Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Joana, relapsa e santa: A infância e o coração do mundo

Pois entre a águia com sua cólera divina e o anjo do devaneio e do carinho pelo Outro, encontramo-nos com Bernanos, neste opúsculo, que de todo não desejo revelar, mas sim, desejar ardentemente que você o leia e comece a descobrir o “grande urso”

Imagem rara de Georges Bernanos

 Sob o impacto da leitura de “Monsieur Ouine”, do francês Georges Bernanos, que neste caso teve que ser lido no original, pois este livro, infelizmente, ainda não tem uma tradução em português – disponho-me a comentar um pequeno livro do mesmo autor já traduzido pela editora É Realizações, em 2013. Trata-se de “Joana, Relapsa e Santa”, tradução de Pedro Sette-Câmara e apresentação de Jean Bastaire que se junta a vários outros dando uma boa visão da literatura do francês que morou no Brasil.

Bernanos é um dos mais representativos católicos escritores (não gostava da designação “escritores católicos”, por achá-la reducionista) da França no século XX; viveu no Brasil por quase oito anos, de 1938-1945, tendo aqui escrito o maior de seus romances – “Monsieur Ouine”.

Joana d´Arc é retratada neste livro, escrito por Bernanos para atender encomenda do periódico “Revue Hebdomadaire”, em 1929, data de celebração de cinco séculos da libertação de Orléans, em que Joana d’Arc teve decisivo papel na batalha e, ainda muito jovem, comandou um exército para expulsar os ingleses da França.

Beatificada em 1909, Joana d’Arc foi canonizada em 1920, “feliz decisão da Igreja que, em meio milênio, como que realizou uma inversão completa de sua posição” (diz Jean Bastaire) – isto é, o pessoal da Igreja faz a revisão completa de uma pena capital contra uma filha da própria Igreja.

Se a literatura dita católica (ou feita por católicos escritores) já teve seu período de grande brilho, foi na França, sobretudo em que este mostrou suas primeiras fagulhas brilhantes com escritos de gente como Léon Bloy, Charles Péguy, Paul Claudel, François Mauriac e Georges Bernanos. No Brasil, muitos dos amigos da temporada bernanosiana foram também membros da inteligência católica (cf. Antonio C. Villaça), entre os quais se contam Jorge de Lima, Alceu Amoroso Lima, Henrique J. Hargreaves, Virgílio de Melo Franco, Augusto Frederico Schmidt, Álvaro Lins, Geraldo França de Lima, Edgar da Mata-Machado e Paulus Gordan etc.

Agora que temos a chance de ver reeditados vários livros do “Dostoievski francês”, título que a imprensa alemã dera a Bernanos depois do sucesso de crítica e público de seu “Soleil de Satan” entre os germânicos; agora, dizia, é hora de se fazer o bom uso da crítica para situar o público leitor para a grandeza da literatura do mais brasileiro dos franceses escritores.

A figura histórica de Joana d’Arc está por demais estudada e a fortuna crítica do que lhe vale a memória histórica é por todos sabida. Não é sobejo, no entanto, dizer que ela era católica e que o livro de Bernanos (casado com uma descendente direta dos Talbert-d’Arc) nada tem de apologético nem dogmático, muito ao contrário.

Este livro em destaque pode ser considerado uma monografia, publicada em 1934, e tem como meta examinar a santidade de Joana d´Arc, não a função clerical ou administrativa da Igreja. A igreja dos santos se opõe fortemente à igreja dos clérigos, por todas as razões de fato e pelas práticas do que Jacques Maritain já afirmara em “A Igreja de Cristo” (“A pessoa da Igreja e o seu Pessoal” ) – Bernanos é parte dos leigos-profetas. Suas palavras, seja nessa monografia, seja em “Monsieur Ouine” – necessitaram, como bom vinho de guarda, que os anos as mantivessem distantes da malícia da crítica para voltar exuberantes a encher-nos o cálice sagrado da leitura.

Sabemos que no caso de Joana d´Arc “a Igreja pura e simplesmente condenou uma santa” (Bastaire), cabendo ao profeta Georges Bernanos recuperar-nos sua memória como a memória da infância, como o coração do mundo e o espírito da Igreja viva. O panfletário Bernanos é o cristão sem compromisso com hierarquias, o cristão Bernanos como o católico idealista que é, foi tomado pela Graça e o misticismo na linha traçada por Péguy e Bloy, na literatura francesa e mundial.

Georges Bernanos. “Joana, Relapsa e Santa”. (Tradução de Pedro Sette-Câmara). É Realizações, 2013.

Bernanos tinha um temperamento difícil – comprovam-no os próprios amigos próximos (como em “Bernanos no Brasil, 1968, org. Hubert Sarrazin), mas “pode-se estimar que, descontado o temperamento de Bernanos, ele se refere [ao desprezar direito canônico usado para condenar Joana] sobretudo a um certo poder intelectual, a um arrogante orgulho do saber que desavergonhadamente transforma a ciência sagrada num meio de coagir as consciências” (Bastaire).

Bernanos, no entanto, tinha plena consciência de sua missão profética e de seu Cristianismo idealista. “Não é um apaixonado pelo isolamento como foram Kierkegaard ou Nietzsche. Como todo ser humano profundo, ele teve seus momentos de solidão, mas termina como Péguy aquele “cristão em sua paróquia”, exercendo seu dom profético (“serei compreendido daqui a 20 anos, disse ele a um amigo brasileiro, sobre Monsieur Ouine” – o que estaria bem aplicado também a esse livro sobre Joana d´Arc). Bernanos não fala a um auditório imaginário, mas nos olha com seus olhos profundos (“Seu olhar ! Seus extraordinários olhos, realmente transfigurados pela cólera ou pelo carinho! Quando discutiam, fuzilavam. Bruscamente se revestiam de uma doçura, de uma distância, de uma bondade, um amor velado, e uma infância espiritual, que nenhuma palavra consegue traduzir” – dizia Alceu Amoroso Lima).

Pois entre a águia com sua cólera divina e o anjo do devaneio e do carinho pelo Outro, encontramo-nos com Bernanos, neste opúsculo, que de todo não desejo revelar, mas sim, desejar ardentemente que você o leia e comece a descobrir o “grande urso”, Le grand Georges que preferiu a “luta contra o anjo negro do Mal às querelas com os anjinhos de procissão” (Alceu) – fugia daquelas pessoas que frequentavam (e continuam frequentando) a hierarquia e os bastidores de nossas paróquias, daquele tempo até os dias de hoje, para os quais vale mais uma linha do direito canônico do que a vida de um pároco de aldeia ou de uma santa. Pouco se lhes dá que esta santa salve a Nação francesa, a despeito de suas (deles) crenças de catecismo sem ação.

E a vós, infiéis, que desejam buscar no escritor católico apenas uma forma de melhor aliciar sua má consciência contra a missão eterna da Igreja, sinto muito decepcioná-los, mas não há em Bernanos nem apologética nem tampouco heresias. Se pretende se aproximar dos grandes olhos verdes do gigante Bernanos, dispa-se de suas descrenças do mundo, deixe o Mal por um momento enfrentar este gigante em lugar de sua fraca e tacanha arma adquirida gratuitamente num desses bancos universitários. Leia Bernanos, sem temor, leia-o.

O cristão Bernanos, diz-nos o teólogo Hans-Urs von Balthasar, “mais do que qualquer outro grande escritor cristão dos tempos modernos é o cantor da Graça; e isso o faz num sentido tão pouco calvinista ou jansenista, que dessa forma, torna-se arauto da liberdade humana, da liberdade original e criadora do Homem. A chave dessa síntese está no coração mesmo de sua experiência religiosa que nós a encontramos lendo suas obras”.

Conhecido mais por seus romances “Sob o sol de Satã” e “Diário de um Pároco de Aldeia”, Bernanos aqui se nos apresenta como o poeta de Deus, o apaixonado pela alma da humanidade, que reside na infância e repete altissonante: “Nossa igreja é a igreja dos santos; porque santidade é uma aventura, ela é aliás a única aventura. Quem entende isso uma vez entra no coração da fé católica e sente sua carne mortal estremecer com um terror que não é o da morte, com uma esperança sobre-humana. Nossa igreja é a igreja dos santos…”

Sobre o Autor:

Georges Bernanos (1888-1948), nascido em Paris, passou parte de sua vida como nômade, tendo residido sucessivamente em Fressin (Pas-de-Calais), Ilhas Baleares, Paraguai e Brasil (1938-45). Autor de mais de trinta livros, entre panfletos, dois volumes de correspondências, além de romances famosos e premiados, entre os quais destacam-se “Sob o Sol de Satã”, “Diário de um pároco de aldeia”, “A Alegria”, “Monsieur Ouine”, “Novas Histórias de Mouchette”, “Os grandes cemitérios sob a lua”, “A Impostura” – sete dos quais já traduzidos e relançados recentemente pela editora É Realizações, de São Paulo.

TRECHOS DO LIVRO

p.22 – Mas o coração do mundo sempre está batendo.
A infância é esse coração. Não fosse o gentil escândalo da infância, a avareza e o ardil teriam, em um século ou dois, exaurido a terra. O pobre planeta, apesar de seus químicos e de seus engenheiros, não seria nada além de um osso esbranquiçado lançado através do espaço. Mas o espírito de velhice, que pacientemente conquista o mundo, perde-o toda vez oportunamente e depois recomeça para perdê-lo de novo, incansável, inexorável. Assim a aranha tece e retece sua filosofia cartesiana, na qual estremece, à aurora, uma bolha d´água. Quando o velho, com seu dedo levantado, solta um milhão de datilógrafos, e quando a paz do mundo vai sair desses autômatos, vemos entrar uma mocinha irônica e dócil, que não pertence a ninguém e que responde com voz doce aos teólogos políticos, com sentenças  e provérbios, à maneira dos pastores. Os cabochianos de Caboche-Cachin, os padres democratas da ilustre Universidade de Paris, que sonham com uma espécie de república universal, os altos prelados pacifistas deslumbrados com o valor do dólar e com o peso das excelentes moedas da Borgonha, a carmelita Eustáquio, que era a piada dos aldrabões comunistas da Corporação dos Açougueiros, os professores da Rua de Clos-Bruneau, os clérigos do capítulo de Rouen e aqueles do capítulo do Senhor Julien Benda, todos esses velhotes, muitos dos quais não passaram dos trinta, consideram com inveja essa pequena França tão nova, tão maliciosa, que morre de medo de ser queimada, e mais ainda de mentir. “Virem o rosto!”, diz ela. “Poupem-me!” Porque ela tem grande dificuldade em não rir quando aquele homem “grão-clérigo, pessoa mui prudente, mui benigna”, o monsenhor bispo devidamente certificado de Beauvais, quer convencê-la de que ela não ama o povo da Borgonha…”

p.31 – “Ó, rosto sagrado! Ó, doce rosto de meu país, olhar sem medo! Eles viram tuas pobres bochechas afundadas pela febre, o suor se formando em tua pequena testa obstinada, o tremor da boca, quando no ar sufocante da sala de audiência, há tantos dias acuada, te recusaste subitamente a olhar, deste tua palavra e teu juramento, ó, fina flor da cavalaria! E por ter acreditado surpreender em perigo, por um momento, um só momento, a honra francesa, tua doce honra, mais frágil do que um lírio, eles nos deixaram de ti a insípida imagem de uma virgenzinha inofensiva, para fazer sonhar os seminários, um mingau açucarado. Eles a queimaram, ou meramente reprovaram no exame do catecismo da perseverança? Balofos! Fazíeis em torno da mártir uma blindagem de barrigas, de coxas grossas, de crânios polidos como marfim, mas ela até o fim ficou olhando, acima das vossas cabeças, um pequeno pedaço de céu livre, aquele céu de março, cruel, cheio de vento, propício para longas cavalgadas noturnas, para a emboscada, para belas proezas armadas…”

p.43 – Afinal, sempre chega a hora dos santos. Nossa igreja é a igreja dos santos. Quem se aproxima dela com desconfiança, só julga enxergar portas fechadas, barreiras e guichês, uma espécie de quartel espiritual. Mas nossa igreja é a igreja dos santos. Para ser santo, que bispo não daria seu anel, sua mitra, sua cruz, que cardeal não daria sua púrpura, que pontífice não daria sua veste branca, seus camareiros, sua guarda suíça e todo o seu poder temporal? Quem não gostaria de ter a força de partir nessa admirável aventura? Porque a santidade é uma aventura. Quem entende isso uma vez entra no coração da fé católica e sente sua carne mortal estremecer com um terror que não é o da morte, com uma esperança sobre-humana. Nossa igreja é a igreja dos santos.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Euler: É uma honra ter acesso a este espaço nobre, entre ilustres colegas do jornalismo goiano.