Como é o amor em tempos de amores líquidos? Como diria o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, hoje se vive nas relações um tipo de “amor com um espectro de eliminação imediata e, assim, também de ansiedade permanente pairando acima dele”. Nada melhor do que esse conceito para definir a obra autobiográfica da poeta goiana Elisa Marques.

Em “Até minha terapeuta sente falta de você”, primeiro livro da autora, cada verso dos 72 poemas escritos trata dos amores e paixões, da rejeição, das frustações e da quebra de expectativas. É quase um diário que abriga as palavras não ditas em um relacionamento que chegou ao fim. Trata das várias etapas do fim da relação entre duas mulheres.

A literatura LGBTQIA+ de Elisa é um sopro de vitalidade no mercado literário goiano e brasileiro. Mostra uma poesia diversa, sem regras, livre até para deixar alguns poemas parecerem inacabados, como se ainda houvesse esperança na continuidade de um amor que (até o momento) chegou ao fim.

A cada palavra, a poetisa revela que o amor também pode ser tóxico, cruel e frio, que machuca os desavisados. É sofrência em forma de poesia. Alguns versos poderiam até ter saído de um hit sertanejo, uma influência inegável, mesmo que inconsciente.

você é uma pessoa ruim escondida por trás

da máscara de alguém que podia me fazer feliz.

ELISA MARQUES

A relação distante com o pai, a excesso de críticas da mãe e a saudade de um avô que morreu antes que pudesse ter uma convivência profunda com ela também estão presentes na poesia sincera e não-linear, como uma sessão de terapia que cura pela fala – e pela escrita.

Elisa e sua poesia lésbica e visceral merecem os minutos de leitura que são gastos para sentir sua dor em seus versos, tão modernos quanto os amores líquidos dos nossos tempos. É o amor e a paixão em seu estado nu e cru.

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