Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Do espanto e outros mistérios

Termino de ler “A Mente Naufragada”, do pensador norte-americano Mark Lilla em meio (ou no fim?) da greve dos transportadores. Eu havia me transportado para um mundo de análise profunda do que seria um naufrágio de análises políticas e me sinto um Jonas cuspido por uma baleia em praia brasileira

Reféns de uma greve, vimos – minha mulher e eu, e minhas filhas e meus genros, amigos e netos, vizinhos, concidadãos – todos reféns | Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Eis-me, diante do papel em branco da crônica atrasada, diante do espanto, do inusitado. Reféns de uma greve, vimos – minha mulher e eu, e minhas filhas e meus genros, amigos e netos, vizinhos, concidadãos – e os amigos americanos (que não têm lições de Brasil suficiente para entender que este não é um país para amadores!) – todos reféns.

Aqui, no oitavo dia de greve (28/5), de sustos e de espantos, vimo-nos diante de decisões a tomar: uma obra que deve ser concluída (uma casa em construção à espera do terceiro neto que chega em julho!) e outras querelas.

Amigos americanos, coitados, que vivem há pouco tempo no Brasil, planejam a volta da filha à América sem entender quase nada, destreinados que são do espanto Brasil; um genro que trabalha em Brasília; o outro, que tem responsabilidades que exigem dele mobilidade permanente; as filhas que seguram o tranco, uma delas grávida…

Eis-nos, como todas as famílias brasileiras, de olho no controle de combustível do automóvel, no preço oscilante do Uber, no sumiço de verduras e legumes nas prateleiras, e, mais grave, no torniquete do desaparecimento do oxigênio dos hospitais e dos insumos para os irmãos brasileiros que dependem de hemodiálise ou de cirurgias de urgência.

Minha dependência é tão pequena que me sinto náufrago de ar. Devo gravar mais poemas na Rádio Sagres 730 para um projeto totalmente avesso às crises e necessidades de movimentos paredistas: “Cem poemas essenciais”, quando nos falta o essencial à mesa.

Centro de Internação Provisório foi palco do incêndio que matou oito garotos que cumpriam medidas sócioeducativas, em um incêndio na sexta (25/5) | Foto: Nathan Sampaio/Jornal Opção

Eis-nos, como todos os seres humanos diante do naufrágio mental. Dias antes, um incêndio numa instalação de correção de menores infratores teve como saldo nove meninos mortos.

São pequenos marginais do sistema em que vivemos. Optaram por não estudar, dirigiram suas vidas para o Mal, não tiveram a direção familiar necessária, não se deixaram educar e se dirigir para o Bem, provavelmente naufragaram em vários domínios da existência, até ser consumidos num incêndio –, mas não importa, morreram nove cidadãos em um incêndio em que a cidade não se pronunciou com o adequado sinal de luto.

Sofro por isso. Angustia-me a greve. O país em pânico quer entender. O cronista quer entender e, lendo, poemas na emissora de rádio, Ferreira Gullar torna-se parte desta leva de poemas essenciais, o mesmo poeta que nos dizia que escrever poesia é como responder a um espanto. É o que se vê em seu poema “Falar”:

A poesia é, de fato, o fruto
de um silêncio que sou eu, sois vós,
por isso tenho que baixar a voz
porque, se falo alto, não me escuto.

A poesia é, na verdade, uma
fala ao revés da fala,
como um silêncio que o poeta exuma
do pó, a voz que jaz embaixo
do falar e no falar se cala.

Por isso o poeta tem que falar baixo
baixo quase sem fala em suma
mesmo que não se ouça coisa alguma.

Silêncio necessário

Mais do que “falar baixo”, calo-me. Gullar, o poeta do espanto, do relâmpago do verso, nos diz mais do que todas as 145 páginas do pensador americano que me levou a repensar tantos outros sentidos da Razão.

Estou no delta do Nilo, como meu interlocutor imaginário que repete Lilla e Burke:
“A História se desenvolve vagarosa e inconscientemente ao longo do tempo, com resultados não previsíveis. Se o tempo fosse um rio, então seria como o delta do Nilo, com centenas de rios tributários ligando-se a ele em todas as direções.

Eis-nos diante da História, com parcos instrumentos de uma leitura fragmentária e fragmentada, mesmo que tenhamos lido autores revolucionários (na maior parte do tempo no Brasil) e reacionários (raríssimos no radar dos que lêem) ou conservadores (incipientes em nosso mapa editorial).

Mas é de espanto que a crônica deveria tratar. E este está posto no dia-a-dia do leitor, em meio à greve e à paralisação das consciências | Foto: Thiago Gomes/Agência Pará

E nem adianta o cronista lembrar que Eric Voegelin (um dos analisados de Lilla) já está disponível no Brasil, tal como Leo Strauss, ao contrário de Fransz Rosenzweig – vai o movimento ser sempre como o de um afluente ao grande rio. A realidade que se nos mostra (e cada vez mais isso é real!) vê-se cada vez mais fragmentária.

O domínio que tenho, que temos nos coloca diante de uma leitura que tem de peremptório o espaço entre um livro e outro. Quando não se dá que os livros são trazidos (ou entregues) para casa do “consumidor” e só servem como enfeites na prateleira. Livro, feito a realidade, deveria mexer com a alma do leitor.

Mitopoética ou mito-história?

Mas é de espanto que a crônica deveria tratar. E este está posto no dia-a-dia do leitor, em meio à greve e à paralisação das consciências.

É preciso que o cronista (e o leitor) não ceda à magia da mito-história. É preciso que leia para além do que a mídia escreve nos sites, revistas e jornais e mensagens de grupos de WhatsApp. Um país é uma responsabilidade – não uma carta de esperanças nostálgicas de um passado ou de um futuro paradisíacos.

Reféns da crise de abastecimento – não só de combustíveis – brasileiros passam horas em postos na tentativa de encher o tanque de seus veículos | Foto Tânia Rêgo/Agência Brasil

A vida precisa de gasolina e tomates; de oxigênio de hospital e de máquinas de hemodiálise; precisa de compaixão. Foi assim que me senti, ao ler no estúdio da rádio o poema intitulado “Sombras”, da poetisa baiana-goiana Lêda Selma:

Sento-me à mesa e divido as culpas
numa ceia farta
de esperanças murchas e de sonhos avariados.

E tudo é sem rosto, disforme e insosso
como um verso falso.

E tudo é só um vulto nas sombras dos cacos.
E é só um morto
— menino em trapos —
que matou a fome dilatando as narinas
ou estendendo o braço…

São nove meninos mortos e eu me sento à mesa nesta noite em que escrevo esta crônica preso de espanto, em um rio lento do viver em pânico, do espanto de vivermos sem a gota de Esperança necessária a pensar a realidade com a alma a um palmo acima do chão da história falhada, de um país refém de espantos vários. O francês Léon Bloy que me deixa esperançoso de poder escrever a próxima crônica:

“O paraíso terrestre era necessariamente toda a terra. De outro modo, a terra não poderia ter sido maldita, posto que, supondo o Jardim de Delícias um lugar determinado, tudo, além dos limites desse lugar, seria o que vemos, e, por conseguinte, não teria tido necessidade de maldição. Adão, antes da sua queda, vivia num estado inimaginável, análogo, ao que parece, àquele de Nosso Senhor na sua Humanidade gloriosa, depois da Ressurreição: luminosidade, agilidade, sutileza, ubiquidade… a matéria não lhe podendo servir de obstáculo. Adão, antes da queda era como um carvão em estado de incandescência. Subitamente extinto, perdeu sua luz e seu calor, tornando-se frio e negro”.

Ministro-chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, e as falhas estratégias do governo federal para conter a crise que atinge a todos. “Há para o diabo épocas fastas, inexplicáveis momentos em que uma extraordinária licença é concedida aos poderosos de seu inferno”, escreve o francês Léon Bloy | Foto: Cesar Itiberê/PR

Mesmo sabendo, pelo próprio Bloy, que também é o espanto que se assenta na raiz do inferno e, às vezes, em alguns locais do nosso mundo terrestre: Há para o diabo épocas fastas, inexplicáveis momentos em que uma extraordinária licença é concedida aos poderosos de seu inferno”. 

Adalberto de Queiroz, 63, é jornalista e poeta. Autor, entre outros de “O Rio Incontornável” (poemas), Ed. Mondrongo, Bahia, 2017.

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Ana Bailune

Excelente crônica. Somos reféns, todos nós. A poesia ajuda, mas não cirze os enormes buracos na pele.
E há quem acredite que a causa deles abrange os interesses de toda nação. Não vejo assim.

Nelson Castro

Excelente!…