A literatura infantil em Goiânia

Escritores falam do processo criativo de suas obras e do mercado editorial na capital goiana, que tomou proporções nacionais a partir dos primeiros anos deste século, com alguns deles despertando o interesse de leitores em nível nacional

Valéria Belém, autora de 25 livros: “É importante a gente ler desde criança, para ir compreendendo a conviver com a pluralidade, com os diferentes modos de pensar o mundo e conviver com isso”

Até o começo deste século, eram poucos os livros infantis publicados em Goiânia. De lá para cá, surgiram muitos escritores dedicados exclusivamente às crianças, e com uma qualidade inegável. Entre eles está a jornalista Valéria Belém, autora do best-seller “O Cabelo de Lelê”, com ilustração de Adriana Mendonça, que já vendeu mais de 60 mil exemplares.

Lelê é uma garotinha afrodescendente que não se sente bem com seu cabelo longo, de crespas meadas negras. Mas ela vai compreendendo a real força de seus fios, enquanto descobre a origem da cor de sua pele e da luta de seus descendentes. “O cabelo da gente é uma memória dos nossos antepassados, da herança que a gente recebeu”, diz Valéria. Essa descoberta e esse passeio pela história da África é que encantam os pequenos leitores.

Segundo a autora, que nasceu no Rio de Janeiro, morou em São Paulo e Brasília, e veio para Goiânia aos 13 anos, a literatura se vale da ambiguidade para atingir o imaginário e a emoção de pessoas diferentes no que sentem e pensam. “As crianças têm suas angústias, seus sonhos, seus medos, e o escritor, ao abordar essas questões, está ajudando o leitor na elaboração do seu mundo particular”, diz.

O universo das cidades é plural. E é assim que deve ser. A convivência com tanta diversidade exige do cidadão que vai crescer nesses espaços uma refinada capacidade de organização de ideias. Para a autora, a leitura desde miúdo ajuda nesse amadurecimento.

O mundo das fake news e da pós-verdade é um mundo estranho e difícil. “Por isso é importante a gente ler desde criança, para ir compreendendo a conviver com a pluralidade, com os diferentes modos de pensar o mundo”, comenta Valéria, que além de jornalista, acostumada a lidar com os fatos, é psicanalista.

A rica cena literária na capital Goiânia se originou a partir de pelo menos dois elementos essenciais, as feiras de livros, incluindo a primeira bienal em 2005, e a assimilação de autores goianos nos programas de compras de livros dos municípios e do governo estadual. Em 2008, o Conselho Estadual de Educação de Goiás passou a exigir a integração do estudo da literatura goiana no ensino fundamental.

“Isso levou as editoras a reeditarem obras já existentes e a facilitarem a edição de inéditas”, diz Vera Tietzmann, uma das maiores especialistas em literatura infantojuvenil do país, no artigo “Literatura Infantil Goiana”, publicado no “Jornal do Professor” (Adufg, edição de setembro/outubro de 2016).

Se por um lado aumentou as ofertas de livros, por outro facilitou a proliferação de “textos simplificadores, moralistas e ‘politicamente corretos’, ou seja, na contramão do que se fazia na literatura infantil nacional”, critica Vera.

Descobrindo o talento

Alguns autores, no entanto, se destacam pela qualidade. E quem se destaca, acaba expandindo suas vendas para programas de outros Estados e até para o governo federal. Valéria Belém está entre eles. Começou conquistando o mercado regional, e hoje é uma autora nacionalmente conhecida.

Ela escrevia poesia, quando criança, mas a vida fez uma curva que a levou para o jornalismo. A criança poeta, no entanto, viveu no imaginário de Valéria enquanto ela trabalhava reportando os fatos, analisando dados econômicos, depois se debruçando sobre a cultura. Quando se tornou editora do suplemento infantil “Almanaque”, do jornal “O Popular”, Valéria convidou a escritora Augusta Faro para escrever historinhas na seção “Era uma Vez”.

Augusta, por sua vez, viu talento literário em Valéria e a incentivou a escrever também. O resultado foram dois livros de coautoria das duas com o conteúdo dos textos do jornal, “Era uma Vez” 1 e 2, publicados pela Editora Kelps. Em 2005, a nova escritora queria alçar voos mais altos. Achava que precisava ser lida no Brasil todo, e procurou uma editora que possibilitava a circulação nacional de seus livros.

Durante a 1ª Bienal do Livro de Goiás, realizada de 23 de abril a 1° de maio de 2005, Valéria conseguiu um contrato com a Editora Ibep, de São Paulo, assinando contrato para a publicação de três livros.

Hoje ela tem 25 livros infantis publicados, como “Feita de Pano”, “A Formiguinha Medrosa”, “A Vaca Avacalhada”, e “O Espelho de Lelê”, sequência de seu best-seller, adotados por vários programas de prefeituras e governos estaduais pelo país, além do cobiçado Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), criado em 1997 pelo governo de Fernando Henrique Cardoso.

Mercado

O mercado editorial já esteve melhor, principalmente nessa área tão delicada da literatura infantil, já que os maiores compradores são os programas de leituras dos governos e prefeituras. Em 2014, o governo federal, sob o comando de Dilma Rousseff, parou de executar o PNBE.

Neste caso, as compras passaram a integrar o programa de livros didáticos, com bem menos demanda. No ano passado, o presidente Michel Temer assinou um decreto abandonando de vez o envio de livros literários às bibliotecas escolares. “O governo federal era um grande comprador. Mas não só cortou a verba para programas de leitura como não pagou o que já tinha comprado das editoras”, diz Valéria. “Nos últimos três anos, o mercado estava bem ruinzinho.”

Interesse genuíno

Apesar da quebradeira das editoras em consequência dessas baixas, os autores continuam escrevendo e publicando. Muitos deles não pensam em temáticas voltadas para as vendas nas escolas. Escrevem pelo impulso da criação. Escrevem porque isso é essencial para a vida deles, autores, e de seus leitores.

Claudia Machado: “O principal da minha vida é escrever sempre para a criança de quem vai ler, e é sempre a criança dentro de mim que escreve”

É o caso da Valéria Belém e de outros autores goianos, como a também psicanalista Claudia Machado. Alguns intelectuais, filósofos e escritores brilhantes (à moda do romantismo), quando explicam por que escrevem o que escrevem, por que falam o que falam, dizem “u’m deus pensa em mim”, ou pelo menos pensam. Claudia, quando perguntada por que escreve, diz: “Uma criança sente em mim.”

Uma criança altiva, atenta, atentada, atiçada, pensa e sente em Claudia, de 46 anos, que tem cinco livros publicados, e só um deles é infantil, “A Invenção de João”, um belíssimo hino à vida em edição bilíngue (português/italiano), com ilustrações soberbas de Ana Christina da Rocha Lima. Ela deixa claro seu processo criativo. “Sempre que escrevo, escrevo para a criança que habita o leitor, independentemente de ter 5 anos ou 104, como minha amiga Comary Perillo, de Palmeiras, minha cidade natal.”

Para Claudia, toda escrita é provocada. “Literatura tem de ter uma coisa que te provoca e que te faz criar. É isso que desperta no leitor uma mudança, um interesse genuíno”, diz ela. Se a literatura tem de mostrar a vida, pouco importa a idade do leitor. “O modo como se aborda é essencial, e não se aborda uma história para criança sem respeitar sua inteligência, sua sensibilidade”, comenta a autora.

Na avaliação de Claudia, a literatura tem de ajudar a criança a botar palavras naquilo que para ela ainda não tem palavras. “Porque o mais terrível para nós é não sabermos transitar nessa imensa esfera do humano. Imagine tudo que uma criança vai vivendo, e não tem recurso nenhum para compreender essa vivência.”

Logo, seu livro tem uma função de contar uma história do enfrentamento da vida. “É tentar mostrar essa coisa do enfrentamento que todos nós, que nascemos humanos, vamos ter de fazer, em qualquer idade, até o fim. É claro que é preciso ter uma conformação de frases, com parágrafos menores, ilustrações, que são fundamentais, mas a história precisa ter uma elaboração existencial consistente, e nada de ‘e viveram felizes para sempre’”, comenta.

Perspectiva histórica

A história da literatura infantil em Goiás começou em 1960, com a publicação de uma biografia de Monteiro Lobato, escrita por Alaor Barbosa, mas ainda com linguagem didática, diz Vera Tietzmann, no artigo “Literatura Infantil Goiana”. Segundo a pesquisadora, nos anos 1970, período em que se iniciou um boom de escritores realmente dedicados ao universo infantil no país todo, depois do pioneirismo de Lobato a partir dos anos 1920, é que surge a grande pioneira da literatura infantil goiana, Marietta Telles Machado.

E a partir daí, sucederam outros nomes, não exatamente exclusivos dessa faixa etária, como José J. Veiga e Miguel Jorge. Todos eles, autores de prosa. Só em 1990, Augusta Faro viria a publicar o primeiro livro de poesia infantil em Goiás, “O Azul É do Céu?”. Segundo Augusta, que em novembro vai completar 70 anos, quem garante esse pioneirismo é Maria Zaira Turchi, professora e pesquisadora de literatura infanto-juvenil, outra grande autoridade nessa área.

Augusta tem mais de 30 livros publicados, entre infantis e adultos. “Alice no País de Cora Coralina” é um de seus grandes sucessos infantis. Com títulos criativos, ela se destaca ainda com “Lua pelo Corpo”, “Voa Zeprequé”; “Mentirinha, Tagarelinha e Preguicinha”, além de “O Menino Que Cuspia Borboletas”.

Ao contrário do que afirma Vera Tietzmann, ela diz que o primeiro romance infantil publicado em Goiânia foi “A viagem de Nancy”, escrito por sua tia Maria Paula Fleury de Godoy, na década de 1950. Mas não soube precisar o ano.

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