Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

A viagem final do circunavegador literário V. S. Naipaul

No obituário de Naipaul (1932- 11/08/2018), Harrison Smith escreveu no Boston Globe que, “na segunda metade do século XX, poucos escritores foram tão elogiados, e tão desprezados quanto o Sr. Naipaul, um narrador de estilo cujo talento era tão grande quanto a sua propensão à controvérsia”. “Se um escritor não gerar hostilidade, está morto”, dizia o Sr. Naipaul

Romancista e viajante V.S. Naipaul

O talentoso V.S. Naipaul, prêmio Nobel de Literatura de 2001, morreu, no último dia 11 de agosto em Londres

Com ou sem polêmica, Naipaul não morreu. As obras de ficção e não ficção do premiado escritor constituem sólido acervo, merecedor de alcançar mais e mais leitores. A escritora e crítica Elizabeth Hardwick, que conviveu com Vidiadhar Surajprasad Naipaul, tem muito a dizer a respeito do escritor britânico, nascido “par accident” em Trinidad de ascendentes indianos. Para Hardwick, a melhor autodefinição do autor talvez esteja nesta frase de “Os Mímicos”[i]:

“I have visions of Central Asian horsemen, among whom I am one, riding below a sky threatening to snow to the very end of an empty world”.
(Tenho visões de cavaleiros na Ásia Central, um dos quais sou eu, galopando sob um céu que ameaça neve, em direção ao fim de um mundo vazio).

Às vésperas de celebrar um ano desta coluna, sigo o ritual de todas as semanas: vou lendo e tomando notas, em duas ou três frentes de leituras, como de hábito, um livro de poesia ou de crítica (de preferência sobre poetas e ou poesia); outro de prosa; um livro de generalidades, incluindo  história, mitologia – não descartando nunca a possibilidade de uma boa história policial. Naipaul estava na estante, até que li a matéria aqui mesmo no Opção sobre a morte do escritor, escrita por nosso editor-chefe Euler de França Belém.

No obituário do jornal inglês “The Guardian”, Keneth Ramchand exalta a clareza de Naipaul “que construía frases claras e irredutíveis e organizava-as em parágrafos incorrígiveis. Seu controle da linguagem e da retórica de seus romances era tal que ele podia persuadi-lo a acreditar, mesmo quando suas verdades eram apenas parcialmente verdadeiras”.

Quando penso que estou cedendo à tentação de escrever sobre Naipaul, antecipando-me a uma “lista penelopiana” (Euler) de escritores e livros que tenho para a Destarte, segue a confissão de que talvez eu não esteja, ainda, preparado para escrever sobre um autor prolífico que deixou mais de três dezenas de livros, entre ficção e não-ficção (viagens).

Sobre “Os Mímicos”, sabe-se, em síntese que o narrador é Ralph Singh, ex-ministro de uma ilha fictícia do Caribe, caído em desgraça na política local, exilado em um subúrbio de Londres, escreve suas memórias. Esse personagem central de “Os Mímicos” assemelha-se de alguma forma ao próprio Naipaul: hindu, nascido em Trinidad, autoexilado em Londres e, como Conrad, viajante contumaz. Assemelha-se em seu desencanto em relação às sociedades “mal-acabadas” do Terceiro Mundo e no humor ácido destilado sobre elas. Acusado de crueldade, Naipaul respondeu: “Há todo um entulho missionário difundido por pessoas que mentem, que não chamam um parasita de parasita, um bárbaro de bárbaro, que dizem ‘pobre canibal, ainda não comeu carne fresca hoje'”.

De minha parte, encontrei neste “Os Mímicos”, um livro bem construído, dividido em enredo tripartite, em que o narrador rouba a cena por escrever suas memórias de político em fim-de-carreira, estabelecido em Londres, de onde pode rememorar suas aventuras e desventuras na fictícia Ilha Isabella, lançando um olhar mordaz, crítico, muitas vezes irônico sobre si mesmo, os outros e dele próprio como ator político: “Cabia a mim escolher meu personagem, e escolhi o que era mais fácil e mais atraente. Eu era o dândi, o rapaz extravagante vindo da colônia, que não ligava para os estudos… A pessoa se torna aquilo que vê de si mesma nos olhos dos outros”.

“Jamais me ocorreu que escrever este livro poderia vir a ser um fim em si, que o ato de registrar uma vida poderia se tornar uma extensão daquela vida. Jamais me ocorreu que eu pudesse vir a gostar da vida metódica e regulamentada do hotel, que antes me levava ao desespero, e que o contraste entre a imutabilidade de meu quarto e a lenta construção do que lá estava sendo criado me daria tamanha satisfação. Ordem, sequência, regularidade: é o que sinto cada vez que o medidor do aquecedor estala, aceitando mais uma de minhas moedas. Em quatorze meses, o aquecedor já engoliu centenas de xelins, ora com um som oco, ora com um som mais cheio. (…)
Conheço cada linha do trecho do papel parede acima da escrivaninha. Não percebi nenhum sinal de deterioração, mas fala-se em redecorar o hotel. E a escrivaninha: quando me sentei à sua frente pela primeira vez, achei-a tosca e estreita. O tampo escuro estava manchado e arranhado, os arranhões estavam cheios de terra e sujeira, a gaveta estava emperrada, os pés tinham sido serrados. Não fazia parte do mobiliário padronizado do hotel. Fora-me fornecida em atenção a um pedido especial. Era um móvel de segunda mão, que não pertencia a ninguém. Agora ela me parece reabilitada e limpa: é um objeto cotidiano e confortável e até mesmo os arranhões adquiriram um certo brilho. Isto se deu graças ao dom da observação minuciosa, que adquiri ao escrever este livro; uma ordem, da qual faço parte, vem corresponder a outra, que é criada por mim. E com este dom veio também outro, o que eu menos esperava: uma capacidade de gozar constantemente, calmamente a passagem do tempo[ii].”

Transcrevendo este trecho do romance quando terminei a leitura, em 2016, primeiro num caderno e depois num editor de texto, seguia um conselho do professor Rodrigo Gurgel, na oficina de Escrita Criativa de 2016. De fato, é preciso resgatar na leitura o “dom da observação minuciosa”, pois é dele que partem os bons romancistas para compor suas obras e como o leitor mais exigente pode melhor aproveitá-las.

Penso no trabalho mental (e braçal) que levou V.S. Naipaul a construir o romance, quando entre os seus 30 e 32 anos, elaborou (e pôs no papel), cuidadosamente, os planos em que se desenrolam as aventuras e desventuras de um personagem em prosa não linear. Foram esforços de um talentoso e disciplinado escritor trabalhando nele, entre agosto de 1964 a julho de 1966. Somente isso já exigiria do leitor uma atenção cuidadosa sobre essa tenacidade.

A observação atenta do que lê para aprender é sistemática e continuamente provocada a ser uma espécie de comunhão entre leitor-escritor. O que espreita, o que vigia, o que presencia – eis o leitor atento. Ao que descreve cabe manter-nos agarrados ao fio da conversação imaginária.

A imaginação, penso nela como “a doida da casa” (Santa Teresa D’Ávila) que pode por vezes ser o fio condutor de uma remissão. Trata-se de “gozar calmamente a passagem do tempo” para um e outro. Mas não haverá comunhão entre leitor-autor se não houver verdade no texto.

Em busca de uma ordem externa e interior, o narrador Ralph Singh revê seu passado como “mais do que um sonho de ordem”: “Era um desejo, sentido no ápice do poder de recolhimento; um desejo melancólico de desfazer coisas. Nada tinha a ver com a motivação do político. Também nunca fui político. Nunca tive a obsessão, a consciência de uma missão, a mágoa necessária”, constata e dispara:

“Os políticos são pessoas que verdadeiramente fazem algo a partir do nada. Pouco de concreto têm a oferecer. Não são engenheiros nem artistas; nada constroem. São manipuladores; oferecem serviços de manipulação. Como nada têm a oferecer, raramente sabem o que querem. Por vezes afirmam querer o poder. Mas o definem de modo vago e impreciso. O que é o poder? A limusine com chofer e bancos forrados de fino linho branco, os agentes de segurança esperando no portão, os criados hábeis e respeitosos? Mas isto é apenas comodismo, num hotel de primeira. É o poder de intimidar, humilhar, vingar-se? Mas esta é a espécie mais efêmera de poder, que desaparece tão depressa quanto surge; e o verdadeiro político é aquele que quer jogar o jogo o resto da vida. O político é mais do que um homem imbuído de uma causa, mesmo quando a causa em questão é apenas subir na vida. Ele é impelido por alguma magoazinha, uma falhazinha. Ele tenta exercitar uma habilidade que, mesmo para ele, nunca é tão concreta quanto a do engenheiro; só se torna consciente da verdadeira natureza de sua habilidade quando começa a exercitá-la. É muito comum ocorrer de um homem, depois de anos de lutas e manipulações, chegar bem perto do posto que almeja, por vezes chegar a conquistá-lo, e então revelar-se um fracassado. Tais indivíduos não merecem piedade, pois, dentre os que aspiram ao poder, eles são homens completos; buscaram e conseguiram a auto-realização em outra área; foi necessária uma guerra mundial para salvar Churchill do fracasso na política. Já o verdadeiro político só exerce sua habilidade e se completa quando tem sucesso. De repente, seus talentos se manifestam. O homem que antes era mesquinho, descontrolado e inseguro agora revela qualidades insuspeitas: generosidade, moderação e a capacidade de agir com uma brutalidade rápida. Apenas o poder revela o político; é ingenuidade manifestar surpresa perante um fracasso inesperado ou um sucesso inesperado”.

Se não encontramos na escrita algo “além do transitório, do momentâneo”, se ali não houver uma “sintaxe” própria, se o autor falseia e escorrega para o rés-do-chão, transforma-se no prisioneiro do corriqueiro. O que não inventa, não surpreende – e para isso não são necessários muitos malabarismos! –, não retém, não serve ao leitor a ceia (seiva) da história que teria a contar.

Mas em Naipaul, ao contrário, o que une elementos únicos como se fossem a própria vida é resultado que nos convence e que nos retém como leitores, presos a uma teia de encantamento capaz de criar uma “conspiração afetiva”, mesmo quando não concordamos com o autor.

Forçoso dizer que todo livro tem seu propósito, quando bem realizado. Não me cabe dizer agora, nem tampouco o disse no calor da primeira leitura feita em 2016 que “mensagem” é esta que vem de “Os Mímicos”. Nem seja este, talvez, o caso.

Bastou-me manter os olhos bem abertos, “a mente atenta não apenas para se divertir, mas para aprender com o Outro”, como sugere o crítico e professor Rodrigo Gurgel. Mímicos praticam a arte da sematologia (do gr. “sema”, “semato” = sinal + “logos” = discurso). Ora, cabe ao leitor descobrir que espécie de movimentos corporais (que discurso) executa Ralph Singer que nos convenceria a crer neste discurso. Isso é da essência da boa literatura.

E se é certo que ao bom escritor “não basta imaginação”, a doida da casa, há de servir-nos, leitores exigentes, mais do que fazer que a leitura se torne um mero entretenimento e um passatempo. “Viver e escrever precisam transformar-se em uma coisa única.” Primeiro, isso ocorre com (e dentro) do escritor, mas não menos importante, secundariamente no (dentro do) leitor. Há, dessa forma, uma espécie de “uma conspiração afetiva entre escritor e leitor” (Gurgel). De “um sacerdote da imaginação”, recorda-nos o poeta e crítico americano Paul Mariani, espera-se sempre o respeito pelo altar do livro.

E assim Naipaul arremata o assunto: “O ato de escrever este livro é mais do que uma forma de me libertar daqueles artigos (feitos ao correr da pena, profundamente desonestos… que se esquivavam da verdade final até perdê-la); é uma tentativa de redescobrir aquela verdade final”.

E comigo, dileto leitor, essa “conspiração” aconteceu na leitura atenta, mas nem por isso, menos emocionada de “Os Mímicos”, de V.S. Naipaul, traduzido por Paulo Henriques Britto. Não creia que essas parcas notas sejam merecedoras do talento do homem que encerrou seus dias em Londres.

Deixo com meus seis leitores estas notas esparsas sobre um livro escrito com cuidado há mais de meio século e espero voltar a Naipaul em uma crônica mais alentada, tendo certeza, ao fim e ao cabo deste exercício, que é preferível isto a deixar passar em branco a morte de V. S. Naipaul, ocorrida em Londres, no dia 11 de agosto passado, às vésperas de o autor completar 86 anos.

Naipaul foi agraciado como Prêmio Nobel de Literatura de 2001, sob o seguinte argumento-síntese: “Por ter unido uma narrativa perceptiva e uma incorruptível busca, em trabalhos que nos impulsionam a vislumbrar a presença de histórias ocultas”. Pode ser descrito como: “Um circunavegador literário, que só se sente em casa em si mesmo, em sua inimitável voz”.

Adalberto de Queiroz, 63, é jornalista e poeta. Seu mais recente livro é “O Rio Incontornável” (Editora Mondrongo, 2017).

[i] NAIPAUL, V.S. “Os Mímicos”. Tradução Paulo Henriques Britto. Companhia das Letras, 1987, pág. 102. No original: “I have visions of Central Asian horsemen, among whom I am one, riding below a sky threatening to snow to the very end of an empty world”.

[ii] Cf. Nota i. – p. 310, trad. Paulo Henriques Britto. As opiniões da sra. Hardwick (grafada Harbwick pelo jornal!) estão acessíveis neste link do NY Times: https://www.nytimes.com/1979/05/13/archives/meeting-vs-naipaul-naipaul.html e o obituário do “The Guardian” neste: https://www.theguardian.com/books/2018/aug/12/vs-naipaul-obituary

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