Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Giovanni Papini e um ano de Destarte

Ao completar 12 meses de atividade semanal na coluna, este cronista quer celebrar esta oportunidade. Primeiramente, expresso minha gratidão ao editor-geral deste Jornal Opção, o sr. Euler de França Belém, pela abertura deste espaço e aos poucos mas valorosos leitores que me proporcionam este saudável exercício que venho fazendo aqui, do que decorre, além de inúmeros novos relacionamentos, muita satisfação pessoal

Giovanni Papini e um poderoso testemunho de conversão

Giovanni Papini e um poderoso testemunho de conversão | Foto: Reprodução

Com humildade repito Giovanni Papini: ”Só nos resta a arte. Não pelo lucro, que é escasso; não pela fama, que em vida nos torna escravos e na morte não nos ressuscita, mas por aqueles poucos momentos de volúpia que consegue dar-nos, pelas próprias dificuldades quando você consegue vencê-las; e, depois, porque não é de todos, antes, de pouquíssimos; e é, tudo visto e somado, a mais nobre de matar o tempo que não desgoste uma alma delicada”.

Isso pode ser considerada uma coisa bem egoísta, mas o faço primeiro para mim mesmo e, depois pelo outro, mas o faço com critérios. Não ouso elaborar definições e conceitos, e sim aproximar “o que para mim é a boa literatura” daquilo que me parece ter boa aplicação entre os milhares de lançamentos disponíveis.

Por conseguinte, espero que estes textos tenham alguma utilidade para o leitor, e que nenhum supere a ênfase na leitura como fator civilizatório neste mundo cada vez mais avesso ao livro e à literatura.

Comecei escrevendo em Destarte sobre um pequeno livro de Georges Bernanos (“Joana, Relapsa e Santa”) e, passado um ano, ainda estou devendo aos meus seis leitores um verdadeiro ensaio, que espero ter pronto em breve sobre a obra de Bernanos.

Fico muito feliz que os jovens estejam se voltando para o “grande urso” da literatura francesa, analisando-o através da revisão de seus livros e dos que se transformaram (inspiraram) filmes, como se pode ler nessa série de ensaios sobre “Bernanos e o Cinema”, onde o crítico Fabrício Tavares de Moraes e o crítico de cinema Miguel Forlin examinam a obra literária do escritor francês, a partir de filme de Robert Bresson[i].

Ainda nesta semana, um evento importante movimentará os internautas brasileiros em torno do tema “literatura católica”, onde especialistas farão conferências online sobre escritores como o próprio Bernanos, Thomas Mann, Gustavo Corção, G.K. Chesterton, Ramón Llull, Dostoiévski, entre outros. Vale a pena conferir essa inédita iniciativa, dileto leitor! Para saber mais, clique no link https://www.literaturacatolica.com.br.

Pois bem, se aqui me exercito em público, semanalmente, há um ano, nessa forma que designei de “crônica” – que outros poderiam chamar de ensaísmo –, procuro fazer o bom uso da crítica; e sei que estou bem distante da boa crítica praticada no século passado, acadêmica ou não, mas que não tenha da teoria se feito escrava; priorizo mas não fico exclusivamente no terreno da literatura dita católica.

Feito um balanço desta página, os poucos mas valorosos leitores poderão entrar em contato com várias personalidades do mundo literário que por aqui foram objeto de leitura atenta (e entusiasmada) do que escolho ler e comentar, seja porque povoa minhas estantes, seja por sugestão de leitura de meus pares: eis a ignição do motor destas crônicas.

Muitas vezes, há de se ir buscar nas estantes virtuais, nos sebos propriamente ditos ou digitais, suporte para compreensão e aprofundamento das obras comentadas, mas os livros serão sempre a fonte primeira dos comentários e a exata citação deve ser um princípio inarredável.

Há tantos livros e autores ditos “impossíveis” hoje, não reeditáveis, caídos no silêncio, que retomá-los é, na expressão de um de meus leitores, “questão de utilidade pública”. Casos como o de Léon Bloy, de Gustavo Corção, de Julien Green e Lúcio Cardoso ou de Octávio de Faria, que se tornaram emblemas de autores incongruentes com um século incrédulo. E pensar que todos eles foram epígonos em seus dias neste mundo.

Hoje, tenho em mente nesta crônica escrever sobre Giovanni Papini. E comecei me questionando: isso é possível e cabível? Esta indagação inicial diz respeito ao fato de que o tempo passou do avesso a literatura do escritor italiano, como de resto o fez com boa parte da literatura católica.

Autor lido “en passant”, em referências feitas pelo romeno Mircea Eliade, que tinha o italiano entre seus influenciadores (ao lado do francês André Gide), dele encontrei dois de seus livros no site da Estante Virtual: “Meu Encontro com Deus” e “Diários”.

Giovanni Papini (1881-1956) foi um cortejado escritor italiano, adepto de um nacionalismo extremado, considerado como “propagandista do imperialismo italiano e do ‘nuovo nazionalismo'” (Carpeaux, 1978[ii]), chamava sua própria alma “sitibonda come un deserto” [árida como um deserto]. E assim percorreu, ainda mais furibundo do que “sitibondo”, todas as filosofias. Em “Um Uomo Finito” descreveu esse caminho que o levou à bancarrota espiritual, chegando ao anti-intelectualismo mais violento”. Dou a palavra ao próprio Papini:

“Passemos à política. Nunca tive o selo de nenhum partido, porque sempre considerei que um artista e, em geral, um homem que vive para a inteligência, não pode humilhar-se nos currais e nos apriscos, onde, se for ovelha deve fazer ‘o que as outras fizerem’, e se for pastor ainda mais. Quem se propuser a iluminar os outros não pode aceitar andadeiras, peias e antolhos; procura toda a verdade e não os exageros das verdades parciais[iii]”.

Acusado de antissemita, Papini foi coagido a entrar no Partido Nacional italiano, mas não há evidências de que tenha sido mesmo fascista e sim um antissocialista convicto. Prefiro a avaliação menos generosa, no entanto mais próxima da verdade, de que tenha sido antes e sempre adepto de um “individualismo radical de inspiração stirneriana[iv]”.

Hoje, gostaria que relembrássemos de Papini, este “vanguardista incurável”, segundo Carpeaux, que foi um grande mistificador. O crítico austro-brasileiro diz que até o catolicismo de Papini, “de cuja sinceridade não se quer duvidar, serviu-lhe principalmente de instrumento de agressão”.

De fato, envolvido em polêmicas por muito tempo, Papini no capítulo “Dedicado aos batráquios”, antecipa-se aos críticos que possam tomar como oportunista seu testemunho sobre a conversão:

“Por que escrevo este livro? Entre todas as minhas obras é a única que não teria desejado escrever, que demorei para escrever. Temia e temo que a incansável malignidade dos batráquios, dessas rãs que perderam o rabo, vá coaxando que eu queira me gabar de uma redenção imerecida. Digamos mais: que eu queira fazer dinheiro com o itinerário da estrada de Damasco. Porque, batráquios de ampla boca, não invejam a felicidade reconquistada, nem a paz obtida depois de tanta dilaceração interna; invejam aquele pouco de fama transitória, que se paga cem vezes o dobro com os aborrecimentos e as malevolências, e aos solitários é mais peso do que prêmio; invejam, acima de qualquer coisa, aquele pouco dinheiro pago com a fadiga, jamais procurado, e que a hostil imaginação multiplica, quase para exacerbar os ciúmes e vingar-se[v]”.

Para o leitor atento deste e de outros escritos de Papini, fica claro que “este florentino escreve, de fato, com rara perfeição a língua pura e deliciosa da sua cidade civilizadíssima”, para usar a expressão de Otto Maria Carpeaux, ou uma mais simples, de sua tradutora no Brasil (Carla de Queiroz): “Não podemos chamar o estilo de Papini de rebuscado; ele é antes, trabalhado, rico, burilado”. Ou, na própria voz do autor que assume que teve “a coragem de sair das formas regeladas, das estradas batidas demais”.

Saiba o leitor dessas linhas semanais que, quando terceirizo a opinião, eu o faço também com recorrência a meia-dúzia de críticos notáveis, feito um anão nos ombros dos gigantes: Carpeaux, Franklin de Oliveira, Temístocles Linhares, Eliot, Bloom etc.

Este “Meu Encontro com Deus”, de Giovanni Papini, que tenho aberto sobre a mesa há dez dias, mesmo sendo para mim uma descoberta muito recente, reconheço, merece um ensaio completo, pelo êxtase que nos causa seu livro.

Deixo aqui a abertura do livro. Uma amostra entre as inúmeras passagens saborosas que designam o mês especial para este cronista:

“Tenho grande predileção por setembro[vi]. Deixo os outros meses aos professores de Latim, aos apaixonados pelos lucros da lavoura, às comediantes, aos adolescentes de suéter, ao Estado-Maior da poesia doentia, oceânica, mercurial.
A primavera é interesseira: cada flor é um compromisso de investimento frutífero… Bem-vindo seja setembro para reverdecer declives e ribeiras, sem cálculos de colheita: suas flores não pertencem ao comércio…”. 

Papini lutou com Deus (ou contra a ideia de um único Deus), mas teria sido a leitura atenta dos Evangelhos o que acendera as brasas de seu idealismo e, em “História de Cristo”, ele diz de si mesmo:

O autor deste livro uma vez escreveu outro, muitos anos atrás, para contar a triste vida de um homem que queria, em certo momento, tornar-se Deus. Agora, na maturidade da idade e da consciência, ele tenta escrever a vida de um Deus que se fez homem”.

Na tentativa de conciliar inteligência e sentimento, Papini constata “A desforra do coração”, capítulo deste livro precioso em que narra a experiência de leituras feitas na sua Florença natal, no coração do campo invernal, em que lia os Evangelhos, sob a luz dos lampiões, para os aldeões de sua província:

Os meus amigos montanheses divertiam-se ouvindo-me ler…Tive o desejo de ler para aqueles homens o Evangelho: não inteirinho, mas o tanto que bastasse a iluminá-los um pouco melhor sobre a religião que diziam professar e que professavam de modo um tanto aproximado, como sua natureza lhes permitia…
Naquele tempo, como todos sabem, não era cristão e esse meu apostolado voluntário poderia parecer brincadeira ou fingimento. (…) eu sei disso: que desde então, se minha inteligência era descrente, meu coração era, se não cristão, inclinado a sê-lo. E acho que sempre foi assim. Mas o coração não havia
encontrado como consumir-se e fechou-se numa solidão que o desanimou e enfraqueceu.

[…]

“Esse dissídio, pouco claro para mim, durou até o dia em que a verdade divina de Cristo conquistou também o meu cérebro e agora, coração e inteligência, finalmente harmonizados e concordes, devolveram unidade e paz a um homem que parecia atormentar-se e atormentar por divertimento, e essa perseguição de sempre novas morganas nada mais era do que o remorso confuso desta interna e inquieta desarmonia, hoje, finalmente, por compaixão do Pai, recomposta e para sempre.
Muito do mérito de ter percebido essa correspondência entre o coração e a inteligência cabe aos camponeses que me forneceram o pretexto não somente para ler o Evangelho com mais humilde atenção, mas de exercer com eles, continuamente necessitados de tantos auxílios, aquela benevolência que a fanfarronice do intelecto não havia conseguido abafar por inteiro na minha alma naturalmente cristã. Vivendo no meio de um pequeno povo de pobres, vê-se e sente-se a cada momento quanto é necessária e desejada a caridade. E que se acostuma a fazer o bem experimenta, pouco a pouco, um tal prazer, uma tão convencida satisfação, uma doçura tão crescente, que há de chegar forçosamente o dia de compreender que a doutrina que justamente ordena o amor não pode ser falsa; o mestre que a ensinou com a sua vida e a sua morte não deve ser apenas um homem, mas um Deus, o Deus vivo”.

O convertido Giovanni Papini admite que a sua “substancial mudança” foi capaz de fazê-lo “abandonar o estrume da presunção pela humildade de uma escravidão gloriosa”. O jovem irrequieto e vanguardista cede ao maduro autor de “Meu Encontro com Deus” – verdadeira queda do cavalo, como a que transformou Saulo no Apóstolo São Paulo, fazendo cair-lhe as escamas dos olhos. No caso de Papini, mesmo que os mexeriqueiros possam remexer no seu testemunho para dele zombar, resta a coda de que esse é:

“Um testemunho leal, escrito com o coração, mas que por necessidade se externa em palavras. É pouco, quase nada. Mas uma alma, mesmo a mais ignóbil entre as que habitaram a carne humana, ainda assim é a maior riqueza da terra. E se algumas vezes, nestas páginas, vocês perceberem uma batida, um verdadeiro pulsar, lembrem-se de que meu árido coração amou, quase sempre, mais que tinhas sido amado”.

E é com essas palavras que encerro esta crônica de celebração do meu primeiro ano em Destarte. E à guisa de um balanço provisório, deixo aqui um pequeno guia de crônicas nas primeiras dez edições de Destarte. Leiam sem moderação!

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta, autor, entre outros de “O Rio Incontornável” (Edit. Mondrongo, Itabuna, 2017).

Georges Bernanos – https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/destarte/joana-relapsa-e-santa-infancia-e-o-coracao-do-mundo-103389/

Michael Cunningham e Walt Whitman – https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/destarte/as-diversas-especies-de-um-mundo-em-extincao-104018/

Ursulino Leão – https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/destarte/ursulino-leao-no-cronista-virtuoso-um-homem-em-busca-do-sagrado-104717/

Franklin de Oliveira – https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/destarte/ler-poesia-pra-que-ou-ha-futuro-para-escrita-parte-1-105198/

São João da Cruz – https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/destarte/ler-poesia-pra-que-e-por-que-parte-2-105764/

Dante Alighieri – https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/destarte/fuga-para-a-cidade-do-sommo-poeta-106280/

António Machado – https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/destarte/no-caminho-de-siena-1-o-sagrado-e-os-campos-de-castela-106796/

Crônica de viagem (Siena) – https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/destarte/no-caminho-de-siena-2-o-retorno-e-o-angustioso-anseio-107154/

Jorge Luís Borges – https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/destarte/verdade-desestabilizada-em-jorge-luis-borges-1-107793/

Kazuo Ishiguro – https://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/destarte/kazuo-ishiguro-sugere-que-o-esquecimento-e-uma-porta-aberta-para-paz-entre-os-povos-108916/

[i] In: Blog “Estado da Arte” cf. link abaixo, consultado em 27/08/2018: https://cultura.estadao.com.br/blogs/estado-da-arte/a-nova-historia-de-mouchette-entre-silencios-e-gritos/

[ii] CARPEAUX, Otto Maria. “História da Literatura Ocidental, vol. 7, 2ª ed., rev. e atualizada, Rio de Janeiro: Alhambra, 1978, pág. 1928.

[iii] PAPINI, Giovanni. “Meu Encontro com Deus” (1960), Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1960. Trad. e apresentação de Carla de Queiroz, pág. 131-2.

[iv] STIRNER, Max . 1995. “O Ego e seu Próprio”. Londres: Cambridge University Press, citado por Bertrand, cf. link http://nostalgiaforthefutures.blogspot.com/2014/10/giovanni-papini-failure-1912.html Para saber mais sobre Stirner: https://www.wikiwand.com/pt/Max_Stirner

[v] PAPINI, Giovanni, cf. nota iii, acima, pág. 151-2.

[vi] PAPINI, Giovanni. Cf. nota iii, acima, pág. 1, “A Partida”.

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Luciana Zani

Quando eu li : Em “Um Uomo Finito” descreveu esse caminho que o levou à bancarrota espiritual, chegando ao anti-intelectualismo mais violento”, confesso que parei a leitura em muitas cogitações. Questionei como um homem que procura, pode ir a “bancarrota espiritual, anti-intelectualismo”. Mas retomei, e as referencias seguintes, “grande mistificador”, “serviu de instrumento de agressão”, teve “a coragem de sair das formas regeladas, das estradas batidas demais”… me levou ao entendimento do discrepar-se do comum, da maioria. Me levou a lembrança da premissa de que o verdadeiro crente é aquele que um dia duvidou, porque cogitou. Me fez voltar ao… Leia mais