Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Flannery O´Connor e a matemática da exclusão

Prometi falar ainda uma vez sobre a escritora católica norte-americana Flannery O´Connor, mas logo me lembrei do brilhante ensaio de Martim Vasques[i] para o jornal literário Rascunho e o aproveito em parte aqui, pois não me sinto com os apetrechos devidos ao crítico, senão a vocação de cronista provincial

Esquecida no Brasil por 45 anos, Flannery O´Connor volta com a força de sua literatura

Escritora católica norte-americana foi esquecida das editoras no maior país católico do mundo (Brasil) por 45 anos

“Com Flannery a certeza de que o mal será finalmente derrotado já existe logo na primeira sentença esculpida a custo de muita paciência e muito estilo, camada por camada; mas agora o problema, para uma artista que quer se afirmar como católica em um universo contaminado pela “cristofobia” (sobretudo na casta intelectual), é manter o que lhe parece ser o certo sem deixar infectar-se pelas seduções da escuridão, mesmo que esta pareça estar envolta na mais radiante das luzes.” (Martim Vasques).

Então, está dado o primeiro passo. A frase pinçada ao ensaio de Vasques aplica-se ao romance “O Céu É dos Violentos” (com tradução disponível em edição portuguesa), mas poderia ser aplicada a vários contos da antologia de “Contos Completos” da edição brasileira da Cosac Naify.

Há também a dívida com a prova de que Flannery O´Connor, que deseja ser publicada em português[ii], precisou esperar a omissão de nossos editores por mais de quatro décadas depois de sua estreia (1946). Só então, em 1991, seus leitores puderam lê-la em vernáculo do Brasil.

Não estando pronto para falar de uma pessoa tão sofisticada e tão mal compreendida, queria adiar esta crônica, no que fui impedido pelo meu editor. As leituras esparsas que os brasileiros podem fazer da obra de Flannery O´Connor, embora ela tenha a mesma estatura que outros de seus conterrâneos (sulistas) norte-americanos, é um vazio que justificou o título de uma crônica anterior.

O fato é que hoje, depois de muitos anos de lançamento de seus livros nos Estados Unidos, podemos garimpar muito pouca coisa nas nossas casas editoriais. “Por que você diz que há uma lacuna editorial em relação a ela, Flannery?”, pontua meu interlocutor imaginário.

É simples, respondo: nascida na Geórgia, região sul dos Estados Unidos, em 1925, ela começou a ver sua obra publicada em 1946 e publicou pouco, e de forma marcante abriu a porta do cânone da literatura norte-americana, até sua morte precoce, causada pelo lúpus, aos 39 anos de idade, em 1964.

Sua obra consiste em dois romances e nos 31 contos traduzidos por Leonardo Fróes no Brasil e lançados pela Cosac Naify; no entanto, foram necessários 45 longos anos para que tivéssemos a primeira tradução de um livro dela aqui – “É Difícil Encontrar Um Homem Bom[iii]” e mais outros onze anos para que o mesmo tradutor nos legasse esta versão de “Sangue Sábio” (2002, editora Arx).

É o próprio tradutor, Sr. O´Shea[iv], quem se mostra estarrecido com o fato trazido pelo cronista e largamente contestado: “É deveras surpreendente que, até a publicação de ‘Sangue Sábio’, nenhum escrito de Flannery O´Connor houvesse sido publicado em português. Tal vazio é inexplicável, visto que diversos escritores do sul dos Estados Unidos – de Clemens, Faulkner e [Thomas] Wolfe – têm seu trabalho traduzido, seja em Portugal, seja no Brasil, havendo no caso de determinadas obras, mais de uma tradução”.

J.R. O´Shea fez um notável trabalho de tradução que representou sua tese de doutoramento, preenchendo requisito final do Ph.D. em literatura anglo-americana da Universidade da Carolina do Norte (EUA). Na tese, O´Shea faz uma revisão histórica da teoria da tradução; analisa problemas específicos encontrados e como solucioná-los, além de fazer uma interpretação temática do romance de Flannery (“Sangue Sábio”), brindando-nos, a nós leitores brasileiros.

A outra referência importante da obra de Flannery no Brasil está também indisponível (pois, esgotada ou “desaparecida”, com o fechamento da editora). Trata-se de “F. O´Connor: contos completos[v]” (2008). Fora esses, há traduções em Portugal, mas como se sabe de difícil importação, seja porque os sites online dos “patrícios” são avessos aos compradores brasileiros, seja pelo “fosso” entre os dois países, aquele “isolamento”, o “desconhecimento mútuo” que separa Brasil e Portugal, para usar a acertada avaliação do poeta Claudio Willer.

Mesmo o muito popular livro de preces de O´Connor que teria provavelmente muito boa aceitação no “maior país católico do mundo”, não teve acolhida por nossos editores e tradutores. “Dommage!”

Um artigo erudito do crítico Martim Vasques – o mesmo que nos legou o catatau-cabeça intitulado “A Poeira da Glória” – pode ajudar-nos (e provocar os acadêmicos!) a entender porque O´Connor tem tão pouca aceitação, embora sua escrita venha sendo avaliada como de qualidade igual ou superior aos outros escritores norte-americanos acima citados.

Situando a escritora e seu (nosso) tempo

Nascida em 1925 em Savannah, no estado sulista da Georgia, a americana Mary Flannery O’Connor (sim, ela era uma mulher) surgiu na literatura como alguém que ia à contramão do seu tempo. E quais eram as características deste Zeitgeist? Ortega y Gasset o chamava apropriadamente de “a desumanização da arte”. Se alguém quiser listar os pontos principais deste momento que vivemos ainda hoje e tiver fôlego para segui-los em suas minúcias, fique à vontade: a falta de preocupação com os problemas humanos e com a própria natureza do homem; o interesse pelo artifício, pela técnica, como uma maneira de evitar qualquer aproximação de uma forma viva, orgânica — o que faz com que a obra de arte se preocupe apenas com si mesma, participando de um mundo auto-suficiente, fechado, hermético. Assim a arte é vista como mais um jogo, algo feito sem nenhuma seriedade para com os assuntos que realmente atormentam a humanidade, reduzindo-se a uma ironia essencial, a uma brincadeira pela brincadeira, na triste intenção de “épater les bourgeois”. Para atingir tal intento, a obra deve ter uma artificialidade, para não dizer uma falsidade, graças à realização escrupulosa de uma auto-consciência criadora em que o artista controla cada detalhe do seu trabalho. E disso tudo resulta, enfim, uma arte sem transcendência, sem nenhum contato metafísico, completamente “fora deste mundo.”

Quem lê o desnecessário (e deslocado) posfácio de Cristovão Tezza na edição dos “Contos completos” em português, deparar-se-á com este tipo de equívoco.

Flannery O´Connor o contos completos (em português) só 45 anos depois do lançamento

Os contos completos de O´Connor pela Cosac Naify, 45 anos depois da edição original em inglês

Ainda comentando o romance “O Céu É dos Violentos[vi]” (1960), Vasques vem em socorro do leitor, mostrando que, enquanto travava uma batalha com uma doença autoimune (o lúpus) [“lobo”] que viria a lhe ceifar a vida; na verdade, Flannery lutava um degrau acima para legar-nos sua obra (sua batalha era com o “lobo da dúvida e o desespero da certeza”. Deixemos a palavra a Martim Vasques:

A batalha de Flannery

“A batalha que ela trava consigo mesma é com o lobo da dúvida e o desespero da certeza. De nada adianta ser uma crente — em especial, uma católica moderna em um mundo secularizado — se o próprio artista não se confrontar com a incômoda pergunta de que o niilismo tem uma persuasão incrível, que faz a razão humana preencher as lacunas que a fé supostamente não teve a coragem de explicar. Ao contrário de alguns de seus discípulos explícitos na literatura contemporânea — como Don DeLillo, Cormac McCarthy e David Foster Wallace —, sua obra não se debate com a dúvida para depois chegar a uma certeza, como se tivesse de vislumbrar uma conversão igual à da figura geométrica da parábola invertida, em que, no caso, o ápice das sombras é apenas o ponto de partida para uma ascese implacável; se para estes, a existência do mal é garantida por um desencanto com a ideia do sagrado, com Flannery a certeza de que o mal será finalmente derrotado já existe logo na primeira sentença esculpida a custo de muita paciência e muito estilo, camada por camada; mas agora o problema, para uma artista que quer se afirmar como católica em um universo contaminado pela “cristofobia” (sobretudo na casta intelectual), é manter o que lhe parece ser o certo sem deixar infectar-se pelas seduções da escuridão, mesmo que esta pareça estar envolta na mais radiante das luzes. Assim, o que está em jogo, seja em ‘O Céu É dos Violentos’ ou nas outras histórias, não são mais frases feitas como “o problema do mal”, “a soberania do bem” ou “o dilema da graça”, slogans comuns a quem infelizmente decide ser umhomo religiosus” e usar uma linguagem já degradada há mais de cinco séculos; é o espinho na carne que nos incomoda porque estamos constantemente assombrados por uma vida incapaz de ser explicada de qualquer forma, pela ou pela razão, uma vida que nos assusta devido a um espectro que nos acompanha em nossos pensamentos mais íntimos e que sempre nos avisa de que, não, não há como fugir do invisível que nos sustenta.” (Vasques)

J. R. O´Shea nos brinda com boa tradução do romance-cômico de O´Connor

“Sangue Sábio” em tradução de J. R. O´Shea, O´Connor em Português

Em meio a sua batalha, Flannery não perdeu sua consciência nem seu senso crítico, como atesta a “nota da autora à segunda edição de ‘Sangue Sábio’”: ‘Sangue Sábio’ atinge a idade de dez anos [original de 1949] e ainda vive. Meu senso crítico é suficientemente aguçado para permitir tal juízo e muito me agrada poder verbalizá-lo aqui. O livro foi escrito com entusiasmo e, se possível, deve ser lido com entusiasmo. Trata-se de um romance cômico, sobre um cristão ´malgré lui`, sendo, portanto, muito sério, visto que todos os romances cômicos com verdadeiro valor artístico devem abordar questões de vida ou morte […] O fato de que a fé no Cristo é para alguns questão de vida ou morte tem constituído um obstáculo para leitores que preferem considerar o assunto de importância menor”.

Neste romance cômico-sério, o leitor travará conhecimento com Hazel Motes (motes: corpúsculo, molécula, átomo) – a “história do santo protestante” e sua cegamente sincera “Igreja Sem Cristo”. Isso provavelmente “causará um grande impacto no leitor brasileiro, quando se consideram a riqueza e a profundidade do sagrado e do religioso na cultura do Brasil” – para usar a esperançosa frase de O´Shea, em sua introdução a “Sangue Sábio”.

O´Shea que estudou com afinco toda a ficção de O´Connor para escrever “Sangue Sábio” em língua portuguesa[vii]”, pois concebe a tradução como uma arte e prefere(ia) exercê-la com “a orientação artística e literária” e não como coisa “metodológica e linguística”. Pois bem, este tradutor antevia o que este cronista crê ter vislumbrado no contato com a leitura dos textos de Flannery: “A grandeza da obra de O´Connor está, justamente, no fato de a mesma se prestar a abordagens suplementares, ou mesmo distintas, àquela proposta pela autora”.

E, sim, reafirmo: há uma miopia em nossos editores, professores de literatura e tradutores – com essas brilhantes exceções a confirmar a regra, que representam Vasques, Gurgel, O´Shea e Fróes. E a dificuldade reside no caso da aproximação com o obra de Flannery justamente na solução da antinomia “dogma-criação artística” – questão que nos leva ao século de Charles Baudelaire, de acordo com Martim Vasques:

“Será que o dogma restringe a visão do escritor? Desde Baudelaire, esta é uma pergunta que incomoda os nossos estetas da decadência ou da “imparcialidade artística”, e é sempre jogada para debaixo do tapete como se fosse um bicho cabeludo que ninguém ousa enfrentar. […]
Flannery O’Connor não se esquivou da questão e resolveu-a de forma admirável e audaz: para ela, o dogma amplia a visão do artista, permitindo-o enfrentar as questões que o atormentam, seus verdadeiros demônios, dentro de uma tensão existencial implacável que o faz ficar aberto à realidade tal como ela se apresenta aos seus olhos renovados — violenta, bela e sempre misteriosa. Se o escritor for um católico, ele deve ser, antes de tudo, um escritor; o fato de ser católico apenas lhe dará forças para encarar a verdade que todos querem esquecer. Dessa forma, não adianta nada retirar qualquer parcela de transcendência na obra de Flannery, como querem alguns de seus estudiosos, limitando-a somente ao aspecto formal. Sem este detalhe, o leitor não terá como compreender, por exemplo, a paradoxal sensualidade que se esconde nas cenas intensamente eróticas de contos como “Gente Boa da Roça” (em que uma perna artificial pode ser a metáfora do defloramento) ou “As Costas de Parker” (a carne tatuada com o rosto do Cristo Bizantino é o estopim para a excitação histérica de uma crente perturbada)”.

Bem, essa defesa de uma obra que tem sua própria força dramática vai se alongando e é hora de recomendar aos meus seis leitores que, na ausência de livros tradicionais (celulose), procurem a leitura digital dos escritos de Flannery O´Connor disponíveis, por exemplo, na ferramenta Wook[vi], pesquisando pelo nome da autora. Afinal, como diz J.R. O´Shea: “Já é tempo de satisfazer a vontade da escritora que, para muitos, teria alcançado o calibre de Faulkner”.

Adalberto de Queiroz, 63, é jornalista e poeta. Autor, entre outros de “O rio incontornável (poemas)” – Edit. Mondrongo, Itabuna (BA), 2017.

[i] Conforme artigo para o jornal “Rascunho” (Curitiba, PR), Ed.#158, consultável em http://rascunho.com.br/o-desespero-da-certeza/

[ii] Cf. O´SHEA, José Roberto, in: “O sangue sábio: romance” de Flannery O´Connor, na Introdução do tradutor: “Flannery O´Connor desejava ver sua obra traduzida para o português. Em 1957, em carta a Elizabeth Bishop, à época residindo no Brasil, O´Connor expressava o desejo de ter alguns contos traduzidos e publicados na Revista Contemporânea (Habit 198). Entretanto, não se tem conhecimento de que qualquer obra sua tenha sido publicada em português” (p.16/17); cf. fonte da Nota iii., abaixo.
A tese do tradutor sobre O´Connor pode ser acessada no link: http://bit.ly/2KenCwk.

[iii] O´CONNOR. Flannery. “É Difícil Encontrar Um Homem Bom”, trad. José Roberto O´Shea. São Paulo: Arx, 1ª ed., 1991.

[iv] O´CONNOR. Flannery. “Sangue Sábio”, trad. José Roberto O´Shea. São Paulo: Arx, 1ª ed., 2002.

[v] O´CONNOR. Flannery. “Contos completos: Flannery O´Connor”, trad. Leonardo Fróes. São Paulo: Cosac Naify, 2008. 720 pp. 3 ilusts.

[vi] O´CONNOR. Flannery. “Sangue Sábio” e “O Céu É dos Violentos”. Lisboa: Ed. Theoria, 2015; “O Céu É dos Violentos”, Cavalo de Ferro Editora, trad. Luís Coimbra, 1988 (esgotado).   https://www.fnac.pt/Romances-Flannery-O-Connor/a523053

[vii] A tese de J. R. O´Shea está disponível no link: https://www.evernote.com/shard/s54/sh/c3698067-01b8-470d-a93f-9d2b91e425a8/7dd0adcf2a278ae3d86668ac4838dbdc

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