Escrever pela primeira vez nesta coluna de cinema do Jornal Opção me fez pensar sobre qual obra mereceria inaugurar este espaço. Poderia escolher um blockbuster recente, um clássico de Hollywood ou um filme que estivesse dominando as discussões nas redes sociais. Mas decidi começar por um longa que considero uma das experiências mais devastadoras e necessárias que o cinema já produziu: ‘Vá e Veja’.

Dirigido por Elem Klimov e lançado em 1985, o filme não é apenas uma narrativa sobre a guerra. É um manifesto antiguerra, uma denúncia contra a violência organizada e uma lembrança permanente de que os maiores conflitos da humanidade são travados, acima de tudo, contra pessoas comuns.

Ambientado durante a ocupação nazista da então Bielorrússia, o longa acompanha o adolescente Florya, interpretado por Aleksei Kravchenko. Como tantos jovens, ele enxerga no combate uma oportunidade de heroísmo e aventura. A ilusão dura pouco. Conforme a história avança, o espectador testemunha o desaparecimento gradual de sua inocência, substituída por um trauma impossível de ser revertido.

Essa transformação é o coração do filme. Klimov não romantiza soldados, batalhas ou atos de bravura. Pelo contrário: desmonta qualquer ideia de glória militar ao mostrar que a guerra corrói tudo o que encontra pela frente: famílias, comunidades, memórias e até mesmo a capacidade de sentir esperança.

Talvez por isso ‘Vá e Veja’ seja frequentemente lembrado como um dos filmes mais contundentes já feitos sobre a Segunda Guerra Mundial. Enquanto muitas produções buscam equilibrar horror e entretenimento, aqui não existe espaço para o espetáculo. O diretor rejeita a estética heroica e conduz a câmera para o sofrimento humano, obrigando o público a encarar o custo real da violência.

Essa abordagem torna o filme profundamente antiguerra. Não há discursos grandiosos nem mensagens panfletárias. A própria experiência de assistir à degradação física e psicológica do protagonista funciona como argumento suficiente contra qualquer romantização dos conflitos armados. O horror não está apenas nas mortes ou na destruição material, mas na maneira como a guerra transforma pessoas em sobreviventes marcados para sempre.

Visualmente, o longa impressiona pelo realismo quase documental. Os enquadramentos fechados no rosto de Florya criam uma intimidade desconfortável, permitindo que o espectador acompanhe cada mudança em sua expressão ao longo da narrativa. Aos poucos, aquele garoto curioso desaparece diante da câmera, dando lugar a alguém envelhecido pelo trauma muito antes do tempo.

Outro elemento marcante é o desenho de som. Explosões, zumbidos e silêncios prolongados reproduzem a desorientação do protagonista, aproximando o público de seu estado psicológico. Em diversos momentos, parece que o filme abandona a lógica tradicional da narrativa para mergulhar diretamente na percepção fragmentada de quem vive um pesadelo contínuo.

Há quem questione se uma obra tão pesada pode ser recomendada. A resposta depende do que se espera do cinema. ‘Vá e Veja’ certamente não é um filme confortável, nem pretende ser. Sua função não é divertir ou oferecer catarse, mas confrontar o espectador com uma realidade histórica que muitas vezes é reduzida a estatísticas ou capítulos de livros.

Justamente por isso, considero que seu valor ultrapassa o aspecto artístico. Em tempos nos quais conflitos armados voltam a ocupar manchetes e discursos nacionalistas reaparecem em diferentes partes do mundo, revisitar uma obra como essa significa lembrar que guerras não são mapas sendo redesenhados nem estratégias militares em abstração. São vidas interrompidas, crianças traumatizadas e comunidades inteiras destruídas.

Também chama atenção a confiança que Klimov deposita na inteligência do público. O filme evita explicações excessivas e não constrói vilões caricatos ou heróis infalíveis. Em vez disso, apresenta uma espiral de violência que parece consumir qualquer possibilidade de humanidade. O resultado é uma experiência emocionalmente exaustiva, mas artisticamente extraordinária.

Para inaugurar minha participação nesta coluna, quis falar justamente de um filme que representa o que mais admiro na arte cinematográfica: a capacidade de provocar reflexão muito depois que os créditos sobem. ‘Vá e Veja’ é uma obra que recusa o escapismo e insiste em mostrar aquilo que muitas sociedades prefeririam esquecer.

Não é um filme fácil. Não é um filme para todos os momentos. Mas talvez seja um dos mais importantes já feitos. Em um século que ainda convive com guerras, deslocamentos forçados e violência contra civis, sua mensagem permanece dolorosamente atual: não existe glória no conflito quando o preço é a perda da própria humanidade.

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