Cláudio Ribeiro
Cláudio Ribeiro

Dilema vivido pela Europa está entre a “ordem da cidade” e a “ordem da tribo”

Para que a Europa continue a ser, apesar dos problemas recorrentes, um modelo de “mundo civilizado”, é necessário que tenha em vista a preservação da “ordem da cidade”

Os britânicos Roger Scruton (filósofo) e Tony Judt (historiador) nos ajudam a pensar o futuro da Europa | Foto: Divulgação

O historiador britânico Tony Judt, morto em 2010, no último capítulo de seu monumental livro publicado em 2007, “Pós-Guer­ra: Uma História da Europa Desde 1945” (Objetiva, 847 páginas, tradução de José Roberto O’Shea), procurou esboçar algumas reflexões sobre o futuro da Europa. Ocorre que, para Judt, pensar a Europa implicava levar em conta um dilema fundamental, que é, hoje mais do que nunca, de vital importância: “qual é o futuro dos Estados europeus? Teriam eles futuro?”, indaga o historiador. Judt coloca estas questões tendo em vista, sobretudo, dois fenômenos: 1) Um grande problema que a União Eu­ropeia (UE) não conseguiu en­frentar, a saber: a crônica falta de interesse demonstrada pelos europeus por ela, isto é, por uma estrutura burocrática supranacional; 2) A incapacidade, tanto dos Estados europeus quanto da UE, de efetivamente integrar, incorporar, dentro da estrutura da sociedade civil, o grande fluxo de imigrantes de outras regiões, principalmente do Norte africano e do Oriente Médio.

Mas por que “o futuro dos Estados europeus” é, nesse contexto, crucial? Porque, segundo Judt – e junto a ele trarei à baila outro britânico, o filósofo Roger Scruton –, o modelo civilizacional que a Europa Ocidental desenvolveu desde a Idade Mé­dia, ainda é o único “modelo útil a ser universalmente copiado”. E isto, insiste o historiador, “apesar dos horrores do passado recente – e, em grande medida, por causa desses horrores.” Após as duas guerras mundiais, os Es­tados Europeus conseguiram se reestruturar e se encontrar em condições de “oferecer ao mun­do alguns conselhos sobre como evitar a repetição dos erros por eles próprios cometidos.”

Nesse sentido, o legado civilizacional da Europa não pode novamente sucumbir em nacionalismos fratricidas, encabeçados por populismos inflamados, ou em globalismo aniquilador das identidades nacionais (que têm a ver mais com civilidade e valores territoriais do que com nacionalismo), como advogam muitos daqueles que depositam suas fichas na UE.

Os motivos principais do desinteresse dos cidadãos dos Estados europeus pela UE, diga-se de passagem, se dá pelo fato de que não se sentem capazes de influenciar assuntos pautados por ela. Como acentua Judt, a maioria dos governos europeus “não fez plebiscito para saber se deveria ingressar na UE ou na zona do euro”. E aqueles que fizeram “obtiveram rejeição ou aprovação com margem mínima.” A UE parece, diz Judt, “ficar à margem dos instrumentos usuais da democracia.” Em reação a isso, um fenômeno bastante razoável, como Brexit, ocorreu recentemente. Mas, também por isso, há a opção, nem um pouco razoável, e a cada dia mais crescente, de muitos destes cidadãos desconfiados do modus operandi da UE por discursos nacionalistas, xenófobos e anti-imigração (como é caso da Hungria sob Viktor Orbán, para ficarmos só neste exemplo).

Eis então o problema: os Es­ta­dos europeus se descaracterizam e a população passa a buscar outros caminhos. Um deles, lamentavelmente, é depositar as suas fichas nos líderes que encarnam o “nós” em seu “eu coletivo”, preterindo as instituições tradicionais – enfraquecidas pela submissão, seja ao globalismo, encarnado nos burocratas de Bruxelas, seja ao vórtice espiritual avassalador do Islã que, sob a retórica de um Sayyid Qtub (principal ideólogo da Irmandade Muçul­ma­na), insufla em muçulmanos de todo o mundo, imigrados ou não, o ódio homicida ao Ocidente e a imple­men­tação unilateral da sharīʿah (Lei islâmica).

Entre a “tribo” e a “cidade”
Contra esse estado de coisas, podemos pensar nas advertências que o filósofo Roger Scruton nos apresenta em sua obra “As Van­tagens do Pessimismo: os Perigos da Falsa Esperança” (É Realizações, 208 páginas. Tradução de Fábio Faria). Nos doze capítulos deste livro, Scruton esgrime contra as falácias do “otimismo inescrupuloso”, que no mundo moderno alimentou todo tipo de aposta em “soluções finais” para os problemas da humanidade, a fim de torná-la perfeita, retificada. Já próximo ao fim do volume, num capítulo intitulado “Nosso Passado Tribal”, Scruton elabora uma descrição dos principais elementos definidores de uma hipotética comunidade humana primitiva que, segundo ele, apresenta contornos de verdade e nos leva a uma conclusão um tanto quanto deprimente, qual seja: as falácias das quais ele trata em todo o seu livro, “subjacentes às loucuras de nossa era, não são novas adições ao repertório da loucura humana, e sim resíduos das tentativas honestas de nossos antepassados de fazer as coisas direito”. Para Scruton, sempre que o futuro nos apresenta exigências, esses “resíduos primitivos tribais” retornam.

Esse comportamento primitivo seria, diz o pensador britânico, algo como “o outro lado de um tipo de desespero existencial, uma vontade de se retirar das complexidades da grande sociedade e se transferir para a simplicidade primordial da tribo não diferenciada.” Para Scruton, na ordem da tribo “não há segurança ou lazer que permita às instituições e às leis surgirem como resíduos dos acordos humanos. As decisões tomadas com relação à tribo são feitas pelo chefe, cujo ‘eu’ é também o ‘nós’ da comunidade.” Nesse sentido, a tribo “agirá como um único ‘eu’ coletivo, buscando acima de tudo território, preocupada constantemente em aumentar seu espaço e limitar o de seus rivais.” É dispensável dizer os perigos que esta busca por “espaço vital” implica.

Continua Scruton, dizendo que “de forma alguma a tribo é livre, como nós; graças aos costumes e às instituições, somos livres; ela ainda não terá a habilidade de iniciar negociações com seus rivais, ou de encerrar disputas por meio do direito e dos tratados.” O “nós” a que Scruton se refere é – ao contrário do “nós” da tribo, subjugado ao “eu coletivo” do líder – o “nós” da “ordem da cidade”. É a “ordem da cidade” que permite a liberdade e a convivência na pluralidade, a dúvida e o consenso, a ironia e o perdão. Como diz o filósofo, é nessa ordem que “a lei descoberta substitui comandos revelados, a negociação substitui a dominação, e a livre troca substitui a distribuição centralizada de acordo com o plano governante. É uma ordem que combina liberdade individual com uma primeira pessoa do plural genuína.” E, apesar de ser vulnerável ao retorno dos “resíduos primitivos”, ela tem a “habilidade de se manter, através das instituições e dos costumes de uma comunidade livre.”

O embate que o Islã, sobretudo a Irmandade Muçulmana, põe-se a travar com o Ocidente deve-se justamente ao fato de que a ordem da cidade é a ordem da sociedade civil, que não está aferrada a estrutura de clãs ou de famílias, tampouco submetida a uma estrutura teocrática, como a sharīʿah. É uma ordem que foi assentada sobre fundações cautelosas, e “sobre essas fundações cautelosas, foi construído o conceito moderno de cidadania, de acordo com o qual a lei é tornada legítima pelo consentimento daqueles que precisam obedecê-la”, que implica, remata Scruton, “em direito e dever de participação”. Mas o que milhões de imigrantes muçulmanos estão buscando pelo mundo a fora?, pergunta Scruton. Ao que segue a resposta: “uma ordem que confira segurança e liberdade em troca de consenso – uma ordem não de submissão, mas de assentamento”. Ocorre que a visão do ideólogo radical Sayyid Qutb, que contamina muitos desses imigrantes, ataca, diz Scruton, “a sociedade civil bem no seu âmago, uma vez que ela nega a base da ordem civil no assentamento, torna o território insignificante e constrói o direito como um comando de cima para baixo, oriundo de uma única fonte de autoridade: o onipresente ‘eu’ que é o ‘eu’ de Deus. Ele vai de mãos dadas com um recolhimento da sociedade civil e da ordem do consenso livre rumo aos laços imperativos da tribo. Daí a advocacia da irmandade (Ikhwan) como a verdadeira alternativa à nacionalidade e ao Estado-Nação.”

E aqui voltamos ao dilema colocado por Tony Judt: terão futuro os Estados europeus? Serão eles capazes de driblar o primitivismo da “ordem da tribo”, seja ela de feição nacional-populista ou entregue à penetração da Lei islâmica, via ideologia teocrática da Irmandade Muçul­mana? Estas perguntas são mais importantes do que aquelas destinadas a especulações de conjuntura política. l

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