Cláudio Ribeiro
Cláudio Ribeiro

Bauman, a modernidade e a metáfora da liquidez

Para bem ou para mal, a vulgarização em torno da metáfora batida é uma realidade que acompanhará o nome do sociólogo ainda por longos anos

Foto: Carlos Rosillo

Nascido em Poznán, na Polônia, aos 19 dias de janeiro de 1925, Bauman teve o início de sua formação intelectual marcado pelo pensamento marxista e pela ambiência política stalinista. O avanço das tropas alemãs sobre a Polônia, em setembro de 1939, forçou sua família a fugir para a Rússia soviética, de onde só saiu após o término da guerra. Integrado ao exército polonês e ao Partido Comunista, Bauman voltou à terra natal em 1945 e seu destino foi a Universidade de Varsóvia, onde lecionou por mais de 20 anos. Nesta fase, o intelectual passou de marxista ortodoxo a marxista revisionista, como muitos que o fizeram, na mesma época.

Vale ressaltar que Bauman também foi, de 1945 a 1953, membo do KBW, Korpus Bezpieczeństwa Wewnętrznego (Corpo de Segurança Interna), o serviço secreto polonês, que atuava sob o jugo da URSS stalinista. Um professor da Universidade de Winchester, chamado Shaun Best, tem um livro bastante polêmico sobre a vida pública e intelectual de Bauman, “Zygmunt Bauman: Why Good People Do Bad Things” (Routledge – Taylor and Francis Group, 2013. 158 páginas), no qual dá destaque à atuação de Bauman como agente de propaganda do stalinismo, bem como partícipe de ações de identificação e delação de pessoas consideradas “traidoras” do regime soviético. Este ponto, polêmico por definição, certamente será debatido nos próximos anos por biógrafos do sociólogo.

O fato é que Bauman só passou a ter evidência no debate sociológico quando deu início às investigações sobre a “modernidade”, a partir de meados do anos 1970, momento em que já havia se radicado em Leeds. Sua ida para a ilha britânica deu-se após a estada em Israel, entre 1968 e 1971, quando teve de abandonar novamente a Polônia, desta vez devido às perseguições antissemitas empre­endidas pelo general Moczar. Em Leeds, começou a delinear o que viria a ser chamado de “sociologia humanística”, traço também observado na obra de autores como Peter Berger.

Bauman, Berger e outros, ao contrário de seguirem o caminho por vezes truncado e áspero da sociologia tradicional, com análises duras de dados estatísticos, elaboração de modelos teóricos maçantes etc., procuraram construir suas teorias flertando com outras linguagens capazes de apreender a experiência humana, como a linguagem literária. Nesse sentido, é interessante em Bauman a análise do fenômeno do “desenraizamento”, isto é, da falta de pertencimento do sujeito moderno a determinada tradição ou grupo identitário, tomando como ponto de partida as obras de prosadores como Franz Kafka e Robert Musil, e articulando-as com a leitura de filósofos e sociólogos já clássicos, como Max Weber, Hannah Arendt, Nietzsche, Kant, Norbert Elias, Alasdair MacIntyre, e Jean-François Lyotard.

Três de suas obras mais densas, “Modernidade e Ambivalência”, “Modernidade e Holocausto” e “Ética Pós-Moderna”, procuram pôr a lume o lado obscuro do “projeto moderno”, ou da “modernidade sólida”: aquela caracterizada pela utopia da racionalidade, pela “fé na razão”, pela confiança na eficiência de um estado burocrático e onipresente, e pelo entusiasmo devotado ao desenvolvimento tecnológico e à ciência moderna. Para Bauman, os vários nacionalismos e imperialismos, bem como o fenômeno do totalitarismo, são filhos desse projeto moderno. Seus efeitos colaterais, como as duas guerras mundiais, o holocausto, armas de destruição em massa, engenharia social e genética etc., seriam também, por assim dizer, moderníssimos.

Por sempre buscar a transformação, a eficiência e o aperfeiçoamento, o sujeito moderno é sempre, na esteira da compreensão de Bauman, um inquieto, um ser em contínuo deslocamento, insaciável. Isto porque a modernidade traz consigo a consciência de poder mudar a estrutura da realidade e o curso da história. Nesse sentido, é recomendável a leitura de Bauman em consonância com a de ao menos dois outros estudiosos que tiveram por mira os problemas da modernidade: Hans Jonas, autor de “Princípio Responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica”, e Reinhart Koselleck, autor de “Futuro Passado: contribuição à semântica dos tempos históricos”. Destaco aqui um trecho de “Modernidade e Ambiva­lência”, publicado pela Editora Zahar (1999), com tradução de Marcus Penchel, em que há a definição mais incisiva de Bauman para “modernidade”, o que ilustrará bem esse status de incompletude e inquietude, apontado acima:

“A modernidade é o que é — uma obsessiva marcha adiante — não porque sempre queira mais, mas porque nunca consegue o bastante; não porque se torne mais ambiciosa e aventureira, mas porque suas aventuras são mais amargas e suas ambições frustradas. A marcha deve seguir adiante porque qualquer ponto de chegada não passa de uma estação temporária. Nenhum lugar é privilegiado, nenhum melhor do que outro, como também a partir de nenhum lugar o horizonte é mais próximo do que de qualquer outro. É por isso que a agitação e a perturbação são vividas como uma marcha em frente; é por isso, com efeito, que o movimento browniano parece adquirir verso e reverso e a inquietude uma direção: trata-se de resíduos de combustíveis queimados e fuligem de chamas extintas que marcam as trajetórias do progresso”.

Bauman tornou-se um fenômeno editorial na virada dos anos 1990 para os anos 2000, quando passou a utilizar a metáfora da liquidez para definir a época em que vivemos. Isto é, um estilhaçamento da “modernidade sólida”, uma época na qual as experiências e relações são marcadas pela efemeridade, pelo caráter fluido e dispersivo, como um fluxo de água, sem pretensão de solidez, ou de “enraizamento” — que não assume forma alguma por si mesma. Uma época que leva também o epíteto (explorado pelo próprio Bauman, inicialmente) de “pós-modernidade”.

Essa metáfora da liquidez é encontrada em obras como “Modernidade líquida” (2000), “Amor líquido” (2003), “Vida líquida” (2005), “Medo líquido” (2006) e “Tempos líquidos” (2006) — todos publicados no Brasil pela Editora Zahar; foi tal metáfora que popularizou (ou vulgarizou) Bauman, levando-o ao alcance dos vários públicos de leitores, do acadêmico àquele que consome títulos de autoajuda. Para bem ou para mal, tal popularização é uma realidade que acompanhará o nome do sociólogo ainda por longos anos.

Cláudio Ribeiro é mestre em História pela UFG

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