Não há inocência em política. Por isso, a qualificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, à revelia do governo do Brasil, tem um subtexto não vulgarizado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Assim como a posição do governo do presidente Lula da Silva, temendo pela soberania nacional, nada tem de tão nacionalista assim.

O que está realmente em jogo é a disputa eleitoral de 4 de outubro deste ano. Trump mantém certa sintonia com Lula da Silva, do PT, mas não é seu aliado político.

36ddce5f-donald-trump
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos: o xerifão do mundo | Foto: Reprodução

Trump joga com o brasileiro tendo em vista mais economia do que política e ideologia. O americano do norte pensa em terras raras e em manter o Brasil relativamente fora da órbita da China. Esta, sim, é o grande perigo para o país de William Faulkner, Henry Kissinger e Joyce Carol Oates.

A rigor, Trump é aliado dos Bolsonaros — tanto de Jair quanto de Flávio Bolsonaro. Há uma sintonia tanto ideológica — são de direita — quanto em termos de economia. Os Bolsonaros são mais cediços aos Estados Unidos do que Lula da Silva.

As máfias atuantes nos Estados Unidos

Sabe-se, entre os bem-pensantes dos Estados Unidos, que o PCC e o CV, embora atuem no país de Abraham Lincoln e Toni Morrison, não têm a mesma força de outros grupos criminosos que, há décadas, são responsáveis pelo tráfico de drogas e violência extremada.

O país que agora descobriu o PCC como o Coisa-Ruim e o CV como o Cramulhão (para lembrar Guimarães Rosa) é relativamente leniente contra outras organizações criminosas que atazanam vida dos americanos? Leniente talvez não seja o mote justo. Mas o fato é que alguns grupos operam nos Estados Unidos, com certa desenvoltura, e o governo, com suas várias polícias e agências de Inteligência, não consegue erradicá-los. São “tumores” históricos.

IMG_5523
Lula da Silva: o presidente vai explorar, contra o trumpismo do senador Flávio Bolsonaro, a questão da defesa da soberania | Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

Mesmo relativamente enfraquecida, a Cosa Nostra — aquela do filme “O Poderoso Chefão”, que atua entre a Itália (na Sicília) e os Estados Unidos — permanece proativa no país gerido por Trump.

A Máfia Russa (crime financeiro, extorsão e fraudes) talvez seja tão forte na Rússia de Vladimir Putin quanto nos Estados Unidos de Trump. Por isso eventualmente aparece em filmes americanos. Não é, porém, ficção.

As Tríades Chinesas e a Yakuza japonesa (lavagem de dinheiro, extorsão e tráfico internacional) são onipresentes nos Estados Unidos.

O tráfico de drogas nos Estados Unidos é controlado, em larga medida — muito mais do que pelo PCC e pelo CV —, pelas máfias mexicanas, como o Cartel de Sinaloa e o Cartel de Jalisco Nova Geração.

Há outros grupos, como gangues de rua, altamente violentos — traficando drogas, extorquindo e assassinando.

Por que, ao narrar a história do projeto de Trump para criminalizar o PCC e o CV como organizações terroristas, a imprensa brasileira não discutiu o que se apresentou acima? Não dá para saber.

G7lClAZWsAErB6T
Flávio Bolsonaro: alinhamento com Trump pode ser positivo ou negativo | Foto: reprodução/redes sociais

A hora da geopolítica e segurança

Por que, de repente, a preocupação com o PCC e o CV, se ainda não são dominantes no mercado americano de drogas? Política, estúpido. Geopolítica, estúpido. É o que diria James Carville.

Critica-se muito a CIA, dada suas manipulações, mas a agência de Inteligência dos Estados Unidos fornece material de primeira linha para o governo. Por isso, Trump sabe que segurança é, ao menos no momento, o tema decisivo para a disputa presidencial brasileira (o óbvio, dizia Darcy Ribeiro, precisa ser dito e redito para se tornar óbvio).

Segurança é o tema que pode tornar Lula da Silva mais vulnerável. Por isso, Trump, com o apoio de Flávio Bolsonaro, decidiu apressar a caracterização do PCC e do CV como organizações terroristas. O que deixa o governo do petista-chefe numa saia-justa.

Lula da Silva está realmente preocupado com a soberania nacional? Talvez sim. O mais provável é que teme o poderio de Trump não contra o país em si, e sim contra seu governo.

O exemplo de Nicolás Maduro, que bravateava que era invencível, é uma prova de que é relativamente fácil “sequestrar” um presidente de uma nação livre e soberana e levá-lo para ser julgado nos Estados Unidos. O próximo pode ser Raúl Castro, o potentado de Cuba? É possível.

Nicolás maduro preso 333
Nicolás Maduro: o fantasma de Nicolás Maduro assusta na América Latina | Foto: Reprodução

O mesmo poderia acontecer com Lula da Silva? Muito difícil. Primeiro, porque o presidente nada tem a ver com os cartéis da droga, como PCC e CV. Então, não há como acusá-lo de nada. Não há provas nem mesmo de leniência. E mais: trata-se de um democrata de esquerda, sem vocação para ditador.

Segundo, o Brasil é uma potência global, entre as 11 mais ricas do mundo. Portanto, qualquer tentativa de ferir sua soberania poderia ser danosa para os Estados Unidos. Poderia, inclusive, robustecer a ligação do país de Lula da Silva com a China e com a Rússia. Além, possivelmente, com países europeus, como a Alemanha e a França.

Em 1964, o governo de Lyndon Johnson cogitou invadir o Brasil para apoiar o golpe de Estado articulado por militares, como Castello Branco e Golbery do Couto e Silva, e civis, como Magalhães Pinto e Carlos Lacerda. Não precisou.

O golpe foi mesmo made in Brazil. Os militares derrubaram o presidente João Goulart, Jango, sem que houvesse nenhuma reação substancial.

Castello Branco e Lincoln Gordon foto reprodução
Castello Branco, general-presidente e primeiro ditador, e Lincoln Gordon, embaixador dos Estados Unidos: conspiração pública contra o Brasil em 1964 | Foto: Reprodução

Retomando a questão da saia-justa. Lula da Silva corre o risco, se rejeitar o projeto de Trump, de parecer defensor do crime organizado.

É óbvio que Lula da Silva não defende o crime organizado. Porém, nos seus primeiros três anos de governo, manteve-se relativamente letárgico em relação ao PCC, ao CV e outras ditas facções (a denominação facção ficou defasada e deveria ser substituída por máfia).

Entre o fim de 2025 e o início de 2026, o governo de Lula da Silva se tornou mais proativo no combate ao crime organizado. Porque, tudo indica, planeja “tomar” da direita o discurso da segurança.

Se ficar contra a “lei” de Trump, mesmo falando em defesa da soberania nacional — que, sim, precisa ser defendida  (como no caso do tarifaço de Trump e na questão do PIX) —, Lula da Silva corre o risco de entregar, de bandeja, o tema segurança para as direitas. (Pré-candidato a presidente da República pelo PSD, Ronaldo Caiado tem um discurso, reforçado pela prática — combateu o crime organizado em Goiás de maneira tenaz e eficiente —, poderoso sobre segurança. O tema é praticamente “seu”, ao menos no momento.)

Intervenção e soberania

A reportagem “Estados Unidos decidem classificar CV e PCC como organizações terroristas”, assinada por Paulo Assad e Kaio Magalhães, em “O Globo”, contém análises relevantes sobre a questão da cidadania.

Professor da ESPM, Ghunter Rudzit sublinha que, “neste momento, a classificação [do PCC e do CV como organizações terroristas] não tem impacto direto na soberania do Brasil”, e sim nas instituições bancárias que operam nos Estados Unidos.

“Não vejo [possibilidade] de nenhuma ação militar contra essas organizações aqui no Brasil porque o Brasil não é um país pequeno, um país qualquer. Veja o sistema financeiro nosso tendo as maiores consequências”, frisa Ghunter Rudzit.

O mestre da ESPM nota que há fintechs “ligadas ao crime organizado, principalmente ao PCC”.

Professor da Florida International University, Guilherme Casarões posiciona-se de outra maneira. A medida de Trump, que entrará em vigor já em junho, “não traz nenhuma solução concreta para lidar com as facções, mas abre a possibilidade de uma interferência unilateral dos EUA em território brasileiro”.

Professor da Universidade de Michigan, Michael Traugott disse à repórter Isabella Menon, da “Folha de S. Paulo”, que, sim, é possível uma interferência do governo Trump no Brasil.

Porém, o especialista em crime transnacional Douglas Farah, postula que a designação das máfias tropicais como terroristas “não abriria automaticamente caminho para operações americanas em território brasileiro”.

Douglas Farah pontua que a medida de Trump corre o risco de banalizar o uso da categoria terrorismo. “Se tudo passa a ser classificado como organização terrorista, nada mais é de fato terrorismo.”

O que é terrorismo? “A versão mais aceita internacionalmente é a que o classifica como uma ação violenta deliberada contra civis que tem por objetivo intimidar a população ou o governo, normalmente em associação a uma causa política e/ou religiosa”, assinala a “Folha de S. Paulo”.

Resta saber, ante a potência do crime organizado — que inclusive está se aliando com políticos no Brasil —, se a definição deve se tornar mais abrangente. Porque tudo muda, até os conceitos e definições.

Do ponto de vista eleitoral, qual narrativa, a da esquerda ou a da direita, vai prevalecer entre os brasileiros no dia 4 de outubro de 2026? O que se sabe, como disse o cantor, é que as coisas no Brasil podem mudar num instante. O forte de hoje pode ser o fraco de amanhã. Assim como o fraco de hoje pode ser o forte de amanhã.