Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Hermilo Borba: o sangue na escuridão

Na página branca surge o nome deste pernambucano que me vem à memória todas as vezes em que muitos torcem o nariz quando digo gostar de teatro e da língua francesa 

Osman Lins com o casal Lêda Alves e Hermilo Borba Filho

Hermilo e a esposa Lêda Alves, com Osman Lins (à esquerda)

Hermilo Borba Filho [i]. Na página branca surge o nome deste pernambucano que me vem à memória todas as vezes em que muitos torcem o nariz quando digo gostar de teatro e da língua francesa. Ou, mais grave ainda, dos dois, amar a dramaturgia em francês: “que frescura!” Contra esses, é oportuno erigir e resgatar a vida e a obra de Hermilo.

E o indigitado sendo da minha geração não tem pudor ou temor de ser visto como um ser politicamente incorreto, passa a considerar qualquer um que ame o teatro distante do modelo alfa-male, bem distante dos que dominam a cena dos “machos” que, por gosto ou modismo, propagam desgostar (e desconhecer) o teatro (a ópera, a dança etc.), que também em geral não leem sequer um livro por ano; que não têm amigos homoafetivos etcetera e tal – e não estou falando apenas de conservadores, não…

Há muitos no campo dos “descolados” e com boa formação como leitores que assim se fazem presas do mesmo mal: diminuto ou nulo gosto pelo teatro. Enfim, pensar em Hermilo me traz à mente essas duas questões. Argumento, como Hermilo, pelo direito a uma normalidade do gosto que não inclua qualquer “escolha de gênero” no e pelo teatro ou, pelo menos, que o ambiente seja menos hostil a quem como nós optamos pelo natural – ser do sexo em que fomos gerados; e que o silêncio sobre nossos dramaturgos e escritores não torne mais funesto o ambiente das letras em nosso país. Ainda bem que diante da página em branco, salta-me Hermilo:

“De que me valeria uma linha escrita, uma folha de papel em branco, efêmera, como aquele vento? Mais me valia o alvo e lunar amor transformando-se em pedra, musgo, sal, açoite da dura luta. Em breves momentos constatava como era terrível, com tantos acontecimentos graves no plano político-social, só acreditar na pureza do amor, mas tudo na minha vida estava em andamento. Um passo para a frente, um passo para trás. Mas no fundo eu sabia que nada era em vão. Nada se haveria de perder. Tudo consistia em traçar o limite entre a minha liberdade e a vontade de Deus. Eu procurava essa vontade, mas juntava o esforço pela Fé à Razão e atormentava-me em analisar e compreender as cinco vias de Santo Tomás, a do motor móvel, a das causas eficientes, a do contingente e do necessário, a dos graus das coisas, a do governo das coisas.
“E ainda fazia apelo a uma sexta via, a de [Jacques] Maritain, através da poesia, e de dedução em dedução tinha cada vez mais a convicção de que ‘não é pecado o que é verdadeiro’. Situava-me noutra dificuldade: na fronteira exata do cristão e do homem que amava. (…) Tudo formava uma cruz: minha marca. O mais eram palavras…lutando, morrendo, sempre uma catedral com anjos e demônios, insolente”.

Alguns livros de Hermilo Borba Filho da estante deste cronista

Livros de Hermilo Borba Filho do acervo deste cronista

Ei-lo, redivivo. E eu que “sou pouco inclinado às orações fúnebres” – repito com Osman Lins, que “o ruído que em geral se faz sobre os mortos contrasta com o silêncio que os cercou em vida” – ou vice-versa, no Brasil de curtíssima memória de hoje em dia. E mais: não farei aqui o que Osman Lins não ousou em seu ensaio sobre o ex-professor e amigo “de amizade firme”, isto é: “encarecer de tal modo quem se foi, que já ninguém identifica o retrato do morto”.

Não. Falarei de paixão de um leitor jovem e aprendiz de realidade e vida. Falo do Hermilo me chegou às mãos pelo caminho que traçou no romance – a partir da tetralogia romanesca “Um cavalheiro da segunda decadência”, e só depois venho a conhecer e gostar de sua obra teatral. Em 1976, eu morava em Porto Alegre e convivia com jovens do movimento “Qorpo Insano”, sendo o nosso grupo criado em torno ao Clube de Cultura da cidade, no bairro judeu da cidade; onde segundo a lenda o primeiro Qorpo Santo havia sido encenado.

Foi lá que pela vez primeira ouvi falar de Hermilo, onde confirmei meu gosto pelo teatro e onde também comecei a pesquisar a obra inteira e apaixonar-me pelo seu modo de escrever e sua conduta como cidadão, escritor e teatrólogo.

Falando de memória e não desejando fazer história, dou o dito como verdade e sigo pensando em Hermilo. “Qorpo Santo” inspirava os jovens da época por sua irreverência e, embora, houvesse outros nomes para nomear-nos, venceu a forte presença do dramaturgo gaúcho José Joaquim de Campos Leão, conhecido como “Qorpo Santo” [ii].

Hermilo angariou amigos no Rio Grande do Sul, onde Érico Veríssimo – então capitaneando a Editora do Globo, mandou publicar-lhe os livros de contos “O General Está Pintando” (1973), “Sete Dias a Cavalo” (1975) e “As Meninas do Sobrado” (1976) – todos em primeira edição parte de meu acervo bibliográfico; o primeiro, adquirido em meu primeiro ano morando na cidade (74) e os outros numa sequência salutar e provocadora.

O “Correio do Povo” em seu então celebrado suplemento literário “Caderno de Sábado” dedicou-lhe um especial coordenado por Maria da Glória Bordini e editado por Regina Zilberman, professora de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mais do que no acervo, tudo está arquivado entre as melhores memórias de Porto Alegre.

O Hermilo que se fez “Chevalier de L’Ordre des Arts et des Lettres” (Cavaleiro da Ordem das Artes e Letras) por seus méritos e seu trabalho, encenou peças dos mais diversos autores – de Sófocles a Nicolas Gógol, passando por Osman Lins e Dias Gomes. Um levantamento amplo da vida de Hermilo mostrar-nos-ia, como de resto com muitos outros brasileiros desaparecidos há menos de meio século, o quão injusto somos com a memória de nossos homens de Letras.

Osman Lins com a sua navalha na caneta disparou sobre o amigo Hermilo, no artigo “O invencível Hermilo”: “Há por trás de quase todos esses títulos e iniciativas [da obra teatral de H.B.F] um combate que passa desapercebido do público: as incompatibilidades com as funções ou o empenho no sentido de renová-las”.

No ano passado, a Fundação Joaquim Nabuco realizou no Recife uma celebração em torno do centenário do filho pernambucano. De longe, ia apreciando o Hermilo Borba Filho a quem o também pernambucano e ex-aluno Osman Lins [iii] dizia saudoso:

“De tudo eu ia tomando conhecimento ao longe, e certa conversa longa, que sempre planejávamos, nunca se realizou. Houve sempre desencontros e imprevistos, de modo que ou nos víamos apressadamente ou em companhia de outras pessoas, sendo-me impossível discutir com esse escritor que me afirmava [carta de 2-08-1971] sofrer com o mundo e com aqueles que o povoam, certas questões básicas, provocadas pela leitura de seus livros. Tais questões, em grande parte, diziam respeito a certas aderências entre a sua obra romanesca e esse mundo real com o qual ele sofria. Mas a resposta às minhas perguntas, quem sabe, talvez esteja na simples e lacônica frase com que ele – coisa estranha – encerra, sem mais uma palavra, apenas acrescentando o seu nome, a carta de 30 de março deste ano [1976] e a nossa longa correspondência, pois foi a última que me escreveu: ‘E viva a vida!’”

O que saúda a vida confessa ao amigo correspondente que gostaria de ver sua tetralogia de romances lida (e encadernada) “como um todo”. Essa tetralogia, continua Lins, “ainda não devidamente compreendida” que fora escrita em poucos anos, mas pensada e refletida por muito tempo. “Escrevo, realmente com muita rapidez, mas tudo é mastigado e pensado (ou pensado e mastigado) durante muito tempo. Minha história está ligada a ossos e músculos e eu só faço mesmo vomitá-la, fiel àquela crença de que a época necessita de literatura confessional”, disse Hermilo.

Onze anos (1965-1975) delimitam o tempo em que a amizade entre os dois escritores pernambucanos se nutriu de aulas, inicialmente, e de cartas e trocas de livros (e dedicatórias), como assevera Osman Lins: “Essas duas datas não vão aí por acaso. Elas delimitam um período muito especial em nossas relações: o da ‘amizade firme’, que só então nasceu verdadeiramente entre nós e que avultaria com o tempo. Residindo eu em São Paulo e ele no Recife, desenvolveu-se tal afeto de um modo todo literário: através das nossas publicações e de uma correspondência que abrangeria exatamente onze anos, sem intervalos notáveis”.

Sobre os tantos títulos e cargos que o obituário atribui a Hermilo, Osman Lins os desvela todos, mostrando-nos os bastidores da notícia: “Há por trás de todos esses títulos e iniciativas um combate que passa despercebido do público”. Isto é, há o homem, suas esperanças, “certezas que se frustram” e “aflições de uma inteligência que muito ambiciona diante de um corpo que se recusa a tudo cumprir e, no entanto, executa, obedece; o comovente amor ao seu povo”.

O amor recíproco que nós, leitores de Hermilo, temos por sua obra e o respeito por sua biografia estão acima de centenários engalanados, dos obituários e de falsos retoques.

O amor à leitura tem esse condão de despertar em nós leitores as emoções que as inúmeras linhas mastigadas e e pensadas nos proveram e despertaram-nos para realidades não visíveis com a narrativa jornalística do dia-a-dia. Hermilo era assim: capaz de nos levar para uma área do pensamento que só a imaginação teatral e o rito confessional têm o dom de fazê-lo. Sua “Donzela Joana”, considerada por Osman Lins como dos melhores textos da dramaturgia brasileira, bem que merecia ser reencenada, para fazer redivivo o autor que mesmo afogado em dívidas sabia que “fazer teatro no Recife é um dos mais desesperados atos de heroísmo” – como de resto continua sendo fazê-lo no Brasil deste século mal numerado XXI.

E eis que volta “O cavaleiro de segunda decadência” [iv], o fauno narrador, às vezes chamado de “maldito”, aparece-nos dividido entre os Salmos e as orgias, sob a epígrafe de Kawabata – “Eu não consigo nunca ser completamente leal para com os vivos e desejo pelo menos ser honesto com ele agora que está morto”, relembrando-nos:

“Fui eu mesmo quem escolheu este caminho de cardos, pedras e facões?
Eu, com a minha suposta liberdade, jungido ao odor de mal e nem sempre fazendo o bem?
Ou terão sido os outros que, invejosos da minha plenitude, semearam urtigas vermelhas e abelhas carnívoras em tudo quanto era campo e árvore?
Houve, sem nenhuma dúvida, um sinal irado dos céus quando despertei para a fornicação, a traição, a inépcia e todas as formas, afinal da vontade humana.
Pouco me sinto traidor, no entanto.
[…]
Posso confiar-lhes um segredo: só faço o que quero! (…)
Batem sinos,
batem campas,
bate o sangue
na escuridão.”

Adeus, amigo-professor Hermilo Borba Filho.

 

Adalberto de Queiroz, 63, é jornalista e poeta. Autor de “O Rio Incontornável” (poemas), Editora Mondrongo, 2017.

 

[i] Hermilo Borba Filho (8 de julho de 1917 – Nascido em Palmares (PE) |  Faleceu em 2 de junho de 1976 no Recife) – veja verbete sobre a vida e obra de Hermilo na Enciclopédia Itaú: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa7224/hermilo-borba-filho

[ii] Qorpo Santo (Triunfo19 de abril 1829 — Porto Alegre1 de maio de 1883), foi um dramaturgo, poeta, jornalista, tipógrafo e gramático brasileiro – cf. Wikipédia.

[iii] LINS, Osman. “Do Ideal e da Glória: Problemas Inculturais Brasileiros”. São Paulo: Summus, 1977. P.185-89.

[iv] BORBA FILHO, Hermilo. “Um Cavalheiro de Segunda Decadência IV – Deus no Pasto”. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1972, p. 203 e ss. Também a primeira citação em destaque é deste livro, p. 117/8. Mais sobre o autor, neste artigo da companheira Lêda Alves: http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=297

 

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Edson Moreira

“Houve, sem nenhuma dúvida, um sinal irado dos céus quando despertei para a fornicação, a traição, a inépcia e todas as formas, afinal da vontade humana.
Pouco me sinto traidor, no entanto.”. Senti, nesta passagem, a força da sinceridade que choca, talvez como em Nelson Rodrigues. Não conhecia o dramaturgo, mas o memorial escrito por Adalberto de Queiroz me estimulou a ver de perto Hermilo Borba.