Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Notas de um viajante brasileiro na América (1)

JFK, primeiro presidente católico dos EUA, faria 100 anos no passado 24 de maio. ”Jack”, como era chamado em casa, foi aluno relapso mas brilhante observador da realidade. Suas notas baixas que incomodavam o pai Joseph Kennedy, não o impediram de seguir a carreira de escritor, em que estreou com “Why England Slept” (não traduzido no Brasil)

Em registro fotográfico, Jaqueline Kennedy conversa com o poeta Robert Frost e o presidente JFK com Mary Hemingway, viúva de Ernest Hemingway, cujos papéis e manuscritos estão no mesmo Museu/Biblioteca JFK em Boston | Foto: Adalberto de Queiroz

Para o segundo dos nove filhos do sr. Joseph e sra. Rose F. Kennedy, parecia que tudo se encaminharia para uma carreira de escritor, professor ou velejador – que era a paixão primeira do jovem Jack, que se alistou na Marinha e sempre amou os barcos, o mar e os amigos que curtissem a mesma paixão, como o próximo escritor Ernest Hemingway. Curiosamente, o acervo de JFK e do Nobel de Literatura de 1954 terminaram juntos.

A quarta esposa de Hemingway, Mary, conseguiu pela amizade com os Kennedy que 90% de seus manuscritos fossem resgatados na casa que mantiveram em Cuba. Quando a viúva de Kennedy estava organizando os papéis do marido assassinado em Dallas, Mary Hemingway, em gratidão à ex-primeira-dama, ofereceu todo o material que hoje se transformou na Coleção Ernest Hemingway do Museu e Biblioteca Kennedy, em Boston.

Passei a manhã de ontem (12/9) no JFK Museum e revivi algumas cenas da infância e juventude, sendo testemunha do charme, da leveza e do anticomunismo do presidente democrata que mantinha os valores da democracia americana, como talvez nenhum outro, exceto Ronald Reagan pôde alcançar.

Naturalmente, os democratas do staff do museu tentam fazer a conexão de John com Obama, mas o 35º presidente norte-americano está anos-luz de distância do 44º, seja pelo visão de mundo, seja pelo carisma e amor às tradições norte-americanas. As ideias de Kennedy, suas frases lapidares que funcionavam como epigramas políticos colocam-no um grau acima dos que o substituíram. Sua vida inconclusa, cujo fim já foi longamente discutido desde os tiros em Dallas, levam a crer que seu maior aforismo ainda manter-se-á vivo por um bom tempo: “Um homem pode morrer, nações podem crescer e decair, mas uma ideia vive para sempre”.

Nesta quarta-feira, ao retornar do museu para meu hotel em Roxbury Crossing, numa tarde chuvosa, pensei que a essência das melhores ideias pode estar deturpadas pelos excessos do “liberalismo” norte-americano, pós JFK, mas esta permanece como a chama de união desta Nação.

Às vésperas do furacão Florence, o 45º presidente trabalha com seu time, sob a fúria da imprensa que não lhe dá trégua, embora tenha elevado o crescimento econômico ao nível de 4,1% no segundo trimestre e um crescimento acumulado recorde em quatro anos. O presidente Trump parece ser a vítima predileta de uma espécie de “malhação do Judas” da imprensa brazuca, atiçada que é, além de pautada pela imprensa yankee.

Em uma das mais importantes de suas viagens como presidente, Kennedy foi à Alemanha e o vídeo da visita que pode ser visto no Museu JFK mostra um Kennedy anticomunista que parece mandar um recado à juventude universitária de seu país (e por que não do nosso?) em sua retórica convincente, ele pergunta:

“Querem saber o que é comunismo? Venham a Berlim! Querem saber o valor da liberdade? Venham a Berlim”.

“Há dois mil anos, não havia frase que se dissesse com mais orgulho do que ‘civis romanus sum’ (sou um cidadão romano). Hoje, no mundo da liberdade, não há frase que se diga com mais orgulho, que ‘Ich bin ein Berliner’. […] Todos os homens livres, onde quer que vivam, são cidadão de Berlim, e, portanto, como um homem livre, eu me orgulho de dizer: ‘Ich bin ein Berliner’.”

Fotografia de JFK em uma das paredes do Museu e Biblioteca Kennedy, em Boston – Foto: Adalberto de Queiroz

E assim, encerrando um discurso na grande praça em frente à Prefeitura de Berlim, 22 meses depois de a Alemanha Oriental – aliada à então União Soviética – mandara construir um muro como forma de impedir qualquer movimento entres as regiões Oriental e Ocidental da cidade alemã. Não sem razão, a praça em que Kennedy proferiu o famoso discurso, chama-se hoje John-F.-Kennedy Platz.

Cheguei à América no dia 10 de setembro. No dia 11, como se sabe, o país celebraria os 17 anos do ataque de 9 de setembro em todo país. Em Boston, a memória do ataque terrorista que abriu o século XXI foi reacendida em onze locais e diferentes entidades, do Aeroporto Internacional Logan até aos tiros da fragata USS Constitution que anunciaram a hora exata da queda da torre Sul do World Trade Center em 2011.

O que não cai é a ficha da juventude norte-americana reunida em torno de uma universidade cada vez mais esquerdista e de retórica esquerdizante, que tem como saldo a preferência juvenil pelos sistemas sabidamente falhos da experiência socialista e comunista, do que a Venezuela é sua excreção mais abjeta e detestável, mas ainda assim defendida pelos jovens no Norte e no Sul da América.

Amanhã (quinta-feira), quando provavelmente você leitor estará lendo esta croniqueta, saberemos os estragos do Florence, mas quanto aos estragos da doença infantil do esquerdismo, só as gerações que nos sucedem poderão mensurar.

Sigo minha viagem em busca da América conservadora e literária, seguindo para Derry, New Hampshire, onde pretendo visitar a casa-museu Robert Frost. Novas notas curtas desta viagem devem se seguir. Keep in touch.

“Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
N’algum tempo ou lugar desta jornada extensa:
A estrada divergiu naquele bosque – e eu
Segui pela que mais ínvia me pareceu,
E foi o que fez toda a diferença.”
Robert Frost

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta, autor entre outros de “O Rio Incontornável”(poemas), Mondrongo, 2017.

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