Cláudio Ribeiro
Cláudio Ribeiro

Para “intelligentsia coitadista”, a opção preferencial pela riqueza é ultrajante

Documento da Fundação Perseu Abramo sobre “percepções e valores políticos” nas periferias da cidade de São Paulo revela o incômodo dos pesquisadores com as inclinações “liberais” dos entrevistados

Foto: Reprodução

O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é o intelectual.
— Joãozinho Trinta

 

José Guilherme Merquior (1941-1991), autor da análise mais panorâmica e criteriosa a respeito do liberalismo, “O Liberalismo – Antigo e Moderno” (É Realizações, 384 páginas, tradução de Henrique Araújo Lima), vivo fosse, certamente ficaria curiosíssimo com a definição “liberalismo particular das classes populares” ou, sinteticamente: “liberalismo popular”. A definição aparece no documento “Percepções e Valores Políticos nas Periferias de São Paulo”, produto de uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, divulgado no início de abril.

A princípio, por “liberalismo popular”, o leitor poderia imaginar algo como a apresentadora Regina Casé explicando “A Fábula das Abelhas”, de Bernard Mandeville (1670-1733), ou a “Teoria dos Sentimentos Morais”, de Adam Smith (1723-1790), no programa “Esquenta” da TV Globo. Antes fosse, mas não é nada disso.

Como é sabido, a Fundação Perseu Abramo está ligada ao Partido dos Trabalhadores (PT), e a pesquisa que veio a lume teve como propósito imediato rastrear as razões pelas quais o PT perdeu progressivamente a adesão das “classes populares”, como as que habitam as periferias de São Paulo – locais em que o então prefeito petista e candidato à reeleição, Fernando Haddad, foi fragorosamente derrotado em 2016. Os resultados da pesquisa, no entanto, apontaram para fenômenos incômodos à intelligentsia de esquerda, em geral, e à petista, em especial.

As pessoas entrevistadas mostraram inclinação ao empreendedorismo e aos demais “ethos” da economia de mercado (o que implica uma maior consciência do papel do indivíduo nas relações sociais e econômicas, e menos o das “classes”), bem como criticaram a obsolescência e ineficácia do Estado. O incômodo daqueles que produziram o documento fica perceptível em trechos como o que segue: “No imaginário da população não há luta de classes; o ‘inimigo’ é, em grande medida, o próprio Estado ineficaz e incompetente, abre-se (sic) espaço para o ‘liberalismo popular’ com demanda de menos Estado.” Fica a dúvida se há nestas linhas a necessidade premente de quadros revolucionários ou a advocacia do Estado patrimonialista, ou ambas as coisas. Em todo caso, a anulação da autonomia, criatividade e poder de ação dos indivíduos em prol de uma estrutura coletivista (a imagem do Leviatã, já gasta, ainda é a melhor) seria o resultado.

Nesse sentido, a cunhagem do termo “liberalismo popular” é mais um ardil desta intelligentsia para desqualificar tal postura do homem comum da periferia de São Paulo (que certamente também vigora em outras regiões do país) e menos uma tentativa realmente séria de abstrair conceitualmente um fenômeno social.

Pela culatra…

O arquivo da pesquisa, estruturado em tópicos com argumentação má desenvolvida, escrita pobre, imagens pejorativas e ideologicamente orientadas (o que já foi apontado pelo economista Joel Pinheiro da Fonseca no artigo “Liberalismo Popular Brasileiro”, publicado no jornal “Folha de São Paulo”), está dividido em quatro Eixos Temá­ticos principais: “Consumo e Empreende­doris­mo”, “Família, Escola e Territó­rio”, “Religião e Limites do Estado Laico” e, por fim, “Percepções Político-Insti­tucionais”. Em cada um deles, há análises de entrevistas e sínteses conclusivas que procuram reduzir as visões de mundo e as perspectivas de ação dos entrevistados a uma caricatura do liberalismo, ou da “visão liberal”. Por exemplo, na página 34, quando são analisadas as respostas referentes à família, há uma placa de alerta (com ponto de exclamação) à frente do seguinte texto, que no documento está escrito em caixa-alta: “Fa­mília/ Visão Liberal: a crise ética da sociedade não é um problema estrutural, mas de ordem individual que se resolverá pela educação no âmbito privado (familiar).” Parece aos elaboradores do documento ser este um fenômeno que, se se estabelecer, de fato, será difícil de ser suplantado.

O texto da “Hipótese Inicial”, por sua vez, bem que poderia ter o subtítulo: “Confissões de um tiro que saiu pela culatra.” Exagero? Vejamos: “1) Durante as gestões Lula e Dilma, a ampliação dos mercados de trabalho e consumo, combinada à distribuição de renda e à mobilidade social, criaram novas dinâmicas socioeconômicas na periferia de São Paulo; 2) No momento de expansão e avanço do ciclo econômico novos valores em relação aos costumes e à política foram gestados entre as camadas populares, que passaram a se identificar mais com a ideologia liberal que sobrevaloriza o mercado; 3) No momento de descenso e retração do ciclo econômico essa camada da população passou a reagir informada por horizontes menos associativistas e comunitaristas e mais por diretrizes marcadas pelo individualismo e pela lógica da competição, com uma tônica acentuada do mérito nos discursos; 4) Neste cenário, as Igrejas neopetencostais parecem ganhar espaço.”

O próprio documento acaba revelando o óbvio em termos de economia. E não é necessário conhecer nenhuma ramificação do liberalismo (seja clássico ou moderno) para intuí-lo. Os homens e mulheres comuns, que pouco se importam com “consciência de classe” ou teoria monetária sabem-no por vias microeconômicas. Medidas tomadas pelos governos petistas, como o estímulo do consumo, oferta de crédito etc. contrariam uma regra básica: a da Lei da Escassez. A contingência, o sofrimento e a miséria é que são a regra, a exceção é produzir riqueza, obter conforto e preparar-se para as adversidades por meio do trabalho e do esforço pessoal. A “farra do Estado paternalista provedor” sempre acaba um dia. E é ante ao seu crepúsculo que a consciência de indivíduos livres (enquanto agentes socioeconômicos) torna-se explícita.

“Coitadismo” na mira

O jornalista e publicitário Emil Farhat, em seu livro “O País dos Coitadinhos” (Companhia Editora Nacional, 465 páginas, 1966), já abria fogo contra a lepra do “coitadismo” que grassa no Brasil há muito, sobretudo entre aqueles que se veem na condição de “cuidar” do destino das “classes populares”, isto é, a intelligentsia. Dizia Farhat que: “É preciso ainda alertar certos ingênuos idealistas, admiravelmente ciosos da sua e da liberdade alheias, mas cuja experiência de vida foi quase toda haurida entre as quatro paredes de um gabinete, que quanto mais o cidadão chama o Estado para o proteger, mais o Estado sub-repticiamente o domina; mais o Estado restringe sua liberdade de iniciativa, de criação, de ação, de realização e até de movimentos.”

Alinhada à investida de Farhat contra os defensores do “Deus-Governo”, ponho eu a sentença do diplomata e grande intelectual José Oswaldo de Meira Penna, presente em seu livro “Opção Preferencial Pela Riqueza” (Instituto Liberal, 237 páginas, 1991), que vai ao encontra da jocosa frase do carnavalesco Joãozinho Trinta retratada na epígrafe deste texto: “O objetivo econômico do pobre é ‘ganhar dinheiro’ para adquirir o sustento de que carece: sua opção é sempre pela riqueza e não pela miséria.” É claro que “ganhar dinheiro” quer dizer, sobretudo, contornar a Lei da Escassez, mas para que este objetivo econômico do pobre seja cumprido é necessário que ele tenha liberdade e condições para cumpri-lo.

Aqui alcançamos um terreno absolutamente “ultrajante” para a “intelligentsia coitadista”: o da competição, o do conflito de interesses, o do mérito, o da “simpatia” (no sentido smithiano da palavra) pelos “ricos”, o da admiração pelas pessoas bem sucedidas. Um dos parágrafos da conclusão da pesquisa dispara o seguinte: “Em muitos casos, a visão de mundo é formada se espelhando não entre aqueles que pertencem ao mesmo grupo, mas entre aqueles que pertencem ao grupo onde (sic) esses indivíduos almejam chegar, é (sic) fundamental observar os desejos e as expectativas futuras dessas pessoas.” As “classes populares”, ao aspirarem à ascensão social e se inspirarem em modelos das “classes dominantes” como que cospem no rosto daqueles que “planejam” a sua libertação, por vias ideológico/revolucionárias/ ou provedoras/estatais.

Antes, entretanto, este tipo de ultraje do que a persistência do coitadismo.

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