Em meio à dor, família autoriza doação de órgãos de bebê de 29 dias e protagoniza caso inédito em Goiás
18 setembro 2026 às 18h52

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Pela primeira vez em Goiás, os órgãos de um recém-nascido de apenas 29 dias foram captados para transplante. O procedimento foi realizado na quinta-feira, 17, em Rio Verde, após a confirmação da morte encefálica do bebê, que estava internado na UTI Neonatal do Hospital Unimed Rio Verde. Com a autorização da família, os rins foram captados por uma equipe especializada e encaminhados para transplante em um paciente compatível de outro Estado.
Ao Jornal Opção, o diretor-presidente da Unimed Rio Verde, Dr. Márcio Emrich Campos, explicou que a realização do procedimento exigiu uma estrutura preparada para situações de alta complexidade, além da atuação integrada entre as equipes do hospital e os profissionais responsáveis pela captação. Ele destacou, sobretudo, a decisão da família de autorizar a doação em meio à perda do recém-nascido.
“Primeiramente, eu gostaria de ressaltar a generosidade da família. Em um momento tão difícil como esse, ainda ter essa superioridade espiritual de fazer a doação dos órgãos de um recém-nato”, afirmou.
De acordo com Campos, a equipe de captação foi acionada depois da confirmação da morte encefálica e da autorização familiar. Como os órgãos precisam ser preservados adequadamente após a constatação da morte encefálica, a atuação ocorreu de forma rápida e coordenada.
“O captador, de imediato, já que a família, na sua grandiosidade, autorizou a captação, trouxe a equipe especializada para poder fazer a realização desse procedimento”, explicou.
Estrutura preparada para casos de alta complexidade
Embora a captação de órgãos de um recém-nascido seja considerada uma situação extremamente rara, Campos afirma que hospitais de alta complexidade precisam estar preparados para responder também a ocorrências excepcionais.

A unidade possui centro cirúrgico equipado e profissionais especializados, incluindo equipes de anestesia e assistência neonatal. Para o diretor-presidente, a estrutura desenvolvida ao longo dos 11 anos de funcionamento da instituição foi fundamental para que o procedimento pudesse ocorrer com segurança.
“Desde que nós o fundamos, há 11 anos, nós sempre buscamos segurança e qualidade assistencial. O corpo clínico vem se diferenciando também em alta especialização. No centro cirúrgico, ele é totalmente adequado, especializado”, disse.
Campos ressaltou ainda que os equipamentos utilizados no atendimento neonatal precisam ser compatíveis com pacientes de dimensões e condições clínicas específicas.
“É uma estrutura que foi montada, trabalhada e lapidada ao longo dos anos. Então, é um orgulho para nós, do Hospital Unimed Rio Verde, ter tido a oportunidade de participar desse gesto de benevolência espiritual que a família teve”, afirmou.
Família recebeu acompanhamento durante o processo
A decisão pela doação ocorreu após o acolhimento e a orientação dos familiares. Segundo Campos, o hospital conta com psicólogos e profissionais especializados para prestar assistência em situações de perda e também em cuidados paliativos.
Na UTI Neonatal, a equipe responsável pelo atendimento acompanhou a família durante o processo e forneceu as informações necessárias para a tomada de decisão.
“Nós temos psicólogos especializados tanto na área infantil quanto na área adulta. Temos equipes para cuidados paliativos para que a gente possa dar todo o suporte. Temos uma equipe já preparada para trazer esse momento de dor e conversar com a família, prestar todo esclarecimento”, explicou.
Para o médico, esse acolhimento é especialmente importante diante da complexidade emocional envolvida na decisão de autorizar a doação de órgãos de um recém-nascido.
Procedimento é considerado extremamente raro
A captação realizada em Rio Verde é considerada inédita em Goiás. Segundo Campos, nos cerca de sete anos de funcionamento da UTI Neonatal do hospital, esta foi a primeira ocorrência desse tipo registrada na instituição.
“Muito raro. Nesses 11 anos que nós temos, mais ou menos sete anos que a UTI está funcionando, é a primeira vez”, afirmou.

A Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO) também confirmou que o procedimento foi o primeiro registro de captação de órgãos de um bebê de 29 dias no Estado.
A doação de órgãos por recém-nascidos e crianças é considerada rara devido à baixa ocorrência de casos elegíveis para captação e aos critérios específicos de compatibilidade entre doador e receptor. Neste caso, os rins foram destinados a um paciente compatível que aguardava por um transplante em outro Estado.
Goiás tem mais de 2,5 mil pessoas na fila por transplantes
Dados da Central Estadual de Transplantes apontam que 2.585 pessoas aguardam atualmente por um transplante em Goiás. Desse total, 1.807 esperam por uma córnea, 757 por um rim, sete por um fígado, três por um pâncreas e 11 por transplante conjugado de pâncreas e rim.
A autorização familiar é necessária para a doação de órgãos após a morte no Brasil. Em Goiás, 66% das famílias entrevistadas não autorizam a doação, segundo dados da Central Estadual de Transplantes.
Por isso, profissionais da área reforçam a importância de conversar previamente com os familiares e manifestar em vida o desejo de ser doador.
O procedimento realizado em Rio Verde ocorre durante o Setembro Verde, mês dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos. No dia 27 de setembro, é celebrado o Dia Nacional da Doação de Órgãos, data voltada à divulgação de informações e ao incentivo do diálogo entre familiares sobre a decisão de doar.
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