Dívida de R$ 2,5 bilhões leva SAF do Botafogo à recuperação judicial e acende alerta sobre futuro do clube
21 maio 2026 às 19h39

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A Justiça do Rio de Janeiro deferiu o processamento da recuperação judicial da SAF Botafogo. A decisão, assinada pelo juiz Marcelo Mondego de Carvalho Lima, da 2ª Vara Empresarial, marca o início formal da reestruturação da sociedade anônima responsável pela gestão do futebol do clube. O passivo total informado é de R$ 2,5 bilhões, dos quais R$ 1,28 bilhão estão diretamente sujeitos ao processo.
Em entrevista ao Jornal Opção, o advogado Rafael Brasil, especialista em recuperação judicial, a crise não decorreu de má gestão interna. “O que se tem é o colapso de um modelo de financiamento que o Grupo Eagle mantinha entre seus clubes por meio de um sistema de caixa compartilhado, o cash pooling. Quando o Lyon entrou em dificuldades financeiras na França, os recursos que a SAF havia transferido ao grupo não foram devolvidos”, explicou.
Com o deferimento, todas as ações de cobrança, execuções, bloqueios e penhoras contra a SAF ficam suspensas por 180 dias, período conhecido como stay period. “Sem essa proteção, o cenário seria de corrida entre credores, cada um tentando satisfazer seu crédito individualmente, o que na prática destrói o ativo antes que qualquer reestruturação seja possível. O stay period substitui essa lógica por um ambiente coletivo: todos aguardam a verificação dos créditos e a deliberação sobre o plano”, destacou.
“Na operação imediata, o clube mantém contratos com atletas e fornecedores sem risco de rescisões motivadas por dívidas concursais, o que é indispensável para manter a atividade empresarial durante o processo”, completou.
O advogado chamou atenção para um ponto específico da decisão. “Dinheiro não é bem essencial à atividade empresarial. Isso significa que constrições sobre recursos financeiros podem ter tratamento diferenciado, e essa discussão vai aparecer ao longo do processo com credores que buscarem bloqueios de conta”, disse.
A crise da SAF Botafogo foi agravada pelo modelo de cash pooling do Grupo Eagle Football. “O Botafogo estava financiando as perdas operacionais do Lyon. O modelo só funciona com reciprocidade: os recursos transferidos precisam retornar. Quando o Lyon foi rebaixado na França e a autoridade de controle financeiro impôs restrições, o sistema foi rompido de forma unilateral. Os repasses feitos pela SAF ao Lyon e ao RWDM Brussels não voltaram. O clube havia antecipado receitas de 2026 para cobrir o déficit e ficou sem as duas pontas”, afirmou.
Ele lembrou ainda que “a Eagle Bidco, acionista majoritária com 90% da SAF, passou a ser conduzida por um administrador da Ares Capital com prioridade declarada de preservar o Lyon e satisfazer seus próprios créditos. A SAF ficou como dano colateral de uma disputa societária que não era de sua origem.”
Um outro fator decisivo foi a pressão da FIFA. “O transfer ban impede o registro de novos atletas durante o período de vigência da punição. Para um clube que disputa Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil simultaneamente, isso significa incapacidade de responder a lesões, suspensões e ao desgaste de elenco ao longo da temporada. No caso do Botafogo, havia ainda o risco de perda de pontos no Campeonato Brasileiro. A FIFA havia deixado claro que apenas o deferimento formal da recuperação judicial produziria os efeitos necessários para suspender as punições, e não a cautelar antecedente”, disse.
Nos próximos 60 dias, a SAF precisa apresentar um plano de recuperação. “O plano precisa responder quatro questões de forma objetiva. A primeira é a viabilidade econômica: direitos de TV, patrocínios, bilheteria, receitas com transferências de atletas. A segunda é a definição da estrutura societária, já que a Eagle Bidco ainda detém 90% da SAF e há arbitragem em curso.
A terceira é o DIP Financing, pois o plano precisa demonstrar acesso efetivo a capital de giro. A quarta é a proposta concreta de pagamento da dívida concursal de R$ 1,28 bilhão, com deságio, carência, prazo e garantias”, explicou.
Caso o plano seja rejeitado, o risco é a decretação da falência. “A rejeição abre o caminho para a decretação da falência, salvo se o juiz aplicar o cram down. Se decretada a falência, os ativos são arrecadados, o patrimônio é realizado e os credores recebem na ordem de preferência legal. Para a SAF, isso significa o encerramento da sociedade que detém o contrato com o clube associativo”, disse.
“O Botafogo voltaria a gerir diretamente o futebol profissional sem estrutura e sem capital, em condições piores do que as de 2020. Na esfera desportiva, exclusão de competições, cassação de registros de atletas e perda de pontos deixariam de ser risco para se tornar consequência concreta”, completou.
Apesar dos desafios, Rafael acredita que a lógica econômica deve prevalecer. “Na prática, a aprovação do plano costuma prevalecer mesmo em processos com credores resistentes porque todos sabem que a alternativa não é o recebimento integral do crédito: é a liquidação de um ativo que em falência vale uma fração do que vale como empresa em funcionamento. Esse raciocínio é o que move assembleias, mais do que qualquer argumento jurídico”, finalizou.
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