Delúbio Soares diz que aliança entre PT e Marconi Perillo não está descartada: “Possibilidade só acaba quando terminam as convenções”
13 junho 2026 às 21h00

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Nascido em Buriti Alegre, Delúbio Soares se tornou uma das figuras mais conhecidas do PT em Goiás e também do país. Professor, ele teve sua porta de entrada na vida pública ao se tornar sindicalista, quando passou a ter contato com a política. Delúbio descreve sua trajetória como dividida em 40 anos, sendo 20 de sucesso e “outros 20 de dificuldades”. Os anos de sucesso, segundo ele, consistem na estruturação do PT, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de demais programas sociais.
Os 20 anos de dificuldades, ainda de acordo com Delúbio, consistem na notoriedade que seu nome ganhou à época do Mensalão, um dos escândalos que ajudaram no enfraquecimento da sigla do PT. Em 2005, ele era tesoureiro do partido quando surgiram denúncias de pagamento de propina a deputados para que votassem junto ao governo. Por causa disso, foi condenado por corrupção ativa, chegando a ser expulso do partido na ocasião. Posteriormente, ele foi novamente por lavagem de dinheiro no âmbito da Operação Lava Jato, chegando a ser preso preventivamente em 2018.
Dez anos após a expulsão, teve sua filiação ao PT aprovada novamente. Depois de ser condenado a seis anos de prisão em segunda instância, cumpriu a pena, mas, em 2023, a condenação foi anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), sob o entendimento de que o processo deveria tramitar na Justiça Eleitoral.
Em entrevista ao Jornal Opção, Delúbio explicou que, após esse episódio, sentiu-se disposto a somar com o projeto do PT em Goiás, onde se apresenta como pré-candidato a deputado federal pela legenda. Ele também falou sobre a escolha do nome de Luís César Bueno como pré-candidato ao Governo de Goiás pelo partido, mas não descartou uma eventual aliança com Marconi Perillo, hipótese da qual afirma ter sido um dos entusiastas e sobre a qual revelou ter conversado mais de 15 vezes com o ex-governador.
Durante o bate-papo, Delúbio ainda destacou os desafios do PT em Goiás, comentou como o presidente Lula enxerga o palanque eleitoral no Estado e reafirmou sua fidelidade às decisões da presidente estadual do partido, Adriana Accorsi, reforçando que “vota com a relatora”
Ton Paulo – A minha primeira pergunta é sobre sua absolvição em um processo do Mensalão, em 2023. O senhor alegou, ao longo do tempo e também de acordo com suas próprias publicações, que foi vítima de lawfare, que é uma prática que utiliza o sistema jurídico de maneira estratégica e abusiva para tentar deslegitimar ou eliminar adversários políticos. Há um certo ressentimento de tudo o que aconteceu por parte das autoridades?
Eu não guardo ressentimento, pois, como diz um ditado antigo, é como você tomar veneno e achar que o seu inimigo vai morrer. Não tenho ódio nem mágoas em meu coração. Eu fui uma pessoa que nasceu em uma casa simples, de pau a pique, com chão de terra batida… A vida me ensinou várias coisas e, uma delas, foi enfrentar as dificuldades. Eu fiz uma opção política desde 1975, quando ingressei no movimento de anistia.
Em 1986, fui convidado para ir para a política nacional. Foram 40 anos, sendo 20 de sucesso e 20 de dificuldades. Nesses anos de sucesso, nós conseguimos organizar o Partido dos Trabalhadores (PT), a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento Sem Terra (MST). Com o crescimento do partido, conseguimos apresentar emendas populares que resultaram na redução da jornada de trabalho, na criação do seguro-desemprego e na criação da lei do SUS, além da aposentadoria dos trabalhadores rurais, já que, até então, 8 milhões de trabalhadores não recebiam nada.
Dentre os 20 anos de dificuldades, teve o Mensalão, que foi uma mentira. Lawfare é uma palavra nova, que não existia naquela época: era perseguição política. Em 2005, o deputado Roberto Jefferson dá uma entrevista em que conta um fato que não é verdadeiro, afirmando que o PT estava pagando R$ 30 mil para os deputados votarem com o governo. Isso teria envolvido vários partidos, inclusive o presidente da Câmara e os líderes do PT, o que não tinha o menor sentido.

Mas a imprensa e a classe dominante daquele momento, principalmente o PSDB, compreenderam isso como verdade absoluta e foram martelando. Uma mentira contada várias vezes não vira verdade, mas prejudica a vida de algumas pessoas. Nessa época, eu era tesoureiro do PT e fui o principal acusado por Roberto Jefferson de estar corrompendo o Congresso Nacional. Foram feitas várias CPIs, e, em uma delas, fiquei mais de 20 horas respondendo às minhas questões com todo respeito aos deputados. Nesse período, fui intimado 93 vezes pela Polícia Federal.
Eles queriam que eu dissesse coisas que não aconteceram. Eu só respondi aquilo que aconteceu. A denúncia feita é aceita e, quando se tem um julgamento, tudo acaba na manchete do jornal, mas não havia uma prova. Não teve uma gravação, não teve um documento que comprovasse a compra de um deputado.
Também nenhum parlamentar foi ouvido, nem qualquer testemunha. No Mensalão, eram 413 testemunhas. Perante o juiz, não teve uma pessoa que confirmou a tese do Ministério Público, que era a compra de votos.
Ton Paulo – E o que realmente aconteceu?
O que realmente aconteceu foi que peguei empréstimos em dois bancos para pagar a dívida de campanha dos aliados e do PT. Isso é verdade. Está documentado, está provado. E por que essas despesas não foram contabilizadas? Porque já tinha passado o prazo de o TRE formalizar as despesas, e elas ficaram em campanha separada, como eles chamam. Peguei um dinheiro formal e mandei pagar aquelas despesas, e transformaram isso num escândalo chamado Mensalão, que depois virou a Ação Penal nº 470.
Nessa ação foi condenada toda a direção do PT: o presidente do partido, José Genoino; o secretário de Finanças, que era eu; o líder do Governo, que era o Professor Luizinho; condenaram o Paulo Rocha, que era líder da bancada do PT; o presidente da Câmara; e o principal ministro do governo, que era o da Casa Civil, comandada por José Dirceu.
Não satisfeitos, condenaram os aliados do PT na época: Valdemar da Costa Neto, que hoje todo mundo conhece e sabe onde está; o Bispo Rodrigues, que era o representante da Igreja Universal e era nosso aliado nesse período; o presidente do PP à época, Pedro Corrêa, entre outras pessoas.
O que realmente aconteceu foi que peguei empréstimos em dois bancos para pagar a dívida de campanha dos aliados e do PT. Isso é verdade. Está documentado, está provado. E por que essas despesas não foram contabilizadas? Porque já tinha passado o prazo de o TRE formalizar as despesas, e elas ficaram em campanha separada
Foi uma operação para desconstruir o PT e o governo. E, como foi julgado pelo Supremo Tribunal Federal, não tinha para quem recorrer. Eu cumpri a pena após ser condenado a 8 anos e 10 meses. Depois, ela foi reduzida para seis anos e oito meses, e segui a vida, mas foi um período muito cruel e solitário das nossas vidas. Para vocês terem uma ideia, Lula e eu saímos da prisão no mesmo dia.
Ton Paulo – Lula sai da prisão, retorna à elegibilidade, é o atual presidente da República e pré-candidato à reeleição. O senhor também retoma a vida pública e é pré-candidato a deputado federal por Goiás. O que levou o senhor a tomar essa decisão de tentar um mandato neste ano?
Eu tinha um processo de inexigibilidade aqui em Goiás, relacionado à minha licença sindical, e ganhei esse processo em dezembro de 2024. Muita gente vinha conversar comigo e perguntava se eu voltaria à política de frente, enquanto eu ajudava um e outro. Eu sou assessor do presidente da CUT. Na época, eu precisava de um emprego, já que, quando se vai preso, para se ter a progressão de pena, é preciso ter um trabalho e pagar as contas. Foi quando a CUT me convidou para trabalhar. Sou assessor da CUT até hoje, prestando serviço ao presidente.
Neste ano, decidi conversar com o presidente Lula sobre a possibilidade de ser candidato, e ele está de acordo com esse projeto.
Decisão do PT sobre o nome de Luis Cesar Bueno e possível aliança com Marconi Perillo
João Paulo Alexandre – Após uma longa espera, recentemente, o diretório do PT em Goiás lançou o nome de Luis Cesar Bueno como pré-candidato ao Governo do Estado. A escolha dele acabou agradando internamente?
Eu volto com a relatora. A relatora neste caso é a deputada Adriana Accorsi, que é a nossa presidente do PT em Goiás. Eu respeito o mandato que ela tem, pois não só apoiei como trabalhei para a eleição da Adriana em 2022. O que aconteceu? O diretor se reuniu e tomou essa decisão. Ela anunciou a decisão que o Luis Cesar é o pré-candidato do PT em Goiás.
O PT não é governo, e o governo não é PT. O PT é um dos partidos que integra o governo e é a sigla do presidente da República, sendo o partido de maior responsabilidade com o governo, assim como os outros também têm. O presidente Lula tem dito que quer um palanque forte, ou seja, que uma pessoa com maior densidade eleitoral do Estado seja o candidato. Aqui em Goiás, todo mundo sabe que nós temos, graças à generosidade do povo goiano e graças a Deus, duas pessoas muito importantes no nosso plano: que são a deputada Adriana Accorsi e a vereadora Aava Santiago (PSB), que poderiam liderar esse movimento. uma sendo governadora e outra senadora.

A indicação do Luis Cesar é importante, o partido vai conversar com o PT, com o PSB, com a nossa federação- PT, PC do B e PV, onde estamos fazendo a unificação com a Federação Psol e Rede. Nós estamos fazendo um trabalho junto com o PDT também. São vários partidos que vão se reunir e discutir. É importante a opinião das eleições nacionais desses partidos.
Obviamente, qualquer uma decisão que for tomada, eu vou trabalhar com muita firmeza. Hoje, o meu candidato é o Luis Cesar, mas pode mudar. Estamos conversando, o partido vai chamar a federação, vai chamar os aliados e vai apresentar o nome dele.
Ton Paulo – Dentre os caminhos percorridos pelo partido para escolher o nome do pré-candidato, o Jornal Opção apurou que poderia haver uma possível aliança com o ex-governador Marconi Perillo, que se apresenta como pré-candidato ao Governo de Goiás pelo PSDB. O senhor, inclusive, era apontado como um dos grandes entusiastas dessa hipótese. Esse diálogo com Marconi realmente existiu? Essa possibilidade acabou de vez com a escolha do nome de Luís César Bueno ou ainda é possível uma aliança com o membro tucano?
Na política, só se acaba quando se apura o último voto. A aliança só acaba quando terminam as convenções. Claro que ainda é possível uma aliança, que se concretiza quando duas instituições ou as pessoas que as comandam querem que ela aconteça.
Nós tivemos, em 2022, um processo em que queríamos uma aliança com o governador Marconi para que ele fosse candidato a governador. Ele não aceitou e quis ser candidato a senador. Nós dissemos a ele que, se quisesse apoiar o presidente Lula, a nossa federação retiraria a Denise Carvalho, que era candidata ao Senado até então. Ele não concordou em apoiar o Lula. Conclusão: faltaram, em média, 75 mil votos para ele ser eleito, e a Denise teve quase 300 mil votos. Ela teve uma votação boa, faltou pouquinho aqui, mas isso não resolveu nada. Ganhou o candidato de Jair Bolsonaro (PL), que era Wilder Morais (PL), sem tirar o mérito dele.
Neste ano, nós estamos trabalhando para ter uma aliança, um palanque forte. Nós temos um ex-governador de quatro mandatos. Colocamos para ele o seguinte: “Apoie o Lula que nós apoiaremos você aqui em Goiás para não repetir o erro de 2022.”
Ele perdeu e, mesmo com todas as divergências que tive com Marconi no passado, vejo que ele seria um senador mais assertivo do que Wilder Morais, mas isso não foi possível.
Nós estávamos trabalhando com essa vertente e ele deu uma entrevista para o Jornal Opção dizendo que essa possibilidade estava encerrada. Eu conversei com Marconi umas 15 vezes. Não tenho nenhuma vergonha disso. Eu sou um aliancista. Gosto de fazer alianças e acho importante uma aliança pró-Lula em Goiás, com o maior número possível de pessoas.
Neste ano, decidi conversar com o presidente Lula sobre a possibilidade de ser candidato, e ele está de acordo com esse projeto
Não só aquelas que concordam inteiramente com o nosso programa, mas também pessoas da democracia, que querem um país civilizado, que querem o progresso do Estado… Todas essas pessoas cabem no palanque do presidente Lula. E o governador Marconi cabe nisso, assim como vários empresários com quem conversei, como o grupo Jalles Machado.
Ton Paulo – Mas diversas lideranças ouvidas pelo Jornal Opção disseram que nunca houve nenhum aceno por parte de Marconi Perillo… O que ele falava para o senhor nessas conversas que tiveram?
As minhas conversas com ele começaram com o fim das eleições municipais, em 2024. A argumentação que ele deu a vocês, aqui do jornal, é que o PSDB nacional seria um partido de oposição ao presidente Lula e assim permaneceria. É uma opção de cada um.
Nesses mais de 50 anos em que estou vivendo essa experiência política, aprendi que a política não pode ser de ódio e não pode ter ressentimento ou inimigos; você tem adversários. Você tem os seus apoiadores e tem os seus concorrentes.
Um bom exemplo disso é que o principal adversário de Lula em 2006, na época da sua reeleição, foi Geraldo Alckmin. O principal aliado fora do PT naquele momento era o Valdemar da Costa Neto. Vocês viram como os papéis se inverteram: Alckmin veio para a Vice-Presidência e é um aliado firme de Lula, enquanto Valdemar é o presidente do principal partido de oposição ao presidente Lula. Quer dizer que ele é inimigo do PT? Não. Ele fez uma escolha partidária diferente da nossa e, olha, convivi com ele quatro anos na cadeia e nunca tivemos um atrito.
Quem trata a política como uma relação de inimigos não constrói uma sociedade. Um país só cresce quando há harmonia, quando todos marcham na mesma direção: empresários, trabalhadores, ONGs e governo. A eleição é um debate em que as pessoas decidem pelo voto, pela consciência política, não pelo grau de relação de força física.
Nesse projeto, Marconi Perillo seria um bom aliado, mas ele não quis. Se mudar de ideia, vamos discutir. Mas tem que mudar rápido, senão consolida a candidatura de Luís César, ou outra candidatura, caso os partidos nacionais assim resolvam.

O PT fez a sua parte: indicou um quadro com competência e capacidade, que é o ex-deputado Luís César Bueno, para candidato a governador. Agora, cabe aos partidos locais que apoiam a nossa federação e a nossa frente política nacional consolidar também o nome dele. Depois dessa fase, cabe aos partidos nacionais consolidar os dois candidatos ao Senado.
O PCdoB sugeriu o nome de Aldo Arantes, o PSB tem falado no nome da ex-deputada Isaura Lemos, o PDT também tem o nome de Carlos Mundim e o PV tem o nome de Ricardo Dias. Eu vejo que, se o PT tem um candidato a governador, é justo que a aliança indique os dois candidatos ao Senado, mas isso cabe ao PT, do qual eu não faço parte da direção.
Ton Paulo – O que tem de verdade na história de que o plano inicial era a indicação do nome de Flávio Faedo para ser vice de Marconi? Isso chegou a ser conversado?
Eu não participei dessas conversas. Mas o Faedo é um nome muito importante que o PT tem, vindo de um setor importante da economia do Estado de Goiás, que é o agronegócio. Seria bom se ele topasse uma candidatura. Mas ele não se sentiu em condições de ser candidato a governador, nem a senador, nem a vice. É uma opção dele. Ele é um filiado do PT de longa data, que tem muito respeito não só lá em Rio Verde, mas em todo o PT do Estado. E também por mim.
João Paulo Alexandre – Eu ainda quero continuar no assunto sobre a possível aliança com Marconi Perillo. Não há um receio do que ela pode provocar no eleitorado goiano, tendo em vista alguns episódios de investigação contra Marconi Perillo, como o caso do Jockey Club de São Paulo, no qual empresas de familiares dele teriam sido beneficiadas e que acabou sendo amplamente difundido aqui no Estado, somado ainda ao fato de o PT não ser um partido bem-quisto em Goiás?
Não podemos falar em receio se não há aliança. Eu acho que uma aliança com o governador Marconi é um “ganha-ganha”. Ele ganha por ter mais tempo de televisão, ganha respaldo político e o presidente Lula passa a ter um candidato que tem penetração nos 246 municípios, foi governador quatro vezes e conhece muita gente.
Agora, também, não depende do PT, do presidente Lula ou dos partidos aliados. Depende da orientação que o PSDB e o próprio Marconi queiram ter. Nós já descartamos essa fase. Eu disse com todas as letras que tudo aconteceu, que me reuni com o Marconi várias vezes e ele me disse: “Enquanto eu estiver na presidência do PSDB, não vai dar certo.” Depois, afirmou que tinha autonomia para decidir e, em seguida, deu uma longa entrevista ao Jornal Opção dizendo que o PSDB nacional não concordava, que sempre foi divergente do PT e que não podia fazer parte dessa aliança. Para mim, o assunto se encerrou ali.
Repito: a aliança que nós queríamos era para apoiar o presidente Lula aqui em Goiás e nós o apoiaríamos para o Governo do Estado. Até a entrevista concedida a vocês, ele não tinha dito que não concordava; alegava apenas que precisava estudar mais.
Se ele mudar de opinião, pode procurar o PT, que tem vários agentes com quem mantém uma boa relação, inclusive a presidente do partido, que foi diretora da Polícia Civil por indicação dele, em seu governo. Ou seja, ele tem total liberdade para conversar com a Adriana. E, no dia em que quiser conversar com o presidente Lula sobre o assunto eleitoral, Marconi será recebido, porque o presidente é um homem sem inimigos.
Ton Paulo – Mas a própria Adriana Accorsi, quando levantaram a hipótese da possibilidade da aliança, era bem taxativa ao dizer que o PT teria candidato próprio na cabeça de chapa. Caso Marconi Perillo faça um aceno positivo, o PT vai recuar da candidatura de Luís César Bueno?
São duas coisas diferentes: uma coisa é a posição da Adriana de maneira pessoal; outra coisa é ela enquanto presidente do partido. Neste segundo caso, ela foi instruída pelo diretório nacional do PT a conversar com o Marconi para saber se ele topava ou não uma aliança. Fizeram um acordo para lançar o professor Edward Madureira e ele e, mais à frente, ver o que seria feito. Mas, no caminho, não deu certo. Ele deu essa declaração e não tem mais o que fazer.
Aliança é igual casamento: se um ou outro não quer, não tem casamento. Acho que o Marconi é uma página virada, porque o momento não é mais para acenos. Ele pode fazer a avaliação que quiser e mudar de opinião, por isso a política não tem inimigos permanentes.
No momento, o cenário caminha para o PT ter uma candidatura própria ou de um aliado. Por que a Aava não pode ser a candidata a governadora, se o PSB e os partidos nacionais decidirem? Afinal, o partido está com a Vice-Presidência, e quem é o maior nome que ele tem hoje aqui no Estado? Por que não pode ser a Adriana?
Para fortalecer a chapa nacional, o PSB não tem que dar a sua contribuição? O PT não tem que dar a sua contribuição? As duas pessoas mais cotadas e mais importantes para a candidatura, neste momento, seriam elas.
João Paulo Alexandre – Como o presidente Lula tem visto o palanque aqui no Estado?
Ele vai chamar os presidentes de partidos da aliança para discutir. coincidentemente, Aava é presidente do PSB e a Adriana é presidente do PT. Então serão convocadas e serão discutidas. E qual a decisão que vai ter? Cabe a todos. Não cabe a mim. E eu voto com a relatora. O que a Adriana disser que é para fazer, eu vou fazer.
Na política, só se acaba quando se apura o último voto. A aliança só acaba quando terminam as convenções. Claro que ainda é possível uma aliança, que se concretiza quando duas instituições ou as pessoas que as comandam querem que ela aconteça
Ton Paulo – Todo candidato que se coloca quer chegar ao segundo turno, mas, como o senhor disse, tudo pode acontecer na política. Em um eventual cenário em que os dois candidatos sejam Daniel Vilela e Marconi Perillo, quem o PT irá apoiar?
Tem que esperar o segundo turno. Não se discute o segundo turno antes do segundo turno. Não tem jeito de discutir. Se você começa a discutir o segundo turno, se apoia o A ou apoia o B, tira o respaldo do seu candidato. Se nós lançarmos um candidato, vamos disputar. Podemos até não ter força para ganhar, mas quem vai decidir são os eleitores goianos. Essas pessoas vão definir quem vai para um eventual segundo turno. Não tem eleição ganha e também não tem eleição perdida.
Ton Paulo – E quais são os seus nomes para o Senado?
Eu voto com o relator (risos). Como eu não estou no diretório estadual — já fui dirigente muitas vezes, inclusive no diretório nacional —, faz parte dos atuais dirigentes tomarem essa decisão. Como nós somos um partido presidencialista, o que o presidente decidir eu vou acatar.
Ton Paulo – E essa reunião já foi marcada?
Até onde eu saiba, não. É uma pergunta que deve ser feita para a nossa presidente, porque é ela quem sabe de tudo isso.
João Paulo Alexandre – O seu nome chegou a ser cogitado para essa vaga de pré-candidato ao Governo de Goiás?
Não. Eu acho que tem pessoas com melhor estrutura política do que eu. Tem gente que tem mandato e uma estrutura maior do que quem não tem mandato. Eu estou retornando agora a uma disputa política eleitoral, corpo a corpo. Fiquei 40 anos na política nacional e 20 deles com muita dificuldade, dos quais oito com restrição de liberdade. Eu sei o tamanho do meu pé e o tamanho das minhas pernas.
Já estou muito honrado e espero que o partido aprove a minha pré-candidatura na convenção. Tenho muita humildade para colocar meu nome à disposição do partido como pré-candidato a deputado federal, para ajudar a intensificar a campanha do presidente Lula em Goiás e fortalecer nossa bancada. Só tem voto e só ganha quem tem candidatos. Temos vários candidatos, e eu vim para somar com eles.

Reflexo do partido em Goiás e na economia nacional
João Paulo Alexandre – Levando essa sua expertise de 40 anos de vida pública, queria que o senhor fizesse uma avaliação de como o PT pode ser mais competitivo aqui no Estado.
Há um mito de que Goiás é um estado conservador. Eu faço uma reflexão muito longa sobre a história da construção da esquerda no Brasil para chegar onde chegamos. Hoje, pode-se dizer qualquer coisa, mas o PT, em todas as eleições presidenciais que disputou de 1989 para cá, esteve em primeiro ou em segundo lugar. Em 1989 foi o segundo colocado, em 1994 o segundo, em 1998 o segundo, em 2002 o primeiro, em 2006 o primeiro, em 2010 o primeiro, em 2014 o primeiro, em 2018 o segundo e, em 2022, o primeiro colocado. Então, a sociedade brasileira tem dado ao PT a oportunidade de governar.
Na primeira eleição, o PT teve bastante voto no Sul e no Sudeste e pouco voto no Nordeste. Com o tempo, a situação se inverteu: o PT passou a ter muito voto no Nordeste e menos voto no Sudeste. Essa é uma realidade. No Centro-Oeste, o PT sempre teve menos votos do que os seus adversários: menos votos que Fernando Collor de Mello, que Fernando Henrique Cardoso, quase empatou com José Serra, teve menos votos que Geraldo Alckmin, menos votos que Aécio Neves e menos votos que Jair Bolsonaro nas duas últimas eleições.
Aqui no Estado, o PT já teve a oportunidade de governar as duas maiores cidades, Anápolis e Goiânia, e fez um bom governo. Não teve continuidade por uma série de razões que não cabe discutir agora, porque estamos em um momento eleitoral. Esse é um debate para outro momento.
Obviamente, qualquer uma decisão que for tomada, eu vou trabalhar com muita firmeza. Hoje, o meu candidato é o Luis Cesar
Agora, o PT é um partido competitivo. Na última eleição, nós tínhamos um deputado e elegemos dois. Tínhamos um vereador na cidade de Goiânia e passamos a ter três parlamentares na capital, com todas as dificuldades que o PT sempre enfrentou. E houve um massacre contra o partido.
Como eu disse a vocês no começo da entrevista, prenderam o presidente, o secretário de Finanças, destituíram o presidente e prenderam o maior líder do partido. Isso causa um impacto muito negativo perante a sociedade para qualquer um. Só o tempo é capaz de reconstruir isso.
João Paulo Alexandre – O senhor trouxe algumas medidas tomadas pelo ministro Fernando Haddad na época em que ele esteve no Ministério da Economia. Por que os principais segmentos que movem a economia no Brasil, como o agronegócio e os serviços, alegam que a situação econômica não melhorou e citam ainda a questão da insegurança jurídica por diversas mudanças de cunho fiscal?
Você já viu o principal acionista do Itaú falar mal do Lula? Você já viu o presidente do Bradesco falar mal do presidente Lula? Você já viu a família que reúne alguns dos maiores empresários de Goiás, que é a família Batista, falar mal do Lula? Já viu o Zé Garrote falar mal do PT ou falar mal do Lula? O maior acionista aqui da Caramuru, que é o Alberto, fala mal? Quem fala mal?
Todas as grandes empresas brasileiras ganharam ou perderam dinheiro com o Lula? O agronegócio ganhou ou perdeu dinheiro com o Lula? Todos ganharam.
Quando nós assumimos a Presidência da República eram 60 milhões de toneladas. Hoje são quase 400 milhões de toneladas de grãos produzidos no Brasil. Eram 125 milhões de toneladas de cana. Hoje são 750 milhões. Vocês conhecem algum industrial, algum dono de terra que quebrou nesse período? Conhecem algum dono de concessionária que quebrou nesse período? A economia brasileira cresceu, cresce todos os dias, e quem ganha é quem tem mais poder econômico.
Eu conversei com Marconi umas 15 vezes. Não tenho nenhuma vergonha disso. Eu sou um aliancista. Gosto de fazer alianças e acho importante uma aliança pró-Lula em Goiás, com o maior número possível de pessoas
O que o governo tem feito? Não tem atrapalhado os ricos e tem ajudado os mais necessitados. E ainda tem que fazer mais, porque ainda está fazendo pouco. Ainda tem gente sem casa própria, morando na lona, sem terra para trabalhar, pessoas vivendo em acampamentos urbanos, crianças sem acesso à escola e sem acesso à tecnologia.

Por que um postinho de saúde não pode ter os mesmos equipamentos do Albert Einstein e do Sírio-Libanês? Todas essas coisas têm que mudar, e muita gente necessitada não tem a compreensão política disso e acaba falando mal do PT. Mas é tudo fake news. Uma mentira contada várias vezes não vira verdade, mas atrapalha a vida das pessoas.
João Paulo Alexandre – O senhor citou diversos benefícios associados ao PT, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. Em Goiás, o governador Ronaldo Caiado implantou alguns programas sociais, como o Cartão Mães de Goiás, o programa Casas a Custo Zero e o Bolsa Estudo. O senhor acha que esses programas foram inspirados nos benefícios nacionais?
Eu não tenho condição de afirmar. Agora, todos os benefícios voltados aos mais necessitados são importantes, não importa de onde venham. Todos os brasileiros têm que ter o mesmo direito à alimentação, à moradia, à educação, à saúde e ao transporte.
Aqui, o governo Ronaldo Caiado tem a capacidade de pegar os programas nacionais e transformá-los como se fossem dele. O BRT é um desses exemplos. O BRT foi feito todo com dinheiro federal, e quem fez a propaganda do BRT foi o governo estadual.
O governo está errado? Está, do ponto de vista de não respeitar quem está garantindo o benefício. Agora, se o governo federal não consegue mostrar as dificuldades que enfrenta e a hostilidade que sofre em Goiânia, o governo estadual acaba se apropriando dessas imagens. Aí é uma esperteza política, mas uma hora a cobrança chega.
Reforço que não tenho nada contra o benefício em si. Pelo contrário. Eles pegaram o Pé-de-Meia e acrescentaram um pouco mais. Isso é ótimo. Mas, na prática, parece que não existe o programa federal em Goiás, apenas o programa da Secretaria da Educação.



