Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

No centro da Poesia Ocidental: Virgílio, o poeta insuperável

O poeta romano, como todos os grandes da poesia, anunciou-se muito cedo, deixando uma obra profunda; não só Eneida, mas sobretudo os saborosos versos da sua juventude fazem-nos vibrar

Publius Vergilius Maro, ou simplesmente Virgílio: as cenas que pinta em sua poesia mostram-se ainda hoje frescas como o eram há dois mil anos. Seus rouxinóis gorjeiam tal qual o de Keats.

Adalberto de Queiroz

Preliminar – ao leitor. Quando me propus a aceitar o desafio de uma coluna semanal, mal sabia a dedicação e a disciplina que essa empresa exige de quem leva a sério o ofício de cronista. Não sopesei bem a responsabilidade do que indica, sem ter as ferramentas que o crítico de formação acadêmica possui; logo eu que, como uns poucos não acadêmicos, me desenvolvo muito à custa de me tornar um “leitor que queima pestanas” – para usar a expressão de Augusto Meyer, o “melhor leitor de poesia”, segundo o crítico inesquecível José Guilherme Merquior.
Ao meu interlocutor imaginário – trazido pelas brumas da literatura nas páginas do famoso crítico de rodapé Temístocles Linhares, ele que exerceu por anos a função de dialogar com o leitor sobre a poesia mediante páginas dos jornais “Correio da Manhã” e “O Estado de S. Paulo” –, ele, companheiro e interlocutor, que está sempre a me perscrutar os passos e me propõe (impõe?): “Que tal ser menos prolixo e ir direto ao ponto”.
Em cada crônica só o essencial, da minha, possa o leitor ouvir o som da voz dos outros; e, se o assunto o exigir, hei de fazer de uma crônica uma sequência. Tal é o propósito tomado que me faz permanecer com a periodicidade semanal desta coluna. Tudo bem-dito, vamos ao ponto. Ouçamos, de início, o maior poeta da Itália, o florentino Dante, no Canto I (Inferno) da Divina Comédia:
“Então tu és Virgílio, aquela fonte
que expande de eloquência um largo rio?”
– perguntei-lhe, baixando humilde a fronte.
“Dos outros poetas honra e desafio,
valham-me o longo esforço e o fundo amor
que ao teu poema votei anos a fio.
Na verdade, és meu mestre e meu autor;
ao teu exemplo devo, deslumbrado,
o belo estilo que é meu só valor.”
Sim, Dante elege Virgílio com “amorosa dependência de discípulo ao preceptor”, e só assim a poesia dantesca pode fazer “florescer tão alta e doce gratidão”. Além de ter sido admirado por boa parte dos poetas em todo o mundo, completa Virgílio mais de dois milênios como o “poeta sovranno”, soberano poeta de quem disse Theodor Haecker: “é o pai do Ocidente”, relembrado por Nogueira Moutinho, na introdução ao volume das “Bucólicas”, da Biblioteca Clássica da UnB. E assim considerado: um poeta clássico, em sua “centralidade de clássico único” vê-se Virgílio (das “Bucólicas” à “Eneida”) alvo da leitura amorosa do poeta americano-britânico T. S. Eliot, que o considerava como poeta “no centro da civilização europeia, [em] posição que nenhum outro poeta pode partilhar ou usurpar” .

Cumpre recordar as palavras de Dante no Canto I do Inferno, na “Commedia”, mais tarde renomeada por Boccacio como “Divina Comédia”, anotadas por Nogueira Moutinho à tradução brasileira das “Bucólicas” (Virgílio) por Péricles Eugênio da Silva Ramos. E não só a Eneida, mas sobretudo os saborosos versos do jovem Virgílio fazem-nos vibrar com a “arte suprema unida a uma divina simplicidade” (de acordo com o poeta francês Paul Claudel).
“C´est le plus grand génie que l´humanité ait jamais produit, inspiré d´un soufle vraiment divin, le prophète de Rome” – afirmou Paul Claudel. Sim, por muitos ao longo desses mais de dois mil anos é Virgílio considerado o grande gênio que a humanidade produziu, inspirado que foi de um sopro divino, tornando-se o profeta de Roma.
Sobre Publius Vergilius Maro (nascido no ano 70 a.C. e falecido no ano 19 a.C.) parece já se ter dito tudo no bimilenário do poeta: “Os grandes poetas anunciam-se muito cedo” – diz John Macy, enfatizando as primícias do trabalho de Virgílio nas “Éclogas” (ou “As Bucólicas”), poemas da vida campesina, lendas imitadas de seu antecessor Teócrito e impregnadas do amor do poeta pelo norte da Itália onde então vivia. Teria ele sido o primeiro a anunciar o nascimento de Cristo – segundo a crença corrente entre os cristãos primitivos e confirmada ao longo da vida da Igreja –, na Écloga IV, 15:
“Terá a vida dos deuses o menino, que os verá
no meio dos heróis, e será visto em meio a eles,
regendo com as virtudes de seu pai um mundo em paz.”
Já “n`As Geórgicas … temos um canto da vida rural, dos campos, do gado, das árvores. Justifica-se a ideia de Mecenas, o protetor dos poetas, de encorajar Virgílio a descrever a vida rural de modo a induzir o povo à volta aos campos.” Naquele assunto, o gênio do poeta se achava em casa, mais à vontade ainda do que na ‘Eneida’. Virgílio amava a terra tão profundamente como o seu mestre Hesíodo, e conhecia de contato pessoal a vida do campo. As cenas que pinta mostram-se ainda hoje frescas como o eram há dois mil anos. Seus rouxinóis gorjeiam tal qual o de Keats.

Por sua vez, “A Eneida foi de algum modo uma empresa patriótica. O herói do poema, mais que Enéias, era a própria cidade de Roma.
[…]
“Num tempo como o nosso em que a Poesia não passa de mero recreio é impossível compreender a recepção que os romanos deram ao poema de Virgílio. Naqueles versos se expressava o verdadeiro ideal do povo. Graças a isso e à perfeição da forma, a Eneida superou tudo quanto a literatura latina produzira até então. Pena que “Virgílio não viveu o bastante para conhecer a grande obra que havia feito. O poema só foi publicado depois de sua morte. Diz a história que ele se mostrava tão malsatisfeito da obra que a queria destruir, só não o fazendo graças à interposição de amigos e ordem de Augusto. Como esse imperador fosse o herói final do poema, tinha razão para zelar pela filha do seu mais notável súdito. Se Virgílio vivesse um pouco mais teria sido coroado e colocado logo abaixo do imperador. Seu túmulo tornou-se um santuário – e havemos de concordar que nenhum poeta mereceu tanto.”
O escritor austríaco Hermann Broch escreveu um romance notável sobre Virgílio. Se entre as obras de erudição dedicadas a Virgílio destacam-se as do alemão Haecker e do francês Sainte-Beuve, a obra de Broch é considerada “obra de amor” (Péricles Eugênio) – dessa espécie de ato de amor à obra de Virgílio, que floresce tanto em Theodor Haecker com “Virgílio, pai do Ocidente”, quanto em Broch, de “A morte de Virgílio” (1958), traduzido no Brasil por Herbert Caro.

O crítico Franklin de Oliveira ressalta: “Hannah Arendt, no magistral ensaio que escreveu sobre Broch, diz que a tragédia central da vida dele foi sua luta para não ser poeta. Neste sentido, “A morte de Virgílio” é uma grande capitulação. Nele, Broch rende-se à poesia. À poesia que ele transforma em cosmogonia, cosmologia e humanologia.”
[…]
“…o monólogo no livro de Broch é “como um comentário lírico – comentário, no preciso sentido musical do termo: no seu texto a poesia contraponteia com a poesia. Esse contraponto exigiu, inclusive, de Broch, o uso da intertextualidade, como a absorção, no corpo fremente de seu poema, de tópicos das Geórgicas, das Bucólicas e da Eneida, numa interação que permite apresentar a consciência de Virgílio, em estado de criação contínua, em perpétua ação criativa. “Um poeta é um homem que possui a dádiva de dominar a loucura e guiá-la” – diz Broch, numa passagem de seu poema (romance) sobre Virgílio.
“É essa possessão órfica, elevada ao mais intenso grau lírico que vai levar agora, através da Morte de Virgílio, o leitor brasileiro ao pórtico do alumbramento. ”
“As Bucólicas” pequenas se parecem diante do grande monumento que é a “Eneida”, popularizada no Brasil pela tradução de Carlos Alberto Nunes. No entanto, a lírica brasiliana deve muito às “Bucólicas”, pois, segundo Péricles Eugênio da Silva Ramos, “já não falando da corrente arcádica, que deriva indiretamente de Virgílio… “é de se recordar que um dos árcades, Alvarenga Peixoto, sugeriu como divisa da república em que resultaria a Conjuração Mineira trechos da I écloga “Libertas quae sera tamen ”. Aqui, literatura e História do Brasil se deram as mãos.

Na “voz de prata e de ouro de Virgílio” – como Jorge Luis Borges –, pode-se ouvir a voz do poeta jovem e do verso límpido da VI Écloga. E em todo o mundo esses versos do jovem Virgílio, como na voz de um jovem tradutor de poesia de Goyaz, que disse sobre o mantuano: “poeta máximo da Roma antiga, que consolidou o latim assim como Camões o português e Dante o italiano (duas pétalas do mesmo pedúnculo), finava há 2030 anos, com pouco mais de cinquenta anos, deixando para a posteridade uma influência literária que nunca mais será superada ou sequer igualada. Assim como Firdusi ou Vyasa mostraram-se canônicos para o Oriente, Virgílio foi o poeta máximo do Ocidente, equiparando-se apenas a Homero e superando o mesmo no domínio linguístico (David S. Wiesen, Virgil Minucius Felix and The Bible) – Matheus de Souza Almeida (“Mavericco”).

Coda – e que se finde essa que deveria ser uma curta crônica e já se vai alongando, contra a advertência virgiliana: “fugit irreparabile tempus ; deixando o leitor com os saborosos versos de Henriqueta Lisboa em homenagem ao poeta:
“Herança”
“Ouso à sombra de Dante ao meu Vergílio
oferecer louvor com tal ternura
que me estremece a voz ao casto idílio.
Quem mergulhou um dia na leitura
do magno poeta vem transfigurado
de uma consciência límpida e madura.
Todo o valor do tempo no passado
volve de novo em raios convergentes
à lembrança de lume radicado.
Tudo emerge no plano do presente
— pronto, cálido e nítido — pelo ato
que é promessa de vida permanente.
A cada circunstância o termo exato
dá testemunho da alma que está presa
à contínua experiência do recato.
Esse reconhecimento da beleza
junto à simplicidade quase rude
já sobreleva os dons da natureza.
Clássico sereníssimo! que o estude,
sempre, alguém, à noção de que é mister
entregar-se ao destino em plenitude
a maneira de Eneias para obter
a expressão que transcende esse destino
e é dádiva de sangue a um outro ser.
O verbo humano, então, se faz divino.”

Adalberto de Queiroz, 62, é jornalista e poeta. Autor de “Frágil armação” (2ª. Edição, Editora Caminhos, 2017)

Fontes:
1. VIRGÍLIO. “Bucólicas”; trad. e notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos; introdução: Nougueira Moutinho, ilustr. Marcelo Lima. — São Paulo : Melhoramentos; [Brasília] : Ed. Universidade de Brasília. Col. Clássicos da UnB. 1982, pág. 23 et passim.
2. MACY, John. “História da literatura mundial”. Tradução de Monteiro Lobato – Cia. Editora Nacional, S. Paulo, s/data de publicação.
3. (Franklin de Oliveira, “Entrada no alumbramento”, introdução à edição brasileira de “A morte de Virgílio, Broch, Editora Nova Fronteira, 1982).
4. Écloga I, 27: “A Liberdade que me viu ocioso, tarde embora…” (Libertas, quae sera tamen respexit inertem”), ob. cit. pág. 35.
5. A expressão virgiliana “fugit irreparabile tempus”: em vernáculo – “Foge o irreparável tempo”.
6. De “Henriqueta Lisboa: Melhores poemas”, seleção de Fábio Lucas, s/nr. de página.

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Vale registrar as fontes que utilizei para esse artigo e que não aparecem na edição digital: 1. VIRGÍLIO. “Bucólicas”; trad. e notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos; introdução: Nougueira Moutinho, ilustr. Marcelo Lima. — São Paulo : Melhoramentos; [Brasília] : Ed. Universidade de Brasília. Col. Clássicos da UnB. 1982, pág. 23 et passim. 2. MACY, John. “História da literatura mundial”. Tradução de Monteiro Lobato – Cia. Editora Nacional, S. Paulo, s/data de publicação. 3. (Franklin de Oliveira, “Entrada no alumbramento”, introdução à edição brasileira de “A morte de Virgílio, Broch, Editora Nova Fronteira, 1982). 4. Écloga I, 27: “A… Leia mais

Cecilia

Excelente, parabéns!