Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Hart Crane e Flannery O´Connor – dois ausentes nas traduções brasileiras

Se me dou conta agora que uma crônica tem seu momento, reflito que já escrevi sobre isso: “aparentemente a crônica é talvez, mas a crônica é sempre e, principalmente, quando”

Flannery O´Connor e Hart Crane: duas lacunas de tradução no Brasil

Flannery O´Connor e Hart Crane: duas lacunas de tradução no Brasil

Se me dou conta agora que uma crônica tem seu momento, reflito que já escrevi sobre isso: “aparentemente a crônica é talvez, mas a crônica é sempre e, principalmente, quando. Quando é verão, quando alegria, quando é celebração; ou seu oposto: tristeza e pranto. Na maioria das vezes, a crônica não é”.

Eis uma crônica não programada – sem um quando e um onde – e, no entanto, que se impõe ao cronista; que acontece em virtude das últimas leituras, quando tantas se antecipam nesta lista penelopiana de livros e resenhas.

Livros lidos e à espera se acumulam em minha mesa e sobre todos tenho aquela curiosidade de leitor faminto, mesmo aos 60 anos, vejo-me naquela fase da vida a quem se aplica a legenda bem apropriada a um sexagenário em ano sabático: “Eat, Read, Sleep (Coma, Leia, Durma)”.

Essa legenda ganharia em charme e se transformaria em boa tese, se o cronista citasse Domenico de Masi: “a sociedade pós-industrial privilegia a produção de ideias, o que por sua vez exige um corpo quieto e uma mente irrequieta. Exige aquilo que eu chamo de ´ócio criativo`, o que faz com que nos sintamos livres, fecundos, felizes e em crescimento”.

O corolário dessa afirmação parece ser que se pode ser mais feliz criando e lendo. Sou testemunha de que sim, pode ajudar, pois é felicidade o que colho do que leio, regularmente, desde os dez anos de idade, quando uma amiga, esposa de um pastor – a Sra. Hilda Lins me presenteou com um livro de Francisco Marins, até hoje inesquecível (“O Bugre do Chapéu de Anta”).

Desde então, não parei mais. Leio em bibliotecas, em casa, no ônibus, no trem, no avião. Já li mesmo até em barcos, em praias distantes, em minha cama, no café-da-manhã e à noitinha.

Se não fiz leituras sistemáticas, como alguns dos meus amigos mestres e doutores em Letras, li de tudo e quando amo um livro de um autor, tenho a tendência de procurar outros e outros, aprofundar-me na leitura do mesmo por alguns dias, e até meses e anos.

Estão nessa lista Hermann Hesse, Alaor Barbosa, Thomas Mann, Érico Veríssimo, Carmo Bernardes, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Hermilo Borba Filho, Antonio José de Moura, Clarice Lispector e, mais recentemente, Lúcio Costa, José Geraldo Vieira, Ursulino Leão, Flannery O´Connor, Henry James, Flávio Carneiro, Alberto Mussa et alli.

Os poetas inundam as estantes, de onde saem sem a menor lógica para ganhar minha atenção, por pura idiossincrasia do dono da biblioteca: Hart Crane, Valdivino Braz, Fernando Pessoa, Gerald Manley Hopkins, Heleno Godoy, Herberto Helder, Sônia Maria Santos, Wladimir Saldanha, Tomas Tranströmer, Darcy França Denófrio, Gabriela Mistral, Marco Lucchesi et alli.

Hart Crane saltou-me às mãos sem que o solicitasse. Devo o conhecimento dele a Harold Bloom, que me deu este tesouro. O poeta norte-americano que foi considerado detentor de “uma voz única, refinada por uma revisão incessante até sua morte” (Bloom[i], 2017), ele, Crane, que morreu precocemente aos 32 anos (tendo praticado o suicídio ao saltar de um barco no mar do Caribe).

Quando se lê algo como um depoimento de leitor apaixonado como o foi Bloom, pensa-se logo em saber tudo sobre o poeta, que não tem edições de fácil disponibilidade em nosso país.  De Crane, disse Bloom:

Comecei a ler Hart Crane na biblioteca em meu aniversário de dez anos. Quando fiz 12 anos, em 11 de julho de 1942, minhas irmãs fizeram uma vaquinha entre elas e me compraram um exemplar de “The Collected Poems of Hart Crane” [não disponível em Português], o primeiro livro que tive na vida. Hoje começo a escrever esse meu adeus a meu poeta favorito, entre todos antigos e modernos. A paixão de um leitor por uma poesia que ele mal entendera em seu primeiro contato cresceu ao longo de 70 anos, tornando-se um instrumento ou pedra de toque para julgar e apreciar toda a poesia americana”.

Descubro que o escritor português João de Mancelos traduziu Crane e o comentou:

São muito poucos os escritores que com apenas três obras publicadas lograram entrar no cânone das letras norte-americanas.
Hart Crane conseguiu-o, quase duas décadas após a sua morte, com “White Buildings'”, “The Bridge” e “Key West”. Escritor polêmico, encarnação do poeta maldito, alcoólico, bissexual, suicida, nada o ajudou a franquear os portões bem cerrados do panteão das letras. A não ser o seu talento, feito de arrebatamento épico, nem sempre contido na verborreia de imagens, e de momentos líricos, às vezes algo alquímicos.
Apesar de alguma imperfeição da sua escrita, o autor tinha uma rara qualidade: o sentido do seu tempo, o conhecimento de uma América pós-pastoril, moderna, agressiva, materialista. O retrato que faz da nação em “The Bridge” é permeado pelo êxtase quase xamânico de um visionário. Tal como uma ponte, o seu poema é uma via que liga sem atar e harmoniza sem fundir as facetas tantas vezes contraditórias da América: o passado, o presente e o futuro; a espiritualidade e o materialismo; o puritanismo e a liberdade dos quacres; o mundo euro-americano e o universo ameríndio; a natureza e a tecnologia
“.

Hart Crane, do comércio de doces à poesia

Nascido em 1899, em Ohio (EUA), Hart Crane foi um dos nomes de relevância no contexto do chamado modernismo norte-americano. Filho de pais que viviam em conflito, Hart passou boa parte da vida em desentendimento com o pai, que era um bem-sucedido comerciante de doces que criticava o filho pela dedicação à poesia e pela pouca dedicação ao trabalho. Tendo começado a escrever cedo, veio a publicar seu primeiro livro – “White Buildings” – em 1926. Sua obra mais reconhecida, no entanto, é “The Bridge”, um longo poema, publicado em 1930, que se assemelha, esteticamente, a “The Waste Land”, de Eliot. Muito ligado ao álcool, o poeta se suicidou em 1932, saltando de um barco em meio ao golfo do México. Entre seus escritos, encontrou-se um grupo de poemas aparentemente preparados para publicação – “Key West: An Island Sheaf”. Abaixo, transcrevo o poema “O Carib Isle!” (Ó Ilha Caribenha!), na tradução de Anderson Lucarezi, ao lado do original:

O CARIB ISLE!

 

The tarantula rattling at the lily’s foot

Across the feet of the dead, laid in white sand

Near the coral beach—nor zigzag fiddle crabs

Side-stilting from the path (that shift, subvert

And anagrammatize your name)—No, nothing here

Below the palsy that one eucalyptus lifts

In wrinkled shadows—mourns.

 

And yet suppose

I count these nacreous frames of tropic death,

Brutal necklaces of shells around each grave

Squared off so carefully. Then

 

To the white sand I may speak a name, fertile

Albeit in a stranger tongue. Tree names, flower names

Deliberate, gainsay death’s brittle crypt. Meanwhile

The wind that knots itself in one great death—

Coils and withdraws. So syllables want breath.

 

But where is the Captain of this doubloon isle

Without a turnstile? Who but catchword crabs

Patrols the dry groins of the underbrush?

What man, or What

Is Commissioner of mildew throughout the ambushed senses?

His Carib mathematics web the eyes’ baked lenses!

 

Under the poinciana, of a noon or afternoon

Let fiery blossoms clot the light, render my ghost

Sieved upward, white and black along the air

Until it meets the blue’s comedian host.

 

Let not the pilgrim see himself again

For slow evisceration bound like those huge terrapin

Each daybreak on the wharf, their brine-caked eyes;

—Spiked, overturned; such thunder in their strain!

And clenched beaks coughing for the surge again!

 

Slagged of the hurricane—I, cast within its flow,

Congeal by afternoons here, satin and vacant.

You have given me the shell, Satan, —carbonic  amulet

Sere of the sun exploded in the sea.

Ó ILHA CARIBENHA!

 

A tarântula inquieta ao rés do lírio

Pelos pés do morto, sobre a areia branca

que cerca os corais – sequer siris violinistas

Ladeando no curso (que mudam, subvertem

E em que põem seu nome em anagrama) – Não, nada

Sob a sonolência que um eucalipto ergue

Em sombras franzidas – lamenta.

 

 

Mas suponha

Que eu conte os quadros de morte ardente, feitos em nácar;

Brutos colares de conchas em volta dos túmulos

Traçados com cuidado. Então

Que à areia branca eu possa falar um nome, fértil,

Ainda que em língua estranha. Nomes de flores, de árvores

Quebram a frágil cripta dos mortos. Enquanto isso,

O vento que ata a si mesmo uma tônica morte –

Dança e se afasta. Assim, as sílabas não querem mais corte.

Mas onde está o Capitão desta ilha do tesouro

Sem catraca? Quem, exceto os siris caça-palavras,

Patrulha estas áridas arestas do mato?

Que homem, ou o Que

É Comissário de mofo pelos sentidos emboscados?

Caribenha, a lógica dele enreda os olhos queimados!

 

 

Por sob a poinciana, ao meio-dia ou à tarde,

Que flores de fogo coagulem a luz, levem meu espírito

Crivado céu acima, em branco e preto pelo vento,

Chegando, por fim, até o cômico chefe do paraíso.

 

Que o viajante não veja a si mesmo por mais uma vez,

Pois a lenta evisceração prende, tal faz com as tartarugas

A cada alvorada, no cais, olhos secos com sal;

– vencidas; trovão sobre aquilo que se é!

E bicos cerrados tossindo por nova maré!

 

Escombro do ciclone – Eu, fundido com o fluxo,

Congelado por tardes daqui, setinosas e vagas.

Você me deu a concha, Satã, – amuleto carbônico

Seco no sol explodido no mar.

Flannery O´Connor – grave lacuna das publicações no Brasil

A outra das lacunas sentidas em nossa língua, sobretudo no que se refere aos escritores católicos, e a que gostaria de me referir é a da obra de Flannery O´Connor (1925-1964) – ela que é considerada uma das maiores escritoras norte-americanas do século XX.

Nascida na Geórgia, Sul dos Estados Unidos, onde passou toda a sua breve existência – interrompida pela morte precoce, causada pelo lúpus, aos 39 anos de idade –, a obra de Flannery consiste em dois romances e nos 31 contos traduzidos por Leonardo Fróes, oitavo título da coleção “Mulheres Modernistas”, que a Cosac Naify lançou a primeira edição completa no Brasil.

Os contos de O’Connor, gênero em que adquiriu maestria, abordam, essencialmente, a religião (ela era católica numa região predominantemente protestante), o racismo (ela era branca e filha de proprietários de terra) e a violência, sempre numa atmosfera de extremo realismo. Num dos poucos momentos que se salva no posfácio, o escritor Cristóvão Tezza ressalta que “ela é curiosamente mais moderna que Faulkner (…)”.

Originária do Sul dos EUA, como Thomas Wolfe e Faulkner para só citar dois sulistas, Flannery O’Connor é a menos prestigiada pelos nossos tradutores – enquanto Clemens, Porter, McCullers, Welty e Caldwell têm vários livros traduzidos e até mais de uma versão no Brasil ou Portugal.

“É deveras surpreendente que, até a publicação de “Sangue Sábio”, nenhum escrito de Flannery O’Connor houvesse sido publicado em português. Tal vazio é inexplicável…”, arremata J. R. O’Shea.

O vácuo preenchido representa parte da tese de doutoramento de J.R. O’Shea, que é Ph.D. em literatura anglo-americana pela Universidade da Carolina do Norte (EUA). De 2002 para cá, as editoras parecem ter redescoberto Flannery O’Connor, pois apareceram outros escritos dela traduzidos no Brasil.

Se é verdade que “a Graça é o acontecimento perante o qual o homem entende o seu destino, o seu verdadeiro destino” – na acepção do crítico Rodrigo Gurgel -, eis uma verdade que se aplica plenamente ao destino de escritora de Flannery O´Connor.

Flannery levou isso muito a sério e deu-se a liberdade de escrever um romance cômico de alta qualidade (“Sangue Sábio”), assinalando: “A noção da liberdade não pode ser percebida facilmente. Trata-se de um mistério, o qual um romance, mesmo cômico, deve necessariamente explorar”.

E ao deixar-lhe, dileto leitor, com um trecho de O´Connor, prometo voltar a essa escritora que vale a pena ser lida e relida no Brasil e alhures.

“Sentada no degrau, agarrada ao balaústre, pouco a pouco ela recuperou o fôlego, respirando em doses mínimas, e a escada parou de balançar como gangorra. Só então abriu os olhos. Voltou-os lá para baixo, lá para o fundo, lá para o buraco negro de onde ela mesma, há tanto tempo, tinha vindo. E disse: “Boa sorte”, dizendo-o numa voz cavernosa que ecoou nos vários níveis do poço, “neném”.
Maliciosamente os três ecos repetiram: “Boa sorte, neném”.
Mais uma vez ela reconheceu a sensação tão ligeira de coisa que se mexia. Era no entanto como se não fosse em seu ventre. Parecia mais um nada que ainda estava em nenhures, estando em repouso e à espera na plenitude do tempo.”

(do conto “Um golpe de sorte”, em Contos completos de Flannery O´Connor, tradução de Leonardo Fróes. S. Paulo, Cosac Naify, 2008, p. 143).

Adalberto de Queiroz, 63, é jornalista e poeta. Autor, entre outros, de “O Rio Incontornável: poesia”, Mondrongo, 2017.

[i] BLOOM, Harold. “O Cânone Americano”, Trad. Denise Bottmann. Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2017, pág. 491.
[ii] MANCELOS, João de. Este e outros textos de J. Mancelos podem ser lido no site do jovem autor português.

 

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Salomão Rovedo

– Hart Crane, “Poesia da recusa”. [Organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.