Gosto da criatividade dos ditados populares, máximas e provérbios. Eles têm a virtude de dizer muito com poucas palavras e, portanto, estão dentro do objetivo da concisão, que é fazer cada palavra dizer mais com menos palavras. No lado oposto disso, está a prolixidade: vício de linguagem de usar muitas palavras para dizer pouca coisa ou nenhuma (neste último caso, a logorreia. Em se tratando de logorreia, há um ditado apropriado para se evitá-la: “Em boca fechada não entra mosquito”. O silêncio estratégico é um ato de sabedoria precioso. A boca fechada, além de não permitir a entrada de mosquitos, evita que a gente muitas vezes dê pérolas a porcos ou fale abobrinhas.

Tive uma vizinha que costumava entremear ditados populares nas suas conversas cotidianas. Um deles a gente vê muito por aí: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”. Seu significado remete a Mateus 23:27, na citação dos “sepulcros caiados”: belos por fora, mas cheios de podridão por dentro. Em tempos em que a estética vale mais que a essência, nunca fomos tão cercados por belas violas. Mas isso, vale reconhecer, não é novidade: vem de quando um pedaço de barro foi transformado em homem e a costela dele foi transformada em mulher. Não leve isso ao pé da letra, altaneiro leitor. Este cronista está apenas tirando um sarro.

O Barão de Itararé, pseudônimo de Apparício Torelly (1895 –1971), jornalista e mestre do humor político brasileiro, era talentoso em reinventar os ditados populares. Três deles me vêm à memória agora: “De onde menos se espera, daí é que não sai nada”, “Quem empresta, adeus.” e “Dize-me com quem andas e eu te direi se vou contigo”. Em 1934, o Barão de Itararé foi sequestrado por oficiais da Marinha, em retaliação por suas reportagens sobre a Revolta da Chibata. Deram-lhe uma surra homérica. Ainda bem que ficou só na surra. Muitas pessoas tiveram a vida ceifada por circunstâncias semelhantes no ofício jornalístico na história política do Brasil após o golpe militar de 1964, quando “todos os escrúpulos de consciência foram mandados às favas”, conforme palavras do coronel da reserva Jarbas Passarinho, então ministro do Trabalho e Previdência Social do Brasil no governo militar de Artur da Costa e Silva.

Apparício Torelly, o célebre Barão de Itararé, transformou o humor em instrumento de crítica e resistência política. Em 1934, sua irreverência lhe custou caro: foi sequestrado e espancado por militares da Marinha | Foto: Reprodução

O ditado do pão bolorento da minha ex-vizinha me lembra o soneto “Mal Secreto”, de Raimundo Correia (13/5/1859 –13/9/1911), especialmente seu último terceto: “Quanta gente que ri, talvez existe, / cuja ventura única consiste / em parecer aos outros venturosa!”. Seis séculos antes, o poeta, escritor e diplomata italiano Francesco Petrarca (1304 – 1374), refletindo sobre o abismo entre o que somos e aquilo que mostramos ser, escreveu: “Assim a alma esconde sob um véu enganoso as paixões contrárias que a perturbam; não raro está ela triste quando seu rosto irradia alegria…” Mas deixemos a leveza das aparências pra lá e voltemos ao ditado que deu origem a esta crônica.

Dias atrás, durante meu período de almoço, zanzava eu pelas ruas do Centro quando ouvi uma frase que, apesar de popular, não me pareceu lá muito sábia, mas que me foi útil, pois forneceu o assunto desta crônica e até o título. Espero que você, altaneiro leitor, não se importe com a minha obscena licença poética.
Saí do restaurante e parei numa lanchonete para comprar uma garrafa de água. Conheço o casal que é dono estabelecimento. Naquele momento, os dois conversavam com um homem que me pareceu ser conhecido deles. Sentei-me num banco, bebi minha água e, involuntariamente, acabei assuntando a conversa.

Pelo que entendi, o homem estava com enfermidade de amor. A mulher que amava, pelo que ouvi, não padecia do mesmo mal, pelo contrário: estava saradona… Ela o mandou ir à esquina procurá-la e picou a mula com outro. Seu semblante jururu denunciava a paixão pela ingrata. O homem precisava de consolo. Mais precisamente de alguma esperança de que sua amada pudesse voltar para seus braços. Foi então que a mulher da lanchonete, talvez querendo apenas animá-lo, saiu com um ditado: “O que é do homem o bicho não come”.

Tive a impressão de que ele recebeu aquelas palavras como uma verdade definitiva. Certamente foi embora mais leve, com o coração menos amargurado e a esperança dando sinal de luz no fim do túnel. Quando o homem desapareceu rua afora, o dono da lanchonete olhou para mim e lançou uma sentença sarcástica: “O que é do homem… o bicho que come é outro homem”. Não tive como não rir do humor picante. Sua mulher também riu, mas discretamente.

A dor de amor do homem me fez lembrar da crônica “O amor e outros males”, de Rubem Braga. Ao comparar a dor da bursite à dor do amor, Braga observa que, embora a primeira seja bruta e persistente, a segunda guarda momentos de doçura e sonho. Ainda assim, conclui: que venha outra bursite, mas nunca mais um amor específico que teve.

Tomara que o homem possa voltar ao calor dos seios da mulher amada e que, não voltando, não aja como bicho violento como tem ocorrido com frequência por aí (leia-se feminicídios), mas que saiba respeitar o direito de a mulher não o querer mais.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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