Amma e ambientalistas se reúnem para debater corte de árvores no Lago das Rosas
21 maio 2026 às 19h10

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Integrantes do movimento Goiânia Verde irão se reunir, nesta sexta-feira, 22, com técnicos da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma) para questionar e debater o laudo da agência que determina a retirada de 48 árvores do Lago das Rosas. A extirpação das árvores, inclusive, resultou em uma mobilização que está marcada para acontecer no domingo, 24, em frente ao Zoológico de Goiânia e que é viabilizada por moradores e frequentadores do parque, que se posicionam contra ao trabalho realizado pela Prefeitura de Goiânia
Segundo o engenheiro agrônomo paisagista, Marcelo Fernandes, a reunião marcada vem para questionar um acordo que foi firmado durante um encontro no Ministério Público, que resultou na criação de um Grupo de Trabalho (GT) envolvendo representantes da Amma, ambientalistas e profissionais técnicos. Na ocasião, foi cobrado mais debate sobre os laudos de supressão de árvores em Goiânia depois da retirada de um mogno histórico que ficava em frente ao Tribunal de Justiça de Goiás.
Segundo Marcelo, a partir disso, ficou acordado que os laudos de árvores marcadas para supressão seriam compartilhados previamente para análise dos especialistas antes de qualquer retirada. “O compromisso da Amma foi enviar os laudos para a gente avaliar, discutir e entender quais árvores realmente precisariam ser suprimidas. O problema não é o laudo apontar problemas. O problema é a conclusão final, que acaba sendo a condenação à morte da árvore.”
No laudo confeccionado pela Amma em relação ao Lago das Rosas, as espécies que serão extirpadas consistem em Pau-brasil, Jamelão, Flamboyant, Ficus-benjamina, Pata-de-vaca, Goiabeira, Pau-jaú, Paineira-barriguda, Cajá-manga, Chapéu-de-napoleão, Monguba, Ipê, Santa-bárbara (Cinamomo), Neem-indiano, Eucalipto e Angico, além de alguns exemplares não identificados e uma touceira de bambu.
De acordo com o documento, as principais justificativas para a extirpação estão:
- Estado fitossanitário comprometido: presença de necroses profundas, brocas, cupins e fungos (como o “orelha-de-pau”) que apodrecem o tronco e as raízes.
- Ataque de pragas específicas: diversas Mongubas foram severamente comprometidas pelo ataque do besouro Euchroma gigantea, que destrói o sistema radicular e a base do tronco, causando instabilidade e risco de queda súbita.
- Risco civil e estrutural: árvores com risco de queda sobre pedestres, veículos, fiação elétrica ou sobre a mureta tombada pelo patrimônio histórico.
- Conflitos com a rede elétrica: exemplares em conflito direto com postes e fiação de alta tensão, onde podas sucessivas causaram desequilíbrio estrutural e danos à saúde da árvore.
- Ciclo biológico: árvores em final de ciclo vegetativo ou em estado de senescência avançada.
- Espécies exóticas tóxicas: o Neem-indiano será removido por ser uma espécie invasora que possui substâncias (azadiractina) tóxicas para abelhas nativas e polinizadores locais.
- Revitalização: necessidade de liberação de espaço para a implantação de equipamentos como o Pet Place


Apesar disso, Marcelo destaca que muitos desses problemas são considerados reversíveis e poderiam ser solucionados com manejo adequado, sem necessidade de corte. “Cupim não come madeira sadia. Ele vai na madeira em decomposição, nos galhos secos que não foram retirados. Esses galhos são porta de entrada para pragas e doenças. O correto seria fazer manutenção e tratamento, não cortar.”
O engenheiro agrônomo aponta que, das das 48 árvores listadas no Lago das Rosas para serem retiradas, apenas uma pequena parcela realmente apresentaria necessidade de supressão imediata.
Tem algumas que realmente precisam ser retiradas, mas a maioria não. Muitas podem ser tratadas, podadas e recuperadas. A árvore pode ter problema e continuar em boa condição.
Além disso, ele também critica o plano de compensação, que está listado em 112 árvores de espécies variadas, como Nó-de-porco, Paineira-barriguda, Escumilha-africana, Ipê-amarelo, Ipê-branco, Ipê-roxo, Ipê-tabaco, Jequitibá, Feijão-cru, Extremosa (Resedá), Bacupari, Magnólia-amarela e Jatobá-da-mata. Marcelo não concorda com o porte reduzido das mudas, o que leva a uma baixa taxa de sobrevivência.
“Hoje a recomendação é plantar árvores maiores, já desenvolvidas em viveiro. Essas mudinhas pequenas têm índice de sobrevivência baixíssimo. Muitas não resistem ao período de seca. Uma árvore adulta presta um serviço ambiental gigantesco. Uma muda recém-plantada pode levar 20 ou 30 anos para compensar isso.”
Além disso, ele pontua que a retirada de uma das árvores pode impactar em áreas de preservação e nascentes existentes dentro do Lago das Rosas. “Ali é área de nascente, tem buritis e áreas extremamente sensíveis. A preocupação maior é retirar árvores que poderiam ser preservadas em um local ambientalmente delicado.”
Marcelo destaca que o encontro, que foi marcado com a própria presidente da Amma, Zilma Peixoto, será in loco para pegar o relatório e visitar as espécimes para uma análise individual. “Nós vamos pegar os laudos e discutir árvore por árvore, no local. Mostrar o porquê de entendermos que determinadas árvores não precisam ser extirpadas.”
Amma afirma que exemplares substitutos terão 3 metros de altura e já serão plantados nesta sexta
Em entrevista ao Jornal Opção, a presidente da Amma explicou que as 48 árvores do Lago das Rosas foram identificadas em situação considerada crítica, oferecendo risco de queda e acidentes. Ela rebateu críticas de que árvores com cupins poderiam ser recuperadas apenas com manutenção.
“Hoje nós não podemos usar nenhum tipo de cupinicida. Se eu coloco um produto desse no Lago das Rosas, eu posso contaminar o solo e atingir a fauna. As coisas não têm essa simplicidade.”
Segundo a presidente, os laudos levam em consideração diversos critérios técnicos antes da recomendação de corte. “O técnico olha sistema radicular, necrose, fungos, rachaduras, inclinação, copa, risco de queda, circulação de pessoas, veículos. Depois de avaliar tudo isso é que ele emite uma recomendação técnica.”
Zilma Peixoto também afastou a possibilidade de mudas pequenas e que as espécimes plantadas já estarão desenvolvidas, entre 2,5 e 3 metros de altura, com o início do plantio já marcado para esta sexta-feira. “Todos os lugares que nós tirarmos um exemplar dentro do Lago das Rosas serão substituídos por um exemplar de 3 metros de altura. Nós estamos levando mudas de porte, não uma mudinha qualquer. Em cinco anos elas já começam novamente o processo de sombreamento.”
Segundo ela, o processo será feito por etapas, acompanhando o andamento da obra e evitando que áreas fiquem vazias por longos períodos. “Eu não vou chegar lá e cortar 48 árvores de uma vez. Eu vou cortar por ciclo, por trechos. À medida que eu terminar esse corte, automaticamente eu já vou limpar o lugar, preparar o berço e já colocar um novo exemplar.”.
Zilma ainda destacou que, além da compensação prevista no laudo, outras árvores serão plantadas no parque durante o período chuvoso. “Quando chegar em setembro, outubro, que é o tempo das águas, nós vamos plantar 100 exemplares.”
Moradores não concordam com a retirada das árvores
Desde que as extirpações foram iniciadas, moradores que vivem na região ou frequentam o parque se posicionam contra a situação, inclusive se mobilizando nas redes sociais. Maria Inês da Veiga Jardim, moradora do Setor Oeste e frequentadora do parque há décadas, afirma que a indignação popular aumentou porque as árvores eram consideradas históricas e tradicionais da paisagem da cidade.
“As árvores que estão retirando são árvores centenárias, anteriores até mesmo à fundação de Goiânia. Estamos falando de espécies nobres, como pau-brasil, mogno, ipês e sibipirunas.”
Maria Inês questiona a necessidade da retirada de árvores que, segundo ela, aparentam estar saudáveis e localizadas no interior do parque, distante de vias públicas. “Muitas delas claramente não têm necessidade de serem derrubadas. Se fossem árvores na rua, oferecendo risco, tudo bem. Mas são árvores dentro do parque.”
Além disso, ela critica a falta de acesso aos estudos técnicos que justificariam a retirada das árvores. Maria Inês afirma que os frequentadores não sabem quem elaborou os laudos nem quais critérios foram utilizados.
“É muito fácil um órgão público dizer que uma árvore está condenada. Mas baseado em quê? Quem fez esse estudo? Quais são os critérios?”
Outro morador do Setor Oeste é Ary Alencastro Veiga Filho, que destaca a relação afetiva antiga com o parque e frequenta o espaço desde a infância. Morador da região há décadas, ele diz acompanhar de perto as mudanças e problemas enfrentados pela área verde.
“Frequento o bosque desde que eu nasci. Conheço aquele bosque desde quando eu tinha quatro anos de idade. Tenho 68 anos, quase 70, e minha mãe levava a gente pra passar a manhã ali. Faz parte da minha vida inteira e eu moro no Setor Oeste até hoje.”
Ele corrobora com Maria Inês sobre a falta de acesso aos documentos que justifiquem a retirada das espécies, mesmo reconhecendo a existência técnica para a ação. “Não tive acesso ao laudo. De fato foi feito um laudo que explica o motivo da retirada. Eu também não acredito que estejam cortando as árvores simplesmente pelo prazer de cortar.”
Apesar disso, ele reforçou ser contrário à retirada dos exemplares e defendeu medidas de manutenção e preservação. “Revitalização é importante. Preservação também significa uso adequado, planejado e sustentável. Espero que não seja mais uma reforma eterna, dessas que começam e nunca acabam.”
Integrante do movimento ambiental Goiânia Verde, Rogerio Ranulfo também destaca que os moradores não são opostos à revitalização do parque, mas, sim, a retirada de árvores históricas. Além disso, reclama da falta de diálogo da prefeitura com a comunidade local e especialistas.
“Nós não somos contra a revitalização, nós somos contra a depredação que está sendo feita para a implantação da revitalização”, afirmou. Rogério também defendeu que árvores históricas ou protegidas deveriam ser preservadas sempre que possível. “Não é porque uma árvore atrapalha uma calçada que você precisa arrancá-la. Faz a calçada ao lado da árvore.”
Ele destaca que um dos caminhos para resolver a situação seria a manutenção preventiva e tratamento das árvores consideradas doentes antes da extirpação. “Mais do que extrair as árvores, é preciso cuidar delas. Essa é a obrigação da prefeitura. Enquanto esses laudos estão sendo questionados, o mínimo que eles têm que fazer é interromper os cortes”, disse.
A presidente da Amma reforça que houve ações de educação ambiental e comunicação direta com moradores da região. “A gente envolveu inclusive a nossa equipe de educação ambiental, que saiu de porta em porta informando que a gente ia fazer, por que fazer e que o projeto de requalificação do Lago das Rosas era importante.”
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