Adalberto de Queiroz

Poetas cat├│licos do Brasil (4) – Tasso da Silveira e Augusto Schmidt

“Schmidt e Tasso n├úo podem ser servidos na mesma bandeja!”, alerta meu interlocutor imagin├írio e, desconfio desde logo que ele tem raz├úo, ao encerrar o ciclo dessas cr├┤nicas sobre poetas cat├│licos

Os livros de Schmidt e Tasso podem ser encontrados em edi├º├Áes antigas e atuais

Livros de Schmidt e Tasso reeditados recentemente

“Schmidt e Tasso n├úo podem ser servidos na mesma bandeja!”, alerta meu interlocutor imagin├írio e, desconfio desde logo que ele tem raz├úo, ao encerrar o ciclo dessas cr├┤nicas sobre poetas cat├│licos.

Entretanto, vem-me ├á mente e se p├Áe em releitura um velho artigo de Otto Maria Carpeaux sobre o cr├¡tico de poesia ├ülvaro Lins, exaltando-lhe os atributos de melhor cr├¡tico da poesia brasileira, que teve o duplo m├®rito de ÔÇ£estabelecer um c├│digo de valores po├®ticosÔÇØ e de julgar criticamente ÔÇ£toda a poesia brasileira contempor├ónea conforme esse c├│digoÔÇØ.

Carpeaux criticando o cr├¡tico ├ülvaro Lins[i], lembra que a tarefa do cr├¡tico deve ser considerada ÔÇ£perante o passado e perante o futuro das letras nacionais: [pois] para o cr├¡tico, o presente ├®, nessa evolu├º├úo dial├®tica do passado ao futuro, o momento cr├¡ticoÔÇØ e ensinava que “a palavra ‘cr├¡tica’ vem do grego, com uma raiz de dupla significa├º├úo, expressa no substantivo ‘krise’ e no verbo ‘krinein’. O substantivo designa o estado, a situa├º├úo, a crise; o verbo designa a atitude ativa, a a├º├úo, devida a esse esse estado cr├¡tico das coisas; o verbo ‘krinein’ significa ‘julgar'”, ensina o mestre austro-brasileiro.

E Carpeaux arremata que crise deve n├úo deve ser entendida como ÔÇ£agonias m├│rbidas, mas ao contr├írio, transi├º├Áes fecundas, aumentadas pelas dores de parto duma nova ├®poca dessa literaturaÔÇØ. E que ├ülvaro Lins atuava nessa “crise da literatura brasileira” com sua veia pedag├│gica e seu c├│digo de valores.

Com este c├│digo, ├ülvaro Lins ÔÇ£reconheceu e declarou, com toda a clareza e autoridade que a poesia brasileira contempor├ónea possui tr├¬s poetas de primeira ordem, poetas que seriam de primeira ordem em qualquer literatura americana ou europeia, e que o s├úo na literatura universalÔÇØ. Os tr├¬s poetas para quem ├ülvaro Lins teria ÔÇ£edificado uma casaÔÇØ s├úo Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Augusto Frederico Schmidt.

E continuando com a met├ífora das resid├¬ncias po├®ticas principais, Carpeaux avalia que, tal como na met├ífora b├¡blica (ÔÇ£na casa do Pai h├í muitas moradasÔÇØ), ÔÇ£muitos s├úo chamados, mas poucos s├úo eleitosÔÇØ, para concluir que ali podem ser ÔÇ£colocados nos andares convenientes todos os moradores autorizados a residir nessa casaÔÇØ: Jorge de Lima, Murilo Mendes e Vin├¡cius de Moraes (eleitos de ├ülvaro Lins); ao que Carpeaux adiciona mais Cec├¡lia Meireles e Em├¡lio Moura sem retirar preemin├¬ncia para Alphonsus de Guimaraens Filho e Odorico Tavares.

Essa ÔÇ£Casa da Poesia BrasileiraÔÇØ, edif├¡cio imagin├írio de Carpeaux, teria sequ├¬ncia hoje com a inclus├úo de diversos nomes e estaria bem inconclusa numa s├│ cr├┤nica ou mesmo no ciclo que ora se encerra, onde ouso adicionar apenas dois c├┤modos com os nomes de Augusto Frederico Schmidt e de Tasso da Silveira.┬á

A fortuna cr├¡tica em torno do primeiro ├® vasta, embora n├úo tenha o charme que se acumulou em torno de Murilo Mendes e o academicismo em torno de Jorge de Lima. Quis o destino que o comerciante-poeta fosse incensado por outros motivos, como o comezinho valor de ter sido assessor de um presidente da Rep├║blica ÔÇô Juscelino Kubitschek ÔÇô para quem Schmidt teria cunhado o slogan ÔÇ£50 anos em cincoÔÇØ.┬áA dramaturga Maria Adelaide Amaral, ao pesquisar a vida do poeta para a s├®rie JK da rede Globo, confessou ter encontrado um personagem incontorn├ível. “O poeta gordo”, para usar a express├úo recriada por Adelaide, foi personagem importante da vida brasileira na d├®cada de 60 do s├®c. XX:

Amigo e colaborador de JK, AFS era contradit├│rio e multifacetado…ao mesmo tempo grande empres├írio e jornalista brilhante, homem incompreendido e amante arrebatado, que n├úo poupava esfor├ºos nem no amor, nem nos neg├│cios, nem na sua luta por um Brasil Grande. Extremamente religioso, em certos dias se descobria ateu, para, em seguida, voltar arrependido e cada vez mais devoto ao seio da Santa Igreja Cat├│lica. M├¡stico e melanc├│lico, buscava avidamente respostas para as grandes quest├Áes da humanidade”.

Na homenagem prestada a Augusto Frederico Schmidt, em 2015, pela passagem do cinquentenário de sua morte, nas dependências da Associação Comercial, Industrial e de Serviços de Goiás, eu fiz questão de assinalar que:

ÔÇ£Augusto┬áFrederico Schmidt (1906-1965), empres├írio, jornalista, diplomata e articulador pol├¡tico, deve ser lembrado antes e sobretudo como poeta. Membro da tr├¡ade de grandes poetas cat├│licos do Brasil, com Jorge de Lima e Murilo Mendes, foi tamb├®m editor de algumas das obras mais importantes da cultura brasileira, como Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Caet├®s, estreia liter├íria de Graciliano Ramos.
Ap├│s meio s├®culo de sua aus├¬ncia, a Acieg abre suas portas ao entusiasmado comerciante que come├ºou a trabalhar aos 14 anos de idade e foi um homem de sucesso e de Amor pela Cultura e pelo Brasil Grande.
Como a poesia n├úo tem uma fita m├®trica para medir a grandeza de quem a tem como d├ídiva, resta-nos sondar o cora├º├úo e a alma dos poetas, sua express├úo em versos brancos ou cl├íssicos para que uma luz se acenda em nossos pr├│prios cora├º├Áes de leitoresÔÇØ.

Um livreto em tiragem fora do com├®rcio, com uma seleta de poemas e algumas ilustra├º├Áes, foi lan├ºado na oportunidade pelo meu bom amigo M├írio Zeidler Filho, o jovem editor que dirige com bravura a Editora Caminhos, neste cerrado goiano pouco afeito ├ás coisas culturais. Do livreto saltam esses versos para o deleite de meus seis leitores:

Vazio
A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo ÔÇö
Restam somente as casas,

Os bondes, os autom├│veis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,

No c├®u os an├║ncios luminosos.
A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo ÔÇö
Restam somente os homens,

Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que ├® preciso viver.
Resta a vol├║pia que ├® preciso matar.

Resta a necessidade de poesia, que ├® preciso contentar.

Soneto

ILUSTRE E ALTIVA RAÇA LUSITANA,
Criadora e tenaz, modesta e s├│bria,
Sempre disposta estás a olhar de frente
O destino, por mais amargo e duro!

Raça oriunda de Luso, esse pastor
Filho de Baco e rei da ├║ltima Tule,
Raça contida em terra tão pequena,
E que no incerto mar mundos colheste.

A contemplar o Atlântico deserto,
Vives sempre a rever, verdes caminhos,
Por onde os teus var├Áes se assinalaram.

Povo de poetas e de marinheiros,
Que nos legaste o nosso Deus eterno
E a nobre e rude língua em que falamos.

S├úo duas pequenas amostras do poder dos versos de Schmidt, que Gilberto Mendon├ºa Teles assim sintetiza na introdu├º├úo ao volume de ÔÇ£Poesia Completa[ii]ÔÇØ: ÔÇ£Nada melhor que a met├ífora do caleidosc├│pio para a representa├º├úo de sua [de Schmidt] obra po├®tica ÔÇô as mudan├ºas n├úo passam de apar├¬ncias: no fundo subjaz uma imagem arquet├¡pica e fundadora que n├úo muda e de que o poeta est├í sempre tentando dar uma nova vers├úoÔÇØ. Ele [Schmidt] foi poeta que soube restaurar na poesia brasileira os temas e as tradi├º├Áes liter├írias mais caras ao humanismo e ├á modernidade ocidental.ÔÇØ

Autorretrato de Schmidt ÔÇô em resposta ├á pergunta de Jo├úo Cond├®: ÔÇ£O que fizeste da vida?ÔÇØ

ÔÇ£Dou gra├ºas a Deus por ter nascido de gente boa e sens├¡vel. Tive uma inf├óncia sobressaltada. Minha m├úe, que faleceria tendo eu 16 anos, esteve amea├ºada pela morte durante todo o tempo de minha inf├óncia. Comecei a trabalhar aos 14 anos de idade, porque n├úo dava para os estudos. Vivi repartido entre duas velhas mulheres a quem devo o melhor que h├í em mim mesmo: minha tia-av├│ Filomena de Menezes Miranda e minha av├│ Francisca Menezes de Azevedo. Andei em neg├│cios de livros. Fui viajante. Vendedor de aguardente e ├ílcool. Trabalhei numa serraria em Nova Igua├ºu. Casei-me com a mulher que amei. Consegui o que todo mundo acha uma contradi├º├úo: ser poeta e homem de neg├│cios. Tive muitos amigos, a alguns dos quais me conservo ligado a despeito de toda sorte de diverg├¬ncias. Vi surpreso surgir em meu caminho uma coorte de inimigos sem que conseguisse saber por que o eram. Nunca fiz at├® hoje conscientemente mal a ningu├®m. A poesia tem me dado as maiores e melhores surpresas da minha vida. Tamb├®m as maiores tenta├º├Áes. Tenho viajado muito. Ao completar 50 anos, tenho uma sensa├º├úo de surpresa: nunca esperei viver tanto.ÔÇØ

E Tasso da Silveira?

Quando penso em apor a essas páginas mais um traço que anime o leitor a conhecer o quarto elemento deste edifício acima do chão chamado de a casa dos poetas católicos do Brasil, vejo que meu interlocutor imaginário tem razão.

N├úo h├í sen├úo tempo de dizer que o curitibano Tasso da Silveira (1895-1968), sobre quem o professor e cr├¡tico Zamboni disse ser ÔÇ£o mais homogeneamente cat├│lico dos nossos poetas cat├│licosÔÇØ, lamentando que a obra do autor┬áÔÇ£se encontra infelizmente esquecida dos editores e do p├║blicoÔÇØ.

Tasso, felizmente, vem sendo reeditado ÔÇô como o bem acabado ÔÇ£Poemas[iii]ÔÇØ, organizado por Ild├ísio Tavares, em coedi├º├úo da Academia Brasileira de Letras e Edi├º├Áes GRD. E isso atrair├í, certamente, ÔÇ£os futuros leitores de poesia [que] tombam de espanto” (na remota hip├│tese dessa esp├®cie, a dos leitores de poesia, sobreviver aos predadores culturais desta e das pr├│ximas d├®cadas).

Eis, pois, ÔÇ£um poeta a ser lembrado sempre”. “Curitibano, cantou sua terra, viveu a poesia mesmo com a vista cansada lhe faltou. A hist├│ria do ‘mais homogeneamente cat├│lico’ dos poetas cat├│licos do Brasil assim se pode contarÔÇØ,┬áconclui Zamboni.

Isso me faz lembrar que j├í est├í cheia esta bandeja e talvez meu interlocutor imagin├írio tenha raz├úo ÔÇô isto ├®, que ├® preciso um quarto ├║nico, um servi├ºo pr├│prio para o poeta de Curitiba, um especial, de quem por ora deixo estes versos:

Puro Canto (X)

Velhos mestres: Cam├Áes, Petrarca, Dante,
Ronsard, Verlaine, Cruz e Souza, Antero:
por ser, em sonho e dor, dos vossos, quero
vosso rumo seguir, daqui por diante.

Dai-me o f├║lgido e claro reverbero,
de vossa arte à minha arte bruxuleante,
para que a mágoa em que me dilacero
alta, serena, imortalmente eu cante.

Que importa o filão novo de beleza?
O que vale ├® a corrente viva, acesa,
da tremenda amargura milenar.

É o soluço de tudo quanto existe,
a ânsia sem fim, cuja lembrança triste

coube aos pobres poetas perpetuar…

A cr├┤nica deve ser encerrada, mas com a promessa de uma continua├º├úo, para seguir os passos de Tasso da Silveira, este artista que, segundo M├írio de Andrade, ÔÇ£apresenta a imagem quase brutal, em nosso meio, da coer├¬ncia, da probidade silenciosa, do respeito para com os seus pr├│prios ideais…e seus poemas, t├úo mansos e silenciosos, soam como um clamorÔÇØ, como nestes versos de “Poemas de antes (28)“:

Se dois pássaros cansados
no mesmo galho repousam
quedam-se em longo silêncio.

É como se um nem por sonho
sentisse a presença do outro.
Quedam-se em longo silêncio.

Mas se um deles ergue voo
para o horizonte profundo,
sobre o o que ficou sozinho

numa onda de sombra tomba
toda a tristeza do mundo.

Adalberto de Queiroz, 63, cat├│lico, poeta e jornalista. Autor de ÔÇ£O Rio Incontorn├ívelÔÇØ (poemas, Editora Mondrongo, Itabuna, 2017).

[i] CARPEAUX, Otto Maria. ÔÇ£Ensaios reunidos: 1942-1978, vol. I, De ÔÇ£A cinza do purgat├│rio at├® Livros na mesaÔÇØ, organiza├º├úo, introdu├º├úo e notas de Olavo de Carvalho, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999, p├íg. 457 et passim.

[ii] SCHMIDT, Augusto Frederico, 1906-1965, ÔÇ£Poesia completaÔÇØ, introdu├º├úo de Gilberto M. Teles. Rio de Janeiro: Topbooks / Faculdade da Cidade, 1995.

[iii] SILVEIRA, Tasso da, 1895-1968. ÔÇ£PoemasÔÇØ ÔÇô sele├º├úo coordenada por Ild├ísio Tavares. S├úo Paulo: coedi├º├úo da Academia Brasileira de Letras e Edi├º├Áes GRD, 2003, 286 p.

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