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Machadianices de um observador atáxico
Oração ao tempo: de Platão a Machado de Assis, Heidegger e Flow

Todo escritor, a meu ver, tenta paralisar o tempo, quando escreve. Essa é uma frase que não deve ser dita, pois muitos deles, os escritores, sairão ao ataque. Empunhando frases travestidas de originais, como se alguma coisa fosse depois de Platão. Uma conhecida teve um namorado com essa insígnia, e o pessoal dizia: "... Na casa do Pratão… blá, blá", deve ser porque ele era um alimento farto. Mas a questão prenhe de outras questões é que dirão que pelo contrário, eles lutam para acelerar o tempo, ou reformulá-lo, nada mais obscuro que paralisar o tempo.

É como as sensações boas, e um dos motivos pelas quais as pessoas se viciam. Querem com justiça repetir aquela sensação boa, originária – talvez por isso temos a mania de valorizar romanticamente a primeira vez que apareceu aquilo. E aí tentar segurar o tempo em suas mãos, poder fazer o tempo correr, mudar a estação, negá-lo ou reafirmá-lo, mas em última instância é paralisar o tempo no sentido de manipulá-lo na imag(inação), na memória.

Os velhos lembram tanto da infância, do tempo em que todos estavam vivos. E se esquecem do imediatamente recente, quando isso avança recebe o nome de Mal. O Oswald de Andrade apresentou a formulação de uma antropofagia de forma poderosa, em Manifesto, pertados e ironias. O Machado de Assis teve um estudo sobre como ele mimetizou e deu novos ares ao cenário da literatura brasileira com o seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. É sobre como o Machado pegou emprestado a ideia de um defunto que narra do “Diálogos dos mortos”, de Luciano de Samósata. O estudo é “O Calundu e a panaceia”, de Enylton José de Sá Rego. Apesar da redução, é lei de Lavoisier: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Certamente, estou sendo determinista, e meus colegas da universidade vão brigar comigo. Podia citar Marx, né, ou até Heidegger – à propósito. 

Filosofando com’OS cavalos: pensando sobre a eternidade, o apagamento, a permanência, a fixação, o que fica; abstrações aparentemente individualistas mas na verdade transformadoras – não cheguei a nenhuma conclusão. Na verdade, só que o tempo não se esvai, pois pode significar “desaparecer”, mas faz mais sentido na acepção de “dissipação”. Como não se segura água nas mãos, pois ela escapa, pelas frestas entre os dedos, por isso o melhor a se fazer é molhar o rosto e beber um pouco da água que foi fracassadamente colocada como prisioneira.

Assisti “Flow”, no cinema. Apesar da conversação dos infantes, a experiência do filme é linda demais e, acho, que é sobre “a passagem do tempo” - quase falei “passagem da vida”; tema máximo da filosofia mais cabeçuda do século XX, filosofia de um alemão – sempre eles –, Heidegger.

Filme que vale todo o barui em cima, é muito bom, sofre a missão de, por figurar como uma animação com bichinhos, ser recomendado como filme infantil. (“A Viagem de Chihiro” é exemplo de um baita filme infantil que é de adulto). E vale como filme infantil por ter várias camadas – lugar comum do crítico; e se tratado em perspectiva de a “passagem do tempo”, tem o mote de estarmos navegando à esmo, sem destino, num barco que apereceu do nada, com parceiros de navegação que em situação de temperatura e pressão normais se devorariam, mas estão unidos e desconfortáveis, porém ajudando o coleguinha de navegação. Como disse minha Maria: “É sonho ou pesadelo!?”.

Cheio de aventura, venturas e desventuras, é preciso inteligência para seguir viagem, às vezes para numa “estação”, quase sempre fruto da inabilidade em navegar e da falta de recursos para administrar a viagem, mas nem todo mundo que sobe ou pode subir fica ou vai. É a vida.

No final, os navegantes salvos, momentaneamente, observam a baleia que encanta e amedronta e está encalhada numa parte seca que a “enchente” não alcançou, ao meu lado o infante Vicente pergunta: “Uai, a baleia morreu?” e o infante Martin, com a sapiência não revelada depois de ver o filme meia dúzia de vezes com os pais – a mãe é doutora em Biologia: “Morre não. Vai inundar tudo de novo, e aí ela revive.”

Na saída, desequilibrei e quase cai, amassando o Martin contra a parede, perguntado se estava tudo bem, estava e eu disse que sim: “Agora, temos que perguntar ao Martin.” Contei isso na psicoterapia e ele: “Na próxima vez o Martin tá mais crescido e aí você não o amassa.” Aproveitar o tempo.

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