2 poemas de Andrei Voznessiénski traduzidos direto do russo por Astier Basílio
20 junho 2026 às 21h00

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Herdeiro do futurismo de Maiakóvski, Voznessiénski foi traduzido em 44 línguas
Astier Basílio
De Moscou
O poeta russo Andrei Voznessiénski nasceu em 12 de maio de 1933 — há 93 anos — e morreu em 1º de junho de 2010, há 26 anos.
Poucos foram os poetas que em vida gozaram de tamanha popularidade e prestígio. Nascido em 1933, integrou, com Ievguêni Ievtuchênko, Robert Rojdiéstvenski e Bella Akhmádulina, o quarteto fantástico da poesia soviética: os “sessentistas”, que, por anos, seduziram multidões que lotavam estádios de futebol para ouvir seus poemas.
Para se ter uma ideia do que representou, Voznessiénski foi recebido na Casa Branca pelo presidente Ronald Reagan.

Em sua datcha, em Peredelkino, Voznessiénski teve como hóspede ninguém menos que o compositor e cantor americano Bob Dylan.
Herdeiro do futurismo de Maiakóvski, Voznessiénski foi traduzido em 44 línguas. No Brasil, foi incluído na “Moderna Poesia Russa” dos irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Boris Schnaiderman. Apresento aqui um poema inédito em português, escrito em sua fase mais madura.
1
Na praia
Caia o poente no entulho da vazante,
E virado de costas a estrebuchar
Encontrei um caranguejo agonizante.
Eu o desvirei. Depois joguei-o ao mar.
Passava por ele uma medusa frenética
e esfregando as pinças rapidamente
na água como o brasão
da União Soviética
ergueu-se banhado na luz do poente.
2003
2
Apresentamos nossa tradução do poema mais conhecido de Voznessiénski, espécie de cartão postal. “Eu não sabia nada sobre esse artista. Mas no livro fuzilavam guerrilheiros, pendiam corpos de enforcados, a guerra se contorcia. Sobre a mesma coisa falava diariamente, na cozinha, o alto-falante preto de papel. Meu pai atravessou a linha de frente com este livro. Tudo isso se uniu em um único nome terrível: Goya”.

Goya
Sou Goya!
nos glóbulos um rombo cavou-me um algoz
em um front devastado agora.
Sou o Ronco
Sou o coro
da guerra, na gleba no fogo engolfada,
em quarenta e um, que por cima da neve ecoa.
Sou Fome
Eu sou a goela
daquela enforcada que o corpo sem roupa
desloca-se como um sino numa praça nua de pessoas…
Eu sou Goya!
Oh, os gomos
da desforra! Acertei uma salva no Ocidente —
eu, o pó de um hóspede inóspito!
E no céu da memória as estrelas mais firmes cravei
Como prego que troa
Eu sou Goya!
1957



