“O tema não pode ser decorado”: professora revela como assunto é escolhido, alerta sobre repertórios prontos e dá dicas para a redação do Enem
18 setembro 2026 às 19h35

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O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) mobiliza milhões de estudantes todos os anos e, entre todas as etapas da prova, a redação costuma concentrar algumas das maiores expectativas. Muito antes de o candidato abrir o caderno e descobrir o assunto sobre o qual terá de escrever, porém, a escolha do tema passa por um processo criterioso, que reúne especialistas de diferentes áreas, análise de questões atuais e relevantes para o país e regras rigorosas de sigilo.
Ao Jornal Opção, a professora de redação, escritora e fundadora da Cris Oliveira – Tudo de Texto, Cris Oliveira, explicou os bastidores dessa escolha, quais critérios são considerados na definição da proposta e por que estratégias comuns entre os candidatos, como tentar prever o tema ou recorrer a repertórios prontos, podem não funcionar na hora da prova.

Como o tema da redação é escolhido
Segundo a professora, a escolha do tema é feita por especialistas selecionados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). “São professores, mestres, doutores que estão envolvidos na elaboração desses temas. Eles são estudados minuciosamente conforme as necessidades que nós temos no nosso país”, afirmou.
Ela explicou que os temas são pensados para avaliar se o candidato consegue compreender e discutir problemas presentes na sociedade brasileira. As propostas são construídas a partir de diferentes eixos temáticos, como questões sociais, educação e direitos humanos. “Normalmente, os temas não se repetem”, completou.
De acordo com Cris, os profissionais envolvidos na elaboração são pesquisadores e especialistas que atuam em diferentes áreas e acompanham questões contemporâneas.
“São pesquisadores, professores, especialistas, por exemplo, nas questões climáticas que envolvem o país. Por exemplo, como combater o problema das queimadas, como garantir os direitos das mulheres que atuam diretamente na economia do cuidado, como garantir que a população idosa possa ser ressignificada dentro da própria sociedade”, disse.
Sigilo envolve contratos de confidencialidade
Sobre o sigilo que envolve a escolha, a professora destacou que o processo exige uma estrutura rigorosa de segurança. Segundo ela, quem participa da elaboração precisa seguir regras de confidencialidade para evitar qualquer vazamento antes da aplicação da prova.
“É a maior prova e o maior exame do país. Então, ele envolve uma logística gigantesca. As pessoas têm que assinar contratos de confidencialidade. A empresa responsável pela impressão e distribuição também assina contratos. Se eu participo da elaboração da prova, eu vou ficar fechada num hotel no dia em que a gente vai fazer o fechamento da escolha desse tema para que não haja nenhum tipo de vazamento. Qualquer falha pode impactar milhões de candidatos”, explicou.
Os critérios de definição do tema também foram detalhados pela especialista. Segundo Cris, as propostas costumam partir de problemas e debates relevantes para o país.
“Os critérios de escolha são sempre voltados para um olhar dos problemas, das questões que são pertinentes ao país. Por exemplo, nós temos hoje a questão das redes sociais que impactam a vida de milhões no Brasil. Como as redes sociais podem impactar num comportamento relativo ao vício desse sujeito, como regular que crianças não tenham acesso a conteúdos inadequados. Cada tema é pensado dentro de um eixo social, ambiental, político, econômico ou cultural”, afirmou.
Tema não pode ser simplesmente decorado
A professora também abordou os mitos que cercam a redação, especialmente a ideia de que seria possível antecipar a proposta ou utilizar uma estrutura previamente decorada independentemente do assunto apresentado.
“Não faz sentido acreditar que o tema é político ou que ele pode ser decorado. Muitos candidatos ficaram impactados com as notas que receberam porque tiravam sempre 800, 900 e receberam notas muito baixas. Houve uma medida para evitar que os candidatos ficassem viciados em repertório de bolso, estrutura modelo, frase modelo. O tema do Enem não pode ser decorado. A gente precisa pensar atualidades, pensar o contexto, o cenário brasileiro e refletir a respeito delas”, disse.
Cris exemplificou como determinados acontecimentos podem servir de ponto de partida para discussões mais amplas, em vez de aparecerem diretamente como tema.
“Um tema como Copa do Mundo é pouco provável, mas pode ser que caia algo a respeito de como esses eventos deixam um legado para o Brasil, quais são os desafios para manter este legado de pé, a construção de estádios, o dinheiro investido nisso e se vai trazer algum benefício para a população em longo prazo”, explicou.
Para a professora, o candidato precisa desenvolver uma visão reflexiva e criteriosa sobre os assuntos que fazem parte da realidade brasileira.
“Ele precisa se preparar para ter condições de fazer uma prova que não seja uma redação de bolso, aquela que a gente copia da internet e traz pro texto, porque ele vai perder autoralidade e nota nos critérios de argumentação e proposta de intervenção”, afirmou.
Modelos prontos podem prejudicar a nota
Cris também destacou mudanças recentes na correção da redação do Enem e explicou como o uso de estruturas e repertórios prontos pode prejudicar o desempenho.
“Muitos alunos se veem desesperados porque têm dificuldade com a estrutura. A estrutura do texto dissertativo-argumentativo é clássica: introdução, desenvolvimento e conclusão. O problema é copiar frases, copiar repertório chamado de bolso e trazer para o texto sem articulação. Isso tem sido fortemente penalizado pela banca”, afirmou.
Segundo ela, o exame busca avaliar o pensamento crítico e a capacidade do candidato de desenvolver uma argumentação própria. “Existem muitos mitos por aí envolvendo o Enem. Um deles é de que basta decorar repertórios e eles vão caber em qualquer tema. Não funciona assim”, completou.
A professora exemplificou como frases previamente decoradas podem perder força quando não estabelecem uma relação efetiva com a discussão proposta.
“Decoraram que o Thomas Hobbes disse que ‘o homem é o lobo do homem’. Vai caber em todo texto? Não, não cabe. Apesar de ser uma frase muito aberta, é justamente por ela ser aberta que ela é generalista. Ela não vai articular efetivamente, por exemplo, no ano passado, em que o tema foi ‘Perspectivas a respeito do envelhecimento da população brasileira’”, explicou.
Segundo Cris, referências culturais e exemplos contextualizados são mais produtivos do que frases prontas utilizadas apenas para cumprir a exigência de repertório.
Quais assuntos podem aparecer
Sobre os eixos temáticos recorrentes, Cris Oliveira destacou que as propostas costumam estar relacionadas a grandes áreas sociais.
“Nós temos como eixo meio ambiente, questões sociais e cidadania, saúde e ciência, arte e cultura, educação, direitos humanos e inclusão social. Esses são os eixos em que os temas de redação do Enem costumam girar. Se fizermos um levantamento dos últimos dez anos, todos esses temas de alguma forma foram solicitados”, disse.
Ela citou como exemplos propostas relacionadas à garantia educacional para pessoas surdas, à democratização do acesso à arte e à cultura e à situação de pessoas que não possuem documentação civil.
A professora ressaltou ainda que o repertório utilizado na redação deve ser resultado da formação do próprio estudante, e não apenas de uma seleção de citações memorizadas às vésperas da prova.
“Repertório não pode ser repertório coringa. O repertório é aquele que o candidato adquire ao longo de sua formação. Nas aulas de Sociologia, Filosofia, História, Matemática, uma ida ao cinema, um bom livro, uma boa leitura, conhecer os dados sociais do país, ir ao teatro, ouvir uma boa música. Tudo isso é repertório. Isso sim vira repertório e vira um repertório muito rico, que pode elevar profundamente a nota da redação”, afirmou.
Segundo ela, essas referências podem aparecer tanto na contextualização da introdução quanto nos parágrafos de desenvolvimento, desde que estejam efetivamente relacionadas à argumentação construída pelo candidato.
Uma redação por semana pode ajudar na preparação
Ao final, Cris Oliveira ressaltou a importância de praticar a escrita regularmente e de não concentrar a preparação apenas na busca por repertórios.
“O aluno deve se preparar fazendo redações, pelo menos uma por semana, tendo a correção de um especialista para verificar se está no caminho certo. É muito importante reescrever essa redação e prestar atenção à parte gramatical e à estrutura frasal. Muitas vezes ficamos muito no repertório porque é a grande preocupação dos candidatos, mas é importantíssima a atenção à parte ortográfica, de acentuação, pontuação, regências, concordâncias, colocação pronominal e, principalmente, à estrutura frasal, porque ela tem que trazer clareza e objetividade”, disse.
Para a especialista, a preparação para a redação passa menos pela tentativa de adivinhar qual será o assunto da prova e mais pela capacidade de acompanhar questões atuais, construir repertório ao longo da formação e desenvolver argumentos próprios. A prática constante, aliada à revisão dos textos, permite ao candidato chegar ao Enem preparado para lidar com diferentes propostas sem depender de fórmulas prontas.
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