A segunda morte de Jesus, de Hélverton Baiano

Jesus não reagiu, não contracenou e nem atinou para suas falas, rogando a Deus, seu Pai, que perdoasse aqueles que faziam aquilo com ele

Nasceu com o ovo virado esse menino Tereba de Bastião, que todo mundo do lugarejo conhecia pelas traquinagens derna bebéu, quando careceu olhar atento de pais, irmãos e quem mais fosse da família e aderentes. Parece que nasceu com o inferno por dentro, tamanha atentação. Teve parente que rezou para Deus o levar cedo, por via de alguma arte dele que resultasse estrupício imperdoável. A mãe mandou benzer de todos os males possíveis, de espinhela caída, quebranto, mau-olhado, ventrusidade, olho-gordo e até às onze mil virgens. De família católica, apostólica, romana, fez e mandou fazer novenas, rezas possíveis e impossíveis, benzeções, jaculatórias, ladainhas e o escambau. Apelou para as coisas do espírito, dos centros aos terreiros de macumba, mas nada conseguia quietar o facho de Tereba. Aconselharam até mudar o nome do menino, feito das inicias dos nomes da mãe Tereza e do pai Bastião. Adiantou não e o infiteco viveu até preso nas cordas.

Com o tempo, já nos seus 12 para 13 anos de idade, ele pegou jeito e se conheceu. Mas o capeta, em forma de uma livuzia de Rumãozim, entrou e não saiu dele. Tereba aprendeu a controlá-lo, escondendo-o dentro de si, e disso tirou vantagens muitas para atentar os que achava que mereciam, gente que não prestava, no entender dele. Jogava bosta na comida dos outros, matava gatos e cachorros, fazia gente trupicar e cair estatelada, roubava a roupa de quem ia tomar banho de rio, escondia as chaves das casas, dava dedada dos mais machos do lugarejo, que eles do nada corriam passando a mão atrás e negaceando o corpo, sem saberem quem foi, e um monte de sugesta e ingrisia.

Tereba controlava o Rumãozim, que era um ser espritado, que ninguém via, da forma que queria. Assim, deu-se que ele tomou jeito de gente, para satisfação de pais e parentes. Correu por ali que só atentava aqueles que faziam o errado e a igreja católica ajudou a espalhar e se beneficiou disso. Ela determinava as regras. Rumãozim, ou melhor, Tereba, ajudava discretamente o padre nessa empreitada, ele que era amigo da família e viveu intensamente o calvário do menino, com a certeza de que foram as rezas, novenas e ladainhas que tinham consertado e tirado os encostos do menino. Mas o Rumaõzim, lá dentro dele, ria e volta e meia aprontava uma ingrisias leves com o padre, como sumir um par do sapato, levantar a batina no meio da missa e encher o escritório da casa paroquial de besouro rola-bosta e barata d’água.

Jesus Cristo, por Caravaggio | Imagem: Reprodução

Na semana Santa, erguia-se um tablado na porta da igreja, onde era encenada a Paixão de Cristo. Tereba foi convocado para o teatro e ensaiava ouvindo orientações do diretor de como ele gostava do trabalho, que fossem contundentes na encenação e vivessem as cenas com o máximo de realidade. O ator escolhido para ser o Jesus Cristo era um bonitão do lugar, um sujeito dos mais apetrechados e metido a playboy, que propositadamente deixava cabelo e barba crescerem, para se parecer ainda mais com a figura de Jesus que o catecismo da igreja mostrava.

Esse ‘Jesus’ playboy copiava a onda rebelde dos anos 1960 e 70, e se vangloriava de ser, como se diz hoje, ‘pegador’ de gatinhas. Ele era o tal, um verdadeiro ‘pão’, um ‘prafrentex’, por quem as meninas se assanhavam. Tereba matutou a defesa da ala mais feia, desengonçada e desmilinguida, o oposto do Jesus, depois de ser escolhido para representar um soldado romano.

Tereba tinha uma certa inveja do bonitão, do galã do sertão, do ‘doce de coco’. Rumãozim, lá nos escaninhos do moço, atiçou ainda mais esse sentimento. O ‘doce de coco’ caiu na besteira de dizer aos soldados que queria uma cena “a mais próxima da realidade possível”. Disse que tinha feito um voto de viver aquele Jesus e queria sentir na pele pelo menos parte do sofrimento vivido pelo Jesus verdadeiro, lá nas terras de Jerusalém.

A encenação começava na Quinta-feira Santa, com a última ceia de Jesus, e Tereba, pelo seu novo comportamento, nessa representação era um apóstolo, convidado também por causa do seu novo comportamento e porque era protegido do padre. Antes da apresentação, as freiras davam aos apóstolos um saquinho com balinhas Nilva e Azedinha, pirulito Zorro, bolos e biscoitos caseiros, drops Ducora, queimadinho de Nazinha e chicletes. Rumãozim fez um estardalhaço, roubando os saquinhos de doces dos colegas apóstolos e escondendo em casa. Não bastasse, melecou de bosta os pés dos apóstolos, quando o padre foi realizar a cerimônia do lava-pés.

Na sexta-feira Santa, a encenação corria a contento, os atores se esmerando, para apreensão do povo que acompanhava. Jesus caiu três vezes e em uma delas Tereba acertou uma paulada, com a lança que portava, nas costelas de Jesus, que gemeu, mas viveu uma cena muito bonita, enfeitada de realidade. Na confusão da hora de pregar Jesus na Cruz, Rumãozim apossou-se da lança de Tereba e deu uma cacetada no gurgumii do coco de Jesus, que ele se desmilinguiu todo, desacordado. Como já estava bem amarrado na cruz, os soldados a levantaram com o Jesus todo escangotado lá dependurado, sem reação alguma.

A população aplaudiu Jesus e, até mesmo fora do combinado, gritou: “Jesus, Jesus, viva Jesus, Jesus, Jesus, viva Jesus”. O Jesus não reagiu, não contracenou e nem atinou para suas falas, rogando a Deus, seu Pai, que perdoasse aqueles que faziam aquilo com ele. Não falou nada porque, com a cacetada de Rumãozim, ele não pertencia e nem reinava mais neste mundo.

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