A eternidade movediça do tempo nos contos de João Anzanello Carrascoza

“Tempo justo” é constituído de momentos triviais, em que as personagens estão sempre estabelecendo uma ponte entre o presente e o passado

Contista João Anzanello Carrascoza tangencia o problema da finitude | Foto: Divulgação

Márwio Câmara
Especial para o Jornal Opção

Não é de hoje que o escritor João Anzanello Carrascoza usa a temática do tempo para trabalhar questões existenciais em sua literatura. Aliás, o tempo e a sua inexorável finitude trafegam em praticamente toda a gênese de sua obra, ganhando espaço de suma singularidade no conjunto que reúne os dezesseis contos de “Tempo Justo” (Editora SM, 88 páginas). Neste recente trabalho, vemos como jovens e adultos lidam com a passagem do tempo, descobrindo através das próprias reminiscências, sobretudo da infância, o que a vida faz com cada um e suas respectivas histórias.

O termo devir, que significa es­tado de mudança ou transformação natural das coisas, é essencial ao analisar a geografia narrativa de Carrascoza. A linguagem lírica e aparentemente simples de sua prosa carrega nas entrelinhas detalhes que se exteriorizam de forma repentina numa leitura mais dedicada e atenta. Encontra-se em tais contos certo jogo de espelho, a fragilidade dos momentos, a sutileza das relações humanas e a fugacidade soberana do eterno, que só se torna perene sob a luz da memória.

Praticamente todo o escopo que fomenta o seio narrativo de “Tem­po Justo” é constituído de momentos triviais, onde as personagens estão sempre estabelecendo uma ponte entre o presente e o passado. O alinhamento temporal que os unem e paradoxalmente os separam faz com que tal profusão dirija essas personagens a uma espécie de glória epifânica.

A seleta de contos, trabalhada com grande operosidade estilística, alicerça o desenho do tempo, através dos laços afetivos que as personagens carregam pelos vínculos familiares. Esses vínculos atravessam toda a homogenia das dezesseis pequenas narrativas, seja através da alegoria do filho que rememora a presença do pai falecido quando assiste aos campeonatos de futebol do Corinthians, em “Perda”; ou quando um rapaz descobre a admiração e o amor de filho, desconhecidas até então em outrora, perante a figura patriarcal, durante uma caminhada matutina entre os arredores da chácara da família, no conto “As coisas mudam as coisas”, que abre o livro.

Tempo Justo
Autor: João Anzanello Carrascoza
Páginas: 88
Editora: SM

Aliás, neste respectivo conto um latente diálogo com a prosa poética de Raduan Nassar pode ser observado nas primeiras linhas da narrativa. Entre algumas das características que podem ser aqui salientadas estão: a atmosfera bucólica em sua inteireza descritiva e imagética, o fino trato com a linguagem e também algum atrevimento na forma, apresentando parágrafos longos, sequenciado por vírgulas e quase ausentes de ponto (como pode ser encontrado em alguns dos outros contos do livro), embora em nenhum momento problematizem ou atrapalhem a fluidez da leitura. O ponto alto de “As coisas mudam as coisas” está na cena em que o devir existencial do narrador em primeira pessoa se alude à mudança de tempo do dia, desembocando num temporal em plena caminhada deste filho com o pai.

Em “Sétimo dia” e “Perdão” o autor estrutura os dois respectivos contos em formato de poema em prosa, e que se notabilizam pelo protagonismo oxigenado de silêncios. Em “Sétimo dia”, um pai desperta no início da manhã de domingo e se depara com o filho dormindo no quarto ao lado. Nesse mo­mento, observa-se ali na cama, com algum susto ou surpresa, não mais o menino de outrora, mas o jovem homem que se tornara, embora sem perder por aquela criatura o olhar carregado de cuidado e ternura.

Já em “Perdão” o diálogo incessante do filho com a mãe adensa o metódico desfile de pesares e entraves de um homem de quarenta anos, que reconfirma silenciosamente para si a certeza de nunca ter sido um grande filho ou à altura do que recebera de forma gratuita ante a larga afetividade da mãe. O afeto não essencialmente externado pela incompletude dos atos, embora expurgados em sua voz interior como um grito de perdão, pode ser considerado uma das passagens mais pungentes e emocionantes do livro.

Vale destacar também os contos de “Escuro”, que narra o prenúncio do narrador, um pai idoso, que, ao lado do filho, sente a chegada da própria morte; e “Balanço”, que trata da percepção sensorial e subjetiva de um velho patriarca, sentado em sua cadeira de balanço, após um daqueles grandes almoços de família.

Se o tempo pode ser justo para cada um, não se sabe. Mas para a escrita de João Anzanello Car­rascoza não há sombra de dúvida. Um prosador fundamental na literatura brasileira contemporânea.

Márwio Câmara é escritor, jornalista e crítico literário

Trecho do conto “Balanço”

A voz de uma de suas filhas se sobrepôs às demais, na varanda; ele parou de balançar e abriu os olhos, como se, daquela forma, pudesse ouvir as palavras dela com a mesma nitidez – aquela nitidez própria dos velhos – com que distinguia os objetos da sala, onde o sol, aos poucos, ia perdendo o seu reinado.
Ele aprendera, ao longo de sua existência, que era preciso, às vezes, reorientar um sentido para confirmar ou negar o que outro dizia: não raro, precisava ouvir o silêncio para que os seus olhos abertos, decifrassem o que os objetos ao seu redor comunicavam

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