“Bella Ciao”: uma introdução à hermenêutica da dor

“E quest`é il fiore del partigiano, morto per la libertá! (e esta é a flor do resistente, morto pela liberdade!)”

A peça folclórica “Bella Ciao” foi recentemente levada ao mundo do entretenimento pop através da série espanhola “La Casa de Papel”| Foto: Reprodução/Netflix

“E quest`é il fiore del partigiano, morto per la libertá! (e esta é a flor do resistente, morto pela liberdade!)” Esse é o verso final de “Bella Ciao”, canção popular originalmente surgida entre a massa trabalhadora italiana e que celebrizou-se como hino da resistência “partisan” contra o fascismo de Benito Mussolini e a ocupação nazista na Itália durante a Segunda Guerra. Tal peça folclórica foi recentemente levada ao mundo do entretenimento pop através da série espanhola “La Casa de Papel”, na qual uma enigmática figura autointitulada Professor arregimenta famosos assaltantes para o maior golpe da história: invadir “la Fábrica Nacional de Moneda y Timbre” e imprimir o próprio dinheiro, bilhões de euros.

Curioso é que, mesmo com um prospecto tão lucrativo para o golpe, o Professor se considera idealista, um “resistente”. Daí sua ordem-chave para os arregimentados: “É fundamental termos a opinião pública do nosso lado. No momento em que derramarmos uma gota de sangue, deixaremos de ser os Robin Hoods para virarmos simplesmente os filhos da puta”. Há uma ideia romântica por trás do plano, tapear o sistema, não as pessoas. Imprimindo sua grana, os “Dalís” não estariam, na prática, roubando de ninguém. Por esse espírito, então, ninguém poderia também sair ferido.

E no decorrer dos episódios, a opinião pública realmente parece simpatizar com os assaltantes. Por que alguns crimes geram revolta e outros não, sendo considerados até mesmo atos de contestação? Se lembrarmos, a propósito, das ordens jurídicas fascista e nazista, eram formalmente válidas, mas não deixavam de ser estruturações dogmáticas para a violência contra diversas minorias, e, sendo assim, a reação destas estava tipificada como condutas criminosas. Revoltar-se contra a tirania do Estado sobre si não parece ser o mesmo que sair à rua e violentar concidadãos por cólera ou cobiça.

Antígona foi condenada como criminosa ao enterrar Polinices, contrariando a ordem de Creonte, rei de Tebas. A filha de Édipo julgava ser contra as leis divinas deixar seu irmão de sangue sem rituais funerários dignos, insepulto, comido pelas aves de rapina. Na Revolução Francesa, a retórica jusnaturalista é utilizada contra a ordem positiva do “Ancien Régime” de Luís XVI. Mesmo a criticada 2ª emenda à Constituição dos EUA, que garante o porte de armas, tem como base filosófica não o combate ao crime comum, mas o direito popular de resistir à opressão, seja estrangeira ou do próprio Estado natal.

Na criminologia crítica, um conceito conhecido por “violência estrutural” aponta circunstâncias nas quais comportamentos desviantes seriam reações contra condições injustas de privação, a exemplo do furto famélico, expressão extrema dessa linha interpretativa. O pai do Professor morreu baleado pela polícia na porta de um banco. Planejava e executava assaltos a fim de custear um caro tratamento, nos Estados Unidos, para o filho enfermo, que não recebera qualquer assistência do governo espanhol. Foi do pai que o Professor, Sérgio Marquina, aprendeu os versos de “Bella Ciao”.

A origem da canção na família remonta ao avô de Sérgio, que lutou na resistência “partisan” contra os fascistas de Mussolini. Mas até que ponto violar as leis formais de um governo pode ser legítimo? Em episódios de desobediência civil como os celebrizados por Mahatma Gandhi e Martin Luther King Jr. haviam conteúdos éticos claros: resistência à opressão estrangeira num caso e luta contra a segregação racial no outro. Nem sempre, entretanto, o paradigma moral alegado para o rompimento da norma é tão intuitivamente identificável ou compartilhado, prevalecendo aí sua criminalização.

Perante a Inspetora Raquel Murillo, o Professor justificou que o grupo de assaltantes não fazia nada diferente do Banco Central Europeu, que, nos anos anteriores, imprimira, do nada, bilhões de euros, transportando-os diretamente da “Fábrica de Moneda” para os cofres dos mais ricos, os banqueiros. “Injeção de liquidez”, ironizou, em referência ao termo oficial utilizado para as operações. “Alguém chamou o Banco Central de ladrão?” Situação similar ocorreu durante a bolha imobiliária de 2008, quando Casa Branca usou o dinheiro dos contribuintes para, numa espécie de “buyout”, salvar agências de crédito.

A justiça poética do golpe para Marquina estava em trapacear a ordem de coisas que deixara seu pai à míngua e, protegendo os mais fortes, abatera este a balas. “Faremos isso por ele”, disse Berlim, irmão mais velho de Sérgio. É evidente que nossas sociedades sempre estiveram repletas de injustiça, mesquinharia, concentração de poder. Nem por isso a legitimidade das reações é assunto fácil. Se um jovem rouba, cogita-se pobreza e falta de oportunidade incendiadas no combustível da cultura de consumo; mas e se a vítima for uma senhora, igualmente miserável, tomando o coletivo na volta do serviço?

Capitaneados por Alessandro Baratta, gerações de criminólogos críticos veem nos códigos penais não consensos sociais sobre a reprovabilidade de comportamentos, e sim domínio de classes sobre outras. Ocorre que, mesmo se aceitarmos tal premissa, os crimes usualmente previstos nos códigos são inservíveis como protesto, pois raramente atingem estratos dominantes. Quem de fato sofre com assalto, o banqueiro no helicóptero ou a senhora no ônibus lotado? Essa percepção teve o Professor ao ordenar, conforme dito acima, que ninguém saísse ferido além do orgulho calculista do sistema.

No entanto, ainda que nenhum inocente concretamente se prejudicasse ou ferisse, poder-se-ia perguntar: o que dá aos “Dalís” o direito de, sob a irresistível persuasão de metralhadoras e M16s, forçarem entrada na Casa da Moeda, fazerem reféns e, a picaretas, cavarem até o hangar uma saída não disponível a ninguém afora eles mesmos? Não é arrogar-se um privilégio? Se utilizado o método do imperativo categórico kantiano, conclui-se pela insustentabilidade da ação caso estendida a todos: os povos jamais conseguiriam aumentar sua riqueza saqueando ou imprimindo cédulas.

Do mesmo modo, manifestantes atirando pedras na fachada de um banco alcançam certa dimensão simbólica de protesto, mas talvez nem os próprios atiradores acreditem na utilidade de todas as pessoas por ventura quebrarem todas as fachadas de agências bancárias. O que isso efetivamente mudaria? E se alguém se ferisse, valeria a pena? A esta altura, identifica-se duas condições necessárias à verdadeira desobediência: em primeiro lugar, legitimidade; em segundo, estratégia. Tivesse Antígona protestado contra Creonte antes de enterrar o irmão, as aves de rapina é que cantariam “Bella Ciao”!

Em fevereiro de 2014, na capital carioca, o cinegrafista Santiago Andrade morreu após ser atingido, na cabeça, por um rojão disparado durante ato contra o aumento da passagem de ônibus. A pauta talvez fosse justa, mas era justificável sacrificar uma vida por ação-meio isolada, sem pertinência estratégica com a reivindicação em si? “Essa morte só serve pra criminalizar os protestos”, ouvi na época. Entendi a preocupação, mas não teria coragem de repetir tais palavras à filha da vítima, Vanessa Andrade, cuja tristeza e indignação senti pessoalmente num evento sobre violência contra jornalistas.

Desnecessário discutir contrato social, voluntarismo ou anarquismo filosófico para entender o que é violência na carne. E é na carne que a vida acontece. Posso nunca saber os fundamentos teóricos de submissão a um governo, mas sei muito bem quando ele me espolia, quando assassina meus familiares. Na universidade, apresentei um trabalho etnográfico a respeito das últimas eleições e fui interpelado pela professora, para quem eu falava concretamente demais sobre “poder”. “É um conceito abstrato”, retorquiu ela. Sorri. Não há nada mais concreto no mundo do que poder algo ou não.

Qualquer um obrigado a fazer ou sofrer o que não quer percebe imediatamente a concretude da força alheia. O Estado possui força sobre os indivíduos, é inegável, mas os indivíduos, em si considerados, também possuem diferentes níveis de força uns sobre os outros. Disso decorre que a violência e a tirania são fenômenos multidimensionais: governos tiranizam pessoas e pessoas tiranizam-se entre si. Quando um regime persegue minorias políticas ou esmaga desgraçados na pobreza, é tirano, sim, mas também não o é um assassino, naquele instante em que submete a si a vida do próximo?

Conclui-se que a Lei pode tanto servir de instrumento à tirania estatal quanto combater tiranias entre indivíduos. E em casos de criminalidade do colarinho branco ou contra a Administração Pública, é possível ao sistema de justiça criminal alcançar inclusive agentes do próprio Estado. Devemos então aferir a legitimidade das normas formais, e portanto a da desobediência a elas, pelo que materialmente promovem nas dinâmicas sociais de força e, principalmente, sofrimento; ou seja, se retribuem a violência de alguém ou a salvaguardam, se constituem resistência ao domínio ou seu incremento.

Alguns crimes geram revolta e outros não porque intuitivamente percebemos essas relações de domínio, de dor, rudimentos da “Justiça”; e sabemos quando nossos semelhantes estão se impondo perversamente sobre nós e quando, ao contrário, estão apenas resistindo a uma imposição. Quanto à estratégia, como bem sabia o Professor, é importante para não violarmos ninguém sob o falso pretexto de uma causa maior. Vanessa perdeu o pai e continuará pagando passagem mais cara, tendo sido violentada duas vezes, pois a ação que vitimou Santiago jamais a livraria do arbítrio das empresas.

Foi também com sangue paterno que Sérgio e Andrés escreveram sua história, culminada pela metralhadora browning literalmente atirando contra o sistema financeiro europeu. Por isso, se vamos combater a tirania, quero saber se os “partisans” de hoje não serão os tiranos de amanhã, ou se minha carne não será usada, sem meu consentimento, como munição para as armas da batalha. No discurso, até os governos mais sangrentos falam de liberdade. Mas quando o sangue escorre, calam as abstrações. No fim, este é o cerne dos direitos humanos: lutar contra a instrumentalização da vida.

“Questa mattina, mi sono alzato, ho trovato l’invasor (esta manhã, ao acordar, encontrei um invasor)”, diz uma versão de “Bella Ciao”. Seja pelas lágrimas de Vanessa ou pelos M16s de Marquina e Fonollosa, a resistência estará onde quer que esteja a violência e a arbitrariedade; até porque o poder, como o dinheiro, é objetivo, transitivo, e não sabemos sob quais mãos pesará sobre nós. Um verdadeiro “partisan”, defensor da liberdade, jamais se arvora contra a casa de ninguém, mas se encontrar um invasor na sua ou na de seus irmãos, estará de arma em punho e cabeça limpa, como luta o justo.

1 Comment threads
1 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
2 Comment authors

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Paulo Mantovani

Muito boa leitura! Parabéns pelas palavras e pela interpretação das falas e frases da música. Precisamos de mais opinião e menos achismo para podermos lutar e conquistar nossos direitos! Somente com a cultura poderemos mudar toda nossa situação atual.

Valério

Certamente, amigo. Obrigado pela leitura!