Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Thomas Wolfe, escritor norte-americano prolífico

Que Thomas Wolfe é um grande narrador, um titã ou um gigante, já o sabia seu contemporâneo William Faulkner e assim o confirma toda a fortuna crítica em torno da obra do escritor – do romance ao conto. Considero este “O Trem e a Cidade[i]” uma pequena obra-prima de narrativas curtas. Terminei de lê-lo num vagão de um trem de grande velocidade, numa viagem que fiz de Helsinque a São Petersburgo, em setembro de 2016

Thomas Wolfe (1900-1938), um prolífico criador em busca de uma América individual, delineada e forte

Titã ou gigante? O homem, sabe-se, tinha quase dois metros de altura e lutou com os deuses para entrar no cânone da literatura norte-americana. Não pode ser confundido com o jornalista Tom Wolf, de grafia similar, porque Thomas Wolfe é escritor que tem várias polegadas acima na qualidade do texto e tem uma imaginação criadora única, que se nos mostra nos livros deixados.

Mesmo tendo morrido jovem, antes de completar 38 anos, Wolfe legou-nos obras importantes, merecendo ser lido por quem ama a prosa de ficção e as boas narrativas curtas (contos), embora em português o leitor só encontrará edições brasileiras dos contos.

O narrador do conto “Escuro na floresta, estranho como o tempo” é um americano que viaja pela França – situação similar a deste cronista, que o lia muitos anos depois –, viajando num trem russo e recebia o impacto do lirismo de Wolfe, donde extraiu trechos saborosos como este, em que Wolfe descreve a emoções da partida de um trem, das conversas que mantinham pessoas na gare com um passageiro do trem:

“As pessoas estavam falando a língua universal da partida, que não varia no mundo inteiro – a língua muitas vezes banal, trivial e até inútil, mas por isso mesmo curiosamente tocante, já que serve para esconder uma emoção mais profunda no coração dos homens, para preencher o vazio que há em seus corações ante o pensamento da partida, para servir de escuro, uma máscara que esconda seus sentimentos verdadeiros.
“E por isso havia para o jovem, o estranho e o forasteiro que via e ouvia essas coisas, um caráter emocionante e comovente na cerimônia da partida do trem. Enquanto ele via e ouvia essas atitudes e palavras que, transposta a barreira de uma língua estranha, eram idênticas àquelas que ele vira e conhecera toda a sua vida, entres os seus – ele de repente sentiu, como nunca tinha sentido antes, a terrível solidão da familiaridade, a percepção da identidade humana que tão estranhamente une todas as pessoas do mundo, e que está arraigada na estrutura da vida dos homens, muito além da língua que eles falam, da raça da qual são membros [ii].”

Simples excertos de sua obra, publicados separadamente como contos são poderosas unidades narrativas – diz um de seus biógrafos, o professor e crítico C. Hugh Holman [iii]. O leitor pode comprovar isso em contos disponíveis em português, como neste “O Trem e a Cidade”, traduzido por Marilene Felinto, ela própria boa narradora.

O lirismo das narrativas de Wolfe é apontado como exemplo da prosa de ficção em língua inglesa e o lirismo um ponto apreciado por muitos, como Fitzgerald, que teria escrito que “os trechos mais valiosos em Thomas são os mais líricos; ou melhor, aqueles momentos em que o lirismo mais se combina com seu poder de observação”. Uma amostra disso é dada ao leitor com essa passagem de “O Trem e a Cidade” por Marilene Felinto:

“A luz era cor de âmbar nos vastos aposentos escuros, protegidos contra a luz nova, onde em grandes camas de nogueira mulheres magníficas estendiam com ardor sensual suas pernas exuberantes. A luz era castanho-dourada como a manhã em grandes e reluzentes toras de mogno escuro, como a fresca douradura da cerveja, a casca do limão e o cheiro da essência de angustura. Depois, cor de bronze ao anoitecer nos teatros, reluzindo no calor e na solidez morena dos sopros bronzeados das mulheres, em roldanas, cornucópias e cupidos dourados, no excitante, forte e suavemente acastanhado cheiro de gente; e nos grandes restaurantes a luz era dourado-clara, mas densa e cilíndrica como cálidas colunas de ônix, mármore colorido com suavidade e calidez, vinho envelhecido em garrafas escuras, redondas, embutidas no tempo, e grandes corpos de mulheres loiras e nuas em tetos forrados de rosas. Depois a luz era profusa e exuberante, castanho-dourada como as largas campinas no outono; relevando em dourando como os campos na ceifadora, vermelho-bronze, cercados por enormes e ferrugentos feixes de milho, dominados por imensos celeiros vermelhos e pela tenta e vinosa fragrância das maçãs.”

Wolfe, por essa força lírica e pela “expressão retórica de atitudes pessoais” (HOLMAN, 1960) tem sua prosa comparada à poesia de Walt Whitman: “Com exceção de Whitman, nenhum escritor norte-americano celebrou a si próprio em tão grande escala, com tanta intensidade e senso de sua própria importância, como Wolfe o fez. Apesar de nunca ter conseguido a harmonia perfeita entre o seu ego e o profeta público que havia nele, insistia em representar ambos os papéis.

Vasta quantidade de originais em caixotes, trazidos pelo prolífico Wolfe para Max Perkins, seu editor

Eu incluo Wolfe entre os prolíficos, narradores como o austríaco Robert Musil ou os franceses Balzac e Proust, que de maneira diversa, mas copiosa, geraram verdadeiros mundos fictícios como espelhos de suas próprias vidas vividas. Prolíficos, digo: no sentido de que a narrativa principal é um longo caudal formado de narrativas interconectadas como pequenos veios, canais, afluentes que são as unidades menores fluindo todas para uma visão grandiloquente do seu país e do ego do autor.

Esse “impulso épico” de Wolfe foi definido por Holman como “o desejo de definir na ficção o caráter norte-americano e de tornar simbólica a experiência da América” e isso é quase uma obsessão na obra de Wolfe.

É ainda de Holman a constatação de que, “dos escritores norte-americanos deste século [XX], Ernest Hemingway é o único que se iguala a Wolfe quando evoca a representação do mundo físico  por intermédio de imagens surpreendentes, mas que parecem tocar os nervos expostos do leitor” – como nessa passagem de “O Trem e a Cidade”, em que o narrador reage diante do início da primavera que “naquele ano…chegara como magia e como música e como canção…

“De repente a vida brotou de novo nas ruas que fervilhavam e lampejavam em milhões de pontos de cor e vida; e as mulheres, mais bonitas que as flores, mais cheias de sumo e suculência que as frutas, apareciam ali numa vívida corrente de amor e beleza. Seus olhos encantadores brilhavam numa ternura única; eram uma harmonia de sorrisos, lindos lábios de rosa rubra, uma pureza de leite e mel, uma singular composição de seios, quadris e coxas e cabelos esvoaçantes, um coro de beleza na exultante e triunfal harmonia da primavera.
“No quintal da velha casa de tijolos em que morei naquele ano, um daqueles velhos quintais com cerca numa casa nova-iorquina, um lote insignificante no quadriculado de um quarteirão, surgia da terra velha e cansada uma faixa de grama suave, e uma única árvore de verde claro e penetrante crescia ali.
“Naquele primavera, dia a dia eu observava o ligeiro desabrochar daquela árvore em seu glorioso momento de folhagem nova; até que um dia olhei para o interior de sua repentina e mágica verdura, e vi tremeluzirem raios que entravam e saíam, as cores que escureciam, alteravam-se, mudavam a olhos vistos a cada sutil alteração de luz, cada delicado e impalpável sopro de brisa, tão real, tão vívido, tão intenso que criava magia e mistério evocando todo o comovente sonho do tempo e de nossa vida sobre a terra; de repente a árvore era coerente com meu destino, e minha vida ganhava unidade em toda a sua concisão desde o nascimento até a morte.”

[…]
“Imediatamente despertava dentro de mim um insustentável desejo de sair para as ruas. Eu sentia – e era um sentimento de ansiedade, dor e alegria intensas – estar perdendo algo de raro e belo se ficasse em meu quarto, estar permitindo que me escapasse alguma extraordinária felicidade e ventura. Parecia-me que algum enorme prazer, algum acontecimento auspicioso e magnífico – alguma realização de honra, de riqueza ou de amor – estava à minha espera em todos os lugares da cidade. Eu não sabia onde devia ir para encontra-lo, em qual das milhares de esquinas aquilo viria a meu encontro; mesmo assim sabia que estava lá, e não tinha nenhuma dúvida de que iria encontra-lo e captura-lo, de que iria alcançar a maior felicidade e força que qualquer homem já conhecera. Todo jovem da terra já sentido isso.”

Mesmo tendo morrido jovem com 38 anos incompletos, Wolfe legou-nos obras importantes – quatro romances, um ensaio e um livro de contos, merecendo ser lido por quem ama a prosa de ficção – romances e as boas narrativas curtas, embora se encontrem traduzidas em português apenas duas obras: o citado “O Trem e a Cidade” e “O Menino Perdido”, ambas pela Editora Iluminuras.

Wolfe foi retratado em filme, como relata o editor do Jornal Opção Euler de França Belém, em artigo de 2016, ao comentar “O Mestre dos Gênios”, que retrata a relação de Wolfe com seu editor Max Perkins:

“O Mestre dos Gênios”, de Michael Grandage, é um desses excelentes filmes que passam quase despercebidos — tanto que, em Goiânia, foi exibido apenas no Cine Lumière, no shopping Bougainville. A atuação dos atores Jude Law, como o escritor Thomas Wolfe, e Colin Firth, como o editor Max Perkins, é impecável. Não deixa de ser curioso que ingleses tenham representado homens lendários da cultura dos Estados Unidos. Nicole Kidman aparece de maneira discreta como Aline Bernstein, a amante de Thomas Wolfe. Aqui e ali, há licenças poéticas, com condensações necessárias tanto para chamar a atenção do espectador quanto para tornar a história adequada ao cinema.

Euler de França Belém assegura que, “mesmo sendo uma síntese da história complicada, mas produtiva entre Thomas Wolfe (1900-1938) e Max Perkins (1884-1947), o filme, inclusive o título, é, no geral, preciso. Se o leitor quer, porém, uma história mais bem contada, com nuances, deve consultar a biografia “Max Perkins — Um Editor de Gênios” (Intrínseca, 541 páginas, tradução de Regina Lyra), de A. Scott Berg, autor premiado com o Pulitzer”. Leia mais neste link.

Neste relacionamento que juntou amor e ódio, houve desavenças, como naturais a “pai adotivo” e filho, editor e autor: “uma das repetidas acusações que Wolfe faz contra [Max] Perkins é a de este era conservador, enquanto que Wolfe se tinha tornado o que chamava de revolucionário. Entretanto, faltam profundidade e sentido ao seu pensamento social. Pamela H. Johnson é talvez muito inflexível, quando diz: “Seu socialismo é o do jovem, baseado na fúria generosa, na piedade perplexa enfurecida; como a maioria dos intelectuais jovens e da classe média, ele procura o povo nos albergues e nos bancos dos parques à meia-noite. Mas como notou E. B. Burgum, “(…)ele era constituído de tal forma, que tinha que lutar sozinho. Naquela solidão, era incapaz de atuar como parte de um esquema social coordenado” – assevera seu biógrafo Holman.

O futuro da América que Wolfe defende na conclusão de “You can´t go home again” (publicado postumamente, em 1940) é, segundo Holman, “realmente um ato de fé – uma fé ainda baseada no espírito em oposição à matéria, no reerguimento da “nossa própria democracia” dentro de nós…Wolfe considerava-se com razão `revolucionário´, em contraste com Perkins; todavia, continuou sendo o advogado mais persuasivo de uma democracia esclarecida de classe média, produzida na América neste século [XX]”, conclui.

Por tudo isso e, mesmo com todas as “falhas” e imperfeições de sua obra, o leitor brasileiro merecia um quinhão maior de Thomas Wolfe, ter à disposição seus romances em traduções sérias e primorosas como as que Marilene Felinto fez dos contos pela Editora Iluminuras.

Adalberto de Queiroz, 63, Jornalista e poeta. Autor, entre outros de “O rio incontornável” (Editora Mondrongo, 2017).

[i] WOLFE, Thomas. “O trem e a cidade”, prefácio e tradução de Marilene Felinto. São Paulo: Iluminuras, 1990. 123 pp.
[ii] Do livro citado acima, cf. pág. 65-66; 20-21 et passim.
[iii] HOLMAN, C. Hugh. “Thomas Wolfe”. Tradução de Alex Severino. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1962.

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Marcelo Scaff Marques

Excelente texto Adalberto. Admito que eu lhe invejo, leu Thomas Wolfe,literalmente, dentro de um trem, leitura em grande estilo.