiar; outra bem diferente era ser o candidato. Sua volta, pelos braços do povo como presidente eleito, mostra o equívoco do dono dos “Diários Associados” no tocante à capacidade do pai de Alzira mobilizar o povo. Sua metamorfose como líder de massas era até então desconhecida pelo combativo jornalista. Era troco que vinha na hora certa. Coisas de um verdadeiro animal político que calcula cada passo que dá em relação ao futuro.

A volta do retrato do velho

“Bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar. O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar.” Essa marchinha de grande sucesso no carnaval carioca de 1951 fez um sucesso danado. Naquele ano, Getúlio Vargas tomaria posse como presidente eleito do Brasil.

O contexto político era completamente diferente dos 15 anos em que o filho do general Manuel Vargas governou o país. Nesse ambiente, a “velha raposa” teria de conviver com os instrumentos de uma imprensa livre e aguerridos adversários que não lhe davam sossego em momento algum. O sistema político daqueles tempos mais se parecia com uma panela de pressão que estouraria (como veio a estourar) a qualquer hora. Num ambiente democrático, Getúlio precisou enfrentar delicadas situações políticas (entre elas um impeachment que não se realizou), bem como a revolta dos coronéis que futuramente consolidariam, em 1964, o que a história política do país registrou: o Golpe de 1964.

Não restam dúvidas que de todos os adversários políticos do getulismo um nome se destacava ante a ferocidade de suas críticas: Carlos Lacerda. Sua escrita ferina e altamente inquietante tinha endereço certo: o inquilino mais ilustre do Palácio do Catete — Getúlio Vargas. Lacerda não perdoava o mínimo vacilo. “A bacanal de Coberville”, assim se referiu ele à nababesca festa que participaram, em Paris, a filha e a esposa de Getúlio. O alvo e a intensidade das críticas eram cada vez mais frequentes. Transcrevo algumas delas dos escritos de seu biógrafo. “Protetor de ladrões, “caudilho e golpista”, “desonrado e inepto”, “corruptor e abjeto”. A mente brilhante, diabólica e altamente comunicativa do ex-governador do antigo Estado da Guanabara criaria uma expressão que se imortalizou ao se referir à corrupção (segundo ele) incessante que desaguava no governo do líder da Revolução de 1930: “Mar de lama”.

Alzira Vargas: mais que uma informante do pai, tornou-se uma importante articuladora política | Foto: Zero hora

Alzira Vargas: mais que uma informante do pai, tornou-se uma importante articuladora política | Foto: Zero hora

A metralhadora lacerdista não poupava nem mesmo o filho de Getúlio — Lutero — que o acusava de ser “o filho rico do ‘pai dos pobres’”. Lutero era o “degenerado”, “meliante” e “ladrão” (este adjetivo se referia ao fato do patrimônio de Lutero não ser condizente com sua profissão de médico).

Samuel Wainer, assumido defensor do getulismo e dono do jornal “Última Hora”, tomava as dores do “pai dos pobres”. Não dava outra: o duelo público entre esses dois talentos da escrita registrou os momentos mais vibrantes (e tensos) de toda a história do jornalismo brasileiro.

Um desses momentos da contenda entre os dois homens de imprensa se deu com a morte do repórter policial Nestor Moreira, espancado até a morte, nas dependências de uma delegacia de polícia. Lacerda, como de costume, ligou o episódio à imagem do governo. Samuel Wainer não perdoou. Lira Neto transcreve detalhadamente a irônica defesa de Wainer ao atacar Carlos Lacerda: “O Corvo fingiu misturar-se à massa popular que acompanhava o enterro. Cercou com tarjas negras o seu pasquim, açodou-se nos apelos às missas e funerais, soltou seus habituais gritos histéricos […] o Corvo, porém, podia enganar o povo, não os verdadeiros jornalistas que sempre estiveram ao lado de Moreira em vida e nos momentos de sua agonia. Estes sabiam muito bem quais eram os desígnios do Corvo, estes sabiam que ele sempre fora um inimigo da classe pela qual Moreira tombou”.

Getúlio presidente, numa ambiência democrática, teve também de enfrentar um efervescente movimento sindical e suas eternas reivindicações em torno de sua causa maior: o aumento do salário mínimo. Este era seguramente um fator que elevava a temperatura da panela de pressão do sistema político brasileiro. Nesse sentido, é que aparece a figura de João Goulart que se cola a de seu padrinho político. “O ministro João Goulart tem uma sensibilidade à flor da pele para compreender e sentir, como poucos, as necessidades e os problemas dos trabalhadores”, dizia Getúlio e acrescentava, no tocante à representatividade do Ministro do Trabalho: “Naquilo que ele vos disser, estará me representando. Podem confiar nele, como se fossem em mim”. A ironia do destino é que Jango, sendo um destacado membro da elite econômica do país, tornou-se um árduo defensor da classe trabalhadora. Certamente, ele era o colaborador mais próximo do presidente, mas distante dos militares. Esse sentimento anti-jango se voltaria contra ele no momento em que veio a não ser aceito como presidente pela caserna que o detestava.

O governo de Getúlio seguramente consolidou as bases em que se alicerça o Brasil moderno. Os escritos de Lira Neto revelam isso com clareza. A começar pela inovadora maneira como ele driblou a política clientelística brasileira, então, criando uma estrutura paralela de governo que foi, anos mais tarde, copiada por um ilustre sucessor da “velha raposa” dos pampas: Juscelino Kubitschek. “A assessoria foi uma solução informal e muito imaginativa do presidente Getúlio Vargas para escapar do cerco político ao qual ele tinha sido obrigado na escolha dos ministros”, define um importante técnico daquela época, Cleanto Leite, citado nos escritos de Lira Neto. No campo político, turbulências, no campo econômico, a modernização do país. Eis aí a dicotomia que se vivia no governo Vargas.

Não restam dúvidas de que as influências da estrutura paralela de governo — repleta de técnicos de alta qualidade com acesso direto ao presidente da República — germinaram a racionalidade como opção política de governo nos tempos da democracia getulista.

Dessa parceria, nasceriam as principais instituições do Estado brasileiro que moldaram o Brasil moderno — e que existem até hoje. Que o diga o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), o Banco do Nordeste (BNB) e a maior empresa estatal brasileira que se tornou fundamental para o desenvolvimento do país: a Petrobras. A Eletrobrás, embora concebida no governo Jango, foi idealizada na era Vargas.

As instituições getulistas se tornaram os nervos e os braços do Estado brasileiro que construíram o Brasil moderno ── seja nos tempos democráticos, seja nos tempos autoritários. Juscelino Kubistchek não teria feito o governo que fez sem a herança bendita que recebeu do getulismo: um Estado instrumentalizado para o desenvolvimento. Pelo mesmo caminho andou a modernização da economia brasileira que presenciamos nos tempos autoritários e que não teria sido possível sem a estrutura de Estado herdada do getulismo. Passados 60 anos de seu falecimento, o espírito do líder da revolução de 1930 permanece vivo na memória de cada um de nós. “Pai dos pobres ou dos trabalhadores”, como queiram, o fato é que ninguém até hoje lhe tirou o trono de ter feito um governo de fato moderno.

Não dá mais pra segurar: explode coração

A aparente tranquilidade que Getúlio Vargas demonstrava em público nos momentos de muita turbulência não refletia o atormentado mundo interior que corria dentro do seu ser. Ao longo de seus escritos, Lira Neto vai, com fatos, construindo habilmente os contornos dessa personalidade suicida. “Quando confrontado com situações-limite [Getúlio Vargas], já dera sinais de que a hipótese de autoimolação seria, no seu entender, a única forma de responder com alguma decência aos agressores”, aponta o autor para, em seguida, transcrever o que disse o próprio Getúlio em seu diário, assim, reforçando a sua tendência suicida: “Quatro e meia. Aproxima-se a hora […] e se perdermos? Serei depois apontado como responsável, por despeito, por ambição, quem sabe. Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”.

Lira Neto: minuciosa pesquisa, que incluiu  livros, manuscritos e documentos originais para interpretar a personalidade  de Getúlio Vargas | Foto: Thais Leobeth

Lira Neto: minuciosa pesquisa, que incluiu livros, manuscritos e documentos originais para interpretar a personalidade
de Getúlio Vargas | Foto: Thais Leobeth

Essa personalidade suicida foi sendo paulatinamente alimentada à medida que se elevava a panela de pressão do sistema político. Os escritos de Lira Neto vão gradativamente descrevendo essa tendência à autoimolação do líder da Revolução de 30 ao longo de sua trilogia. Se há um acontecimento que se tornou decisivo para o estouro da panela de pressão do sistema político foi o atentado contra a vida de Carlos Lacerda, o qual acabou matando o major Rubens Florentino Vaz e ferindo no pé esquerdo (ao que tu­do indica, pois muitos contestam essa versão) o “corvo”, de Sa­muel Wainer. Carlos Lacerda, co­mo sempre, foi implacável em co­lar o ocorrido no governo do pai de Alzira Vargas. “Perante Deus, acuso um só homem como responsável por esse crime. É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o dessa noite. Esse homem chama-se Getúlio Vargas”, acusou.

O cerco a Getúlio Vargas aumentou mais ainda no momento em que foi descoberta a fortuna que tinha seu “anjo negro”, chefe de sua guarda pessoal — Gregório Fortunato.

Aliado a esse acontecimento, veio a descoberta que mais trouxe mágoas para aquele coração prestes a explodir: seu filho Maneco Vargas tinha vendido uma fazenda ao chefe da guarda. Era o mar de lama que corria debaixo do Palácio do Catete e que feria fundo um valor que, como homem público, Getúlio sempre prezou em sua vida: a honestidade. Estávamos à beira de uma seríssima crise institucional com desfecho previsível de derramamento de sangue. Todos pediam a cabeça do chefe do governo. Todos menos o povo e os amigos de verdade, como o homem de caráter Oswaldo Aranha, este fiel e leal à “velha raposa” até o fim. Getúlio conseguia manter aquela calma aparente ante a ebulição de seu mundo interior. Quem testemunhou essa postura prestes do fim foi seu ministro de Viação e Obras Públicas, José Américo de Almeida. “Não havia a mais leve sombra de reação. Conversava o rosto imóvel, sem mostra de decepção, como se tudo corresse na medida dos cálculos. Tinha esse privilégio de, em qualquer circunstância, manter a mesma compostura”, relata.

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Eram oito e trinta da manhã daquele fatídico 24 de agosto de 1954 quando o camareiro Bar­bo­sa chega para fazer o que estava habituado: a barba do presidente. Getúlio o dispensou. Não se passaram mais que cinco minutos e a alma interior atormentada do pai de Alzira veio ao encontro de sua alma exterior. O barulho de um tiro ecoou pelo Palácio do Catete. Getúlio Vargas estava morto. “Getúlio estava deitado, com meio corpo fora da cama. No pijama listrado, em um buraco chamuscado de pólvora um pouco abaixo e à direita do monograma GV, bem à al­tura do coração, borbulhava uma mancha vermelha de sangue. O revólver Colt calibre 32, com cabo madrepérola, estava caído próximo à sua mão direita”, descreve seu bi­ó­grafo. “Os olhos, depois de um der­radeiro vaguear, permaneceram imó­veis, as órbitas fixas na direção de Alzira”, relata Lira Neto acrescentando o depoimento da filha querida e predileta: “Joguei-me so­bre ele, numa última esperança […] apenas um leve sorriso me deu a impressão de que ele me havia reconhecido”. Era só uma impressão. A “velha raposa” tinha cumprido o que prometera: de só sair morto do Catete.

E assim encerramos este passeio sobre a oportuna trilogia desse escritor de fôlego, que se credencia ao panteão dos grandes biógrafos do país. Inegavelmente, seu trabalho trouxe novas luzes na vida do mais importante político brasileiro desde dom Pedro II. Sessenta anos depois dessa tragédia anunciada, o Brasil se modernizou tendo como âncora dessa modernização as instituições concebidas na era Vargas. Com elas, o Brasil se tornou um país urbano, com elas, descobrimos riquezas no nosso solo e no mar provenientes do ouro negro chamado petróleo, com elas, o Brasil rural deixou de ser o país das lamparinas e lampiões, com elas, os trabalhadores adquiriram voz e representatividade e as mulheres o direito ao voto, com elas, o interior do país começou a sentir as benesses do desenvolvimento. É bem verdade que a “velha raposa” gaúcha, em nome do imenso amor que tinha pelo poder, flertou com a ditadura. Como também é bem verdade que sua lealdade a amigos tão próximos como Oswaldo Aranha não era uma relação tão correspondida assim. Muito disso pode ser explicado pela maneira como o líder da Revolução de 30 enxergava a atividade política: como um jogo de xadrez onde as pedras se movimentavam sem emoção a seu comando. A descida do umbuzeiro se dava no momento certo. Mas esses defeitos — e quem não os tem? — não invalidam o lugar de honra onde se encontra Getúlio Dornelles Vargas na história política do país. Ao encerrar estes escritos, vem-me a memória aquela fotografia que mais me impressionou nos escritos de seu biógrafo: toda aquela multidão de milhares e milhares de pessoas na orla do Rio de Janeiro acompanhando o cortejo fúnebre de Getúlio Vargas. Ela representa o sentimento que o pai de Alzira deixou no coração da maioria do povo brasileiro: de absoluto amor. Getúlio Vargas foi, sem dúvida, o homem público mais amado deste país pela população que viu suas vidas transformarem-se ante as políticas de seu governo. Sessenta anos depois que nos deixou, seu espírito continua vivo entre nós — e o Brasil, embora ainda desigual, um país moderno.

Salatiel Soares Correia é crítico literário e mestre em Planejamento Energético pela Unicamp.

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