Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

O mito da juventude eterna

Tenho sobre a mesa o livro de Mircea Eliade (1907-1986), intitulado “Uma Outra Juventude e Dayan[i]”, traduzido do romeno por Fernando Klabin. É uma fábula sobre o tempo, recriando antigos mitos do poder do sonho, do desejo de conhecimento universal, um conto de fadas para adultos que atualiza o mito da juventude eterna – um contraponto à desesperança e o desejo universal de extinção

Eliade traz de volta à cena as dimensões do Sagrado

Mircea Eliade (1907-1986) trazendo de volta à cena as dimensões do sagrado | Foto: Reprodução

Há duas vertentes na obra de Eliade: a do historiador da religião e do narrador. Nas livrarias e websites há no Brasil uma profusão de títulos do autor que são pertinentes à primeira vertente, bem mais do que da segunda, pois apenas uns 2% são de obras de ficção, no total dos livros ofertados, em português e francês.

Eu, como a maioria dos leitores brasileiros, conforme a constatação do posfácio de Eugen Simion, também sabia até então bem mais sobre o Eliade historiador das religiões do que sobre o narrador: “O que até certo ponto é mesmo de se esperar”.

No lançamento desta edição que tenho em mãos, em 2016, Eugen Simion registrava que “passados vinte anos desde a morte do autor, os estudos de Eliade sobre xamanismo, ioga, sobre as religiões australianas, sobre o sagrado e o profano, o mito do eterno retorno, além dos três alentados volumes da “História das Ideias e Crenças Religiosas” e muito outros livros, todos traduzidos para muitas línguas, comentados e resumidos em dicionários especializados, são considerados obras de referência em diversas áreas”.

Mas a verdade é que o narrador Mircea Eliade deixou mais de uma dúzia de relatos, em diversas fases de sua vida, que giram “em torno de cinco eixos estilísticos” (Simion, 2016). Influenciado pelo francês André Gide, Eliade escreveu dois romances que permaneceram inéditos por mais de cinquenta anos.

Neste livro que o leitor poderá ter em mãos, dou ênfase à novela-título “Uma Outra Juventude”, onde “o autor parte da ideia de que o homem é uma soma de mitos que, mesmo sem saber, até o mais profano dos espíritos porta consigo, dando-lhe acesso a revelações (epifanias), a sinais que lhe são enviados de toda parte, num mundo que se apresenta repleto de símbolos a serem decifrados”, constata Simion.

Sabemos desde as lições de Leszek Kolakowski [ii](1972) em “A Presença do Mito”: “A arte é um modo de perdoar a maldade e o caos do mundo. Perdoar não significa de modo algum reconciliar-se com o mal e menos ainda renunciar à luta contra ele. Tampouco significa justificar o mal, e não deve dar lugar a nenhuma teodiceia. Não é um afeto paralisante dirigido a um mal possível e futuro. A arte também pode ser um ato pelo qual se perdoe a maldade do mundo quando ele toma a pedra e a atira…”.

De fato, para o autor de “Imagens e Símbolos” (1952), “relatando um mito, reatualiza-se de certo modo o tempo sagrado no qual se cumpriram os acontecimentos de que se fala (Eis porque nas sociedades tradicionais se não pode contar os mitos em qualquer altura nem de qualquer maneira: só se pode recitá-los nas estações sagradas, na selva e durante a noite, ou em redor do fogo, antes ou após os rituais, etc.)”.

Mircea Eliade fez de sua vida uma aventura de “procurar e encontrar sinais do Sagrado”. É fato reforçado por Eugen Simion e pelos estudiosos da obra do romeno Eliade. E pode ser comprovado em livros como “O Sagrado e O Profano” (1957) e “Mito e Realidade” (1963).

Nesta novela de minha predileção (“Uma Outra Juventude”), estamos diante da ideia da regeneração biológica, do poder de obtenção da “eterna juventude” não por uma fonte – como em tantos relatos míticos anteriores –, mas por um raio que cai do céu sobre o personagem central Dominic Matei num Sábado de Aleluia, próximo à Catedral Mitropolia, de Bucareste, recuperando a juventude ao quase octogenário linguista.

Em seu polêmico “A Deusa Branca[iii]”, o poeta e crítico britânico Robert Graves (1895-1985) diz que “mito e religião são revestidos pela linguagem poética”, enquanto a prosa seria o campo da ética, da filosofia e da estatística, não se admitindo a mistura entre as duas formas de discurso. Há, no entanto, nestas duas novelas, uma mistura poderosa feita por um mitólogo que resolve pôr a narrativa a serviço da poesia da vida, desmentindo o poeta, historiador e mitólogo galês Robert Graves.

Em “Uma Outra Juventude”, novela que inspirou o filme “Youth Without Youth”, de Francis Ford Coppola (2007), Eliade nos faz conhecer o professor e linguista setentão que, rejuvenescido pelo raio, adquire poderes e faculdades mentais que a humanidade levaria milênios para conquistar.

Este novo mutante consegue poder de leitura e apreensão de conteúdos quase à altura de um computador e bem assim com o aperfeiçoamento das línguas que estudara desde a juventude real, o chinês e outros idiomas, que passam a ser assimilados com extrema facilidade.

O sonho e o tempo

Os sonhos também se tornaram uma faculdade e uma fonte de aprendizado ao novo personagem pós-relâmpago, pós eletrocussão:

“Todo dia ele ia à biblioteca e solicitava vários livros e coleções de revistas antigas. Folheava-os atentamente, fazia anotações, redigia fichas bibliográficas, mas todo esse trabalho era um disfarce. Tão logo lia as primeiras linhas, sabia o que viria depois; embora não compreendesse o processo de anamnésia (como se costumara a chama-lo), descobriu que conhecia de antemão qualquer texto que tivesse diante dos olhos, cujo conteúdo desejasse saber.
Algum tempo depois de começar o trabalho na biblioteca, teve um sonho longo e dramático, do qual recordava apenas fragmentos, pois o interrompera, despertando várias vezes. Um detalhe, sobretudo, o impressionara: depois da eletrocussão, sua atividade mental de algum modo antecipa a condição que os seres humanos alcançariam dentro de algumas dezenas de milhares de anos… Em suma, sou um mutante, pensou, despertando. ‘Antecipo a existência do homem pós-histórico. Como num romance de ficção científica’, acrescentou, sorrindo e achando graça. Ele fazia essas reflexões irônicas, em primeiro lugar, para as potências que cuidavam dele. ‘De certo modo, é verdade’, ouviu o pensamento. ‘Mas, à diferença dos personagens de ficção científica, você teve preservada a liberdade de aceitar ou recusar essa nova condição’[iv]”.

O poeta gaúcho Augusto Meyer foi quem me chamou a atenção para um conhecimento muito antigo que coloca o saber no centro da capacidade de memória e lembrança e que o sonho tem para o aprendiz um efeito didático. “Nós somos a sombra de um sonho na sombra”, dizia Meyer, ecoando Próspero, personagem do bardo inglês Shakespeare em “A Tempestade” (Ato IV, Cena I): “Nós somos feitos da matéria de que são feitos os sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono”.

Vem de um saber muito antigo o poder dos sonhos, que no final arrebatam o mutante da novela de Mircea Eliade, confundindo-o a ponto de não lhe permitir diferenciar sonho de realidade e vice-versa. É um truque narrativo interessante para um final inusitado, um apelo dramático ou de um “golpe teatral” para usar novamente a acertada classificação de Simion.

Mas sem incorrer em “spoiler” da narrativa, avanço que a novela “Uma Outra Juventude” desde o título “evoca um famoso conto de fadas romeno [Juventude sem velhice e vida sem morte, de Petre Ispirescu, cf. informado em Nota do Tradutor] dedicado ao mito da juventude eterna”.

O fato é que ali transitam mito literário e teorias sobre rejuvenescimento e recuperação da memória, memória quase de computadores e sonhos:

“Mesmo antes de sofrer a ameaça de uma amnésia total [Dominic inicialmente tem horror à esclerose que se aproxima com o envelhecimento!], eu não conseguira realizar grande coisa. Na juventude, fui apaixonado por muitas ciências e disciplinas, mas, além de uma imensa leitura, não realizei nada. Então, por que eu? Não sei. Talvez porque eu não tenho família. Há, com certeza, muitos outros intelectuais sem família; talvez eu tenha sido escolhido por ter sempre desejado, durante a juventude, deter um conhecimento universal e, então, bem no momento em que eu estava prestes a perder completamente a memória, foi-me dado tamanho conhecimento universal que só será acessível ao ser humano dentro de milhares de anos…”.

Dominic é pois, antes de tudo, o resultado de uma espécie de milagre de antecipação: o resultado “do raio caído na Noite da Ressurreição”, num “Sábado de Aleluia”, o que se vê renascido, rejuvenescido.

A novela pode então ser vista como metáfora do que é a essência do milagre cristão narrado por São João, em Apocalipse 21: “Vi, então, um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existia…E já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição”. E mesmo de uma ressurreição da carne, pois o corpo de Dominic Matei é novo e robusto, como num Salmo de David.

Mas pode ser também elemento para confirmação da mítica teoria hindu de vidas sucessivas, na história dentro da novela, quando Veronica Bühler se salva de uma avalanche e passa a revelar conhecimentos esotéricos e antigos que a ligavam a um ancestral (Rupini), como numa prova clara da transmigração da alma.

O fato é que em Mircea Eliade narrador encontramos sinais evidentes de um escritor que, diante da catástrofe da guerra e do horror atômico; dos “métodos reducionistas” (como ele próprio costumava designar o marxismo, o freudismo etc. que esvaziaram o mundo de sentido. Diante disso tudo, Eliade se dispõe a trazer de volta à cena a dimensão do Sagrado. Da boca do narrador para o centro do nosso pensamento:

“Por causa das guerras nucleares que irão se travar, muitas civilizações, a começar pela ocidental, serão destruídas. Sem dúvida, as catástrofes vão desencadear uma onda de pessimismo sem precedente na história da humanidade, um desalento geral. Mesmo que nem todos os sobreviventes cedam à tentação de se suicidar, poucos ainda terão vitalidade suficiente para alimentar esperanças no homem e na possibilidade uma humanidade superior à espécie homo sapiens. Tais relatos, se forem descobertos e decifrados nessa época, poderão contrabalançar a desesperança e o desejo universal de extinção.[v]”.

Se o leitor é parte do bloco de amantes do enredo, há muita coisa a checar ao longo da narrativa composta por 124 páginas – como no percurso em zigue-zague do protagonista, que vai da França à Suíça, da ilha de Malta à Irlanda, de Bombaim a Gorakhpur -, tudo bem encadeado e com homenagens aos escritores amados do autor: Gide, Joyce, Giovanni Papini e vários escritores romenos e indianos admirados por Eliade. Vale a pena seguir o percurso.

Em tudo, rege soberano o Tempo e o Sonho: “Começo sempre, naturalmente, lembrando-a de Maya, a grande feiticeira, a ilusão cósmica. Não se trata de um sonho propriamente dito, digo-lhe, mas faz parte da natureza ilusória do sonho por se tratar de futuro, ou seja, de tempo; pois então, o Tempo é, por excelência, irreal…”. É o que diz o professor Tucci, um cientista que acompanhava os casos de Dominic e de Veronica.

Engastada aí nessa pedra do tempo está a fabulosa história da borboleta de Chuang-Tsé, que é fundamental para entendimento da coda da novela.  Recorro a Jorge Luís Borges sem sacrificar esta crônica com a revelação do final teatral de Eliade: “O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio; é um tigre que me destrói, mas eu sou o tigre: é um fogo que me consome, mas eu sou o fogo. O mundo, desgraçadamente, é real; eu, desgraçadamente, sou Borges”. Como desgraçadamente sou Queiroz e ele, Eliade ou Matei…

E deixo o leitor com um verso de Antonio Machado para tornar ainda mais provocador que vá imediatamente atrás deste livro:

O Dom Esclarecido[vi]
“De toda a memória somente vale
o dom esclarecido de evocar os sonhos.”

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta. Autor, entre outros, de “O Rio Incontornável”, poemas, Editora Mondrongo, 2017.

Um conto de fadas para adultos, “Uma Outra Juventude” é um libelo contra o desejo universal de extinção | Foto: Divulgação

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Sinopse na Amazon: “O livro de Mircea Eliade inspirou o filme ‘Youth Without Youth’, de Francis Ford Coppola (2007), ‘Uma Outra Juventude’ nos revela uma faceta pouco conhecida do pai da moderna História das Religiões, Mircea Eliade (1907-1986): a de um inventivo escritor de ficção. Mesclando romance de espionagem e literatura fantástica, a narrativa traz a história de um grande linguista que, atingido por um raio, rejuvenesce e passa a ser perseguido pelos nazistas, interessados nas extraordinárias capacidades mentais que ele adquire. O volume, traduzido diretamente do romeno por Fernando Klabin, se completa com outra novela curta, ‘Dayan’, em que um jovem matemático, auxiliado pela lendária figura do Judeu Errante, tenta decifrar o famoso teorema da incompletude de Gödel”.

Preço: R$ 35 (médio). Disponível também em https://www.estantevirtual.com.br

[i] ELIADE, Mircea. “Uma Outra Juventude e Dayan”. Tradução do original romeno e notas de Fernando Klabin; posfácio de Eugen Simion – São Paulo: Editora 34, 2016, 1ª. ed., 216 p. (Coleção Leste).

[ii] KOLAKOWSKI, Leszek. “A Presença do Mito”. Intr. de José Guilherme Merquior, trad. de José Viegas Filho. Brasília: Editora da UNB, 1981, p. 33.

[iii] GRAVES, Robert. “A Deusa Branca: uma gramática histórica do mito poético”. Tradução de Bentto de Lima. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003, pág. 553.

[iv] Eliade, cf. Nota i. op. cit., p. 65-66.

[v] ELIADE, cf. Nota i. op. cit., p. 84-85.

[vi] BORGES. Jorge Luís. “Livro dos Sonhos”. Tradução de Cláudio Fornari. Antonio Machado, cit por Borges, p. 62.

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