Não há a menor dúvida de que Lula da Silva é uma raposa política — tanto que se elegeu presidente da República três vezes e tem chance de se reeleger este ano. O petista-chefe, que confia desconfiando — regra basilar dos verdadeiros políticos —, derrapou ao não conseguir a indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. Deram-lhe uma rasteira federal, como se dizia nos tempos dos hábeis Tancredo Neves e Ulysses Guimarães.

Ainda assim, vale o óbvio: Lula da Silva é uma das raposas mais felpudas da política patropi. Por isso, ao contrário dos radicais do PT — que parecem viver em Marte, e não no Brasil real —, o veterano petista, de 80 anos, sabe, por intuição (não se deve perdê-la) e pesquisas quantitativas e qualitativas, que, para tentar ser reeleito, precisa conquistar parte, ainda que pequena, do eleitorado conservador.

Lula da Silva com evangélicos Foto Ricardo Stuckert
Lula da Silva com um grupo de evangélicos | Foto: Ricardo Stuckert/Presidência

A esquerda trata, por vezes, o eleitorado conservador como de extrema direita e, até, fascista. Lula da Silva sabe que tal julgamento é precipitado, sobretudo por não perceber fissuras entre os conservadores.

Parte dos evangélicos caminha com Lula da Silva, e não deixou de ser conservadora nem de direita. Só avalia que o petista não é o “monstro comunista” demonizado pela extrema direita. O petista é cristão-católico e talvez seja menos progressista do que muitos, sobretudo a esquerda universitária, daqueles que o apoiam.

A máxima de que é preciso “dividir para reinar” está na ordem do dia. Porque, se não operar para dividir os conservadores, ao menos parte, Lula da Silva poderá ser derrotado por um candidato da direita: Flávio Bolsonaro (direita e extrema direita), Ronaldo Caiado (direita e centro-direita) ou Romeu Zema (direita e centro-direita).

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Flávio Bolsonaro: pré-candidato a presidente pelo PL | Foto: Carlos Moura/Agência Senado

No primeiro turno, a direita irá dividida — Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) —, o que, por certo, vai garantir o segundo turno.  Na disputa final, Lula da Silva terá pela frente um rival da direita. No debate, pode “engolir” o filho de Jair Bolsonaro, mas terá dificuldade com os ex-governadores de Goiás e de Minas Gerais, que são mais experimentados administrativa e politicamente.

Conservador decide eleição de 2026

Na reportagem “Longe dos estereótipos: pesquisas exclusivas mostram retrato fiel dos conservadores brasileiros”, assinada por Ricardo Ferraz e Rayssa Motta, a revista “Veja” mostra que os conservadores são examinados, às vezes, com lupa equivocada. É preciso observá-los por meio de uma visada distanciada, nuançada e sem preconceito.

Para a feitura da reportagem, a “Veja” trabalhou com pesquisas dos institutos Vetor Arrow (fez 2413 entrevistas) e Quaest.

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Ronaldo Caiado: ex-governador de Goiás e pré-candidato a presidente pelo PSD | Foto: Divulgação

Os conservadores são 53% dos brasileiros — basicamente, evangélicos e católicos. Frise-se: não deve entender que conservadores são “atrasados”, porque pode ser uma avaliação equivocada. “Essa turma se mostra muito mais disposta a dialogar com o presente do que retroceder algumas casas no tabuleiro da história”, frisa a revista.

O CEO do instituto Quaest, Felipe Nunes, é certeiro: “Quem quiser levar a faixa presidencial terá de mostrar que entende, respeita e conversa com quem tem essa visão de mundo”. Não se ganha uma eleição só com a esquerda, ou seja, com os ditos “progressistas”.

“Não há um único e coeso grupo conservador. Há variedade”, registra a “Veja”. Trata-se de grupos variegados, com convergências e divergências.

Romeu Zema: pré-candidato a presidente pelo Novo | Foto: Divulgação de campanha

A professora de relações internacionais da Unifesp Esther Solano, por meio de sondagens qualitativas, “identificou cinco motores — ou tribos — que impulsionam o apego à tradição, à ordem e à hierarquia, mas ao mesmo tempo desafiam o lugar-comum”.

“Quatro deles se destacam por professar um conservadorismo mais suave”. Primeiro, “as ‘antifeministas light’, que, no entanto, defendem a participação da mulher na sociedade”. Segundo, “o ‘agronejo’, que mistura agronegócio com música sertaneja”.

Terceiro, “o ‘pentecostalismo pop’, que encarna um jeito inédito de lidar com a fé cristã”.

Quarto, “‘os trabalhadores de app’, motoristas e entregadores de aplicativos, defensores ferrenhos do trabalho autônomo, mas com pinceladas de intervenção do governo aqui e ali”.

Quinto, “numa ponta mais radical e descabida, emerge a turma da ‘masculinidade à antiga’, de jovens que pregam a superioridade do papel masculino”. Aí reside o arcaísmo dos que não compreendem que há mudanças que são incontornáveis.

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Palácio do Planalto: o realismo político sugere que o próximo ocupante tem de dialogar com os conservadores | Foto: Euler de França Belém/Jornal Opção/2026

Esther Solano sublinha que “os elementos tradicionais do conservadorismo são apresentados sob novos atores, agendas e formatos”.

Como acessar estes conservadores diversificados — ressaltando que vão continuar assim — na campanha eleitoral? É o desafio dos pré-candidatos a presidente da República. São eleitores de Flávio Bolsonaro? Em parte, sim. Mas podem trocá-lo por um integrante da direita mais, digamos, qualitativo, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

Lula da Silva tem condições de acessar tais conservadores? Talvez. Não pelas ideias em si (porque há divergência de fundo), e sim, notadamente, por medidas econômicas que possam beneficiá-los. O certo é que o petista-chefe poderá conquistar uma parte — quiçá minoritária, mas, ainda assim, relevante eleitoralmente — dos que professam credos conservadores. Já há evangélicos apoiando o presidente.

A pesquisa do Vetor Arrow constata que, de acordo com “Veja”, “o viés tradicionalista é mais homogêneo na agenda dos costumes: seis em cada dez brasileiros admitem que, de fato, preferem preservar em vez de mudar valores familiares”.

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Felipe Nunes: não há como contornar o eleitorado conservador | Foto: Divulgação

Pauta dos costumes unem conservadores

Porém, “o mesmo grupo modula posturas quando indagado sobre outras questões do debate nacional. Mais da metade — 53% — alega ter fé, mas diz que ela não interfere em suas escolhas políticas”.

O Estado deve “sair” mesmo da economia, deixando espaço só para o mercado? Não é bem assim, diz a pesquisa. “A grande maioria (77%) acha que o governo deve estar presente, seja em todos os campos da economia (35%), seja para garantir ao menos educação, saúde e segurança (41%).”

A pesquisa mostra que, dos conservadores pesquisados, “apenas 18% defenderam a ultrapassada ideia de que o homem deve ser o único provedor da família e ter a palavra final nas relações a dois, enquanto expressivos 74% aprovaram a divisão de decisões e responsabilidades entre o casal”.

Por que Flávio Bolsonaro está tentando se reposicionar “mais ao centro”? Exatamente porque sabe que há um eleitorado conservador que não é radical. Talvez seja bem menos conservador do que se imagina.

Os eleitores conservadores são mais de 82 milhões. Os de direita são 35% do eleitorado brasileiro. Noutras palavras, há eleitores conservadores que não se aproximam da direita e muito menos da extrema direita. Parte substantiva deles votou e elegeu Lula da Silva em 2022. Portanto, há alguma conexão com o petista, talvez menos com o PT.

A pesquisa mostra que os evangélicos são ciosos da pauta dos costumes, “mas surpreendentemente abertos em outras áreas”. A direita é sólida nas igrejas evangélicas, mas há fissuras, pois há grupos mais moderados.

A diretora-executiva do Instituto de Estudos da Religião, Ana Carolina Evangelista, diz, de maneira pertinente: “O discurso conservador encontra nos templos um terreno fértil para prosperar, em um movimento que combina a política com a religião”.

Nichos conservadores, a relevância econômica da música sertaneja e o agronegócio são citados na reportagem. Trata-se de um mercado poderoso. A “Veja” ressalta que “a expansão do PIB” em Goiás “foi de 4,4%, o dobro da média nacional”. O que mostra uma economia moderna e dinâmica.

A pesquisa sobre os conservadores brasileiros sugere que são mais abertos do que imagina a vã filosofia de setores da esquerda e, mesmo, da direita. O que pode ser útil a Lula da Silva. Por sinal, o petista-chefe está tentando se aproximar dos evangélicos, mas não para conquistá-los em peso — o que não é possível, dada a ligação da maioria com a direita —, e sim para dividi-los.

O fato de os conservadores não serem radicais, no geral, indica também que há uma abertura para políticos da direita, porém mais moderados, como Ronaldo Caiado e Romeu Zema.

A força de Flávio Bolsonaro advém do bolsonarismo, notadamente do carisma de seu pai, Jair Bolsonaro. Por isso, embora esteja apresentando uma face mais moderada, terá de, ao final das contas, assumir o bolsonarismo, que será seu principal instrumento de campanha. O que poderá afastar a parcela dos eleitores (mais) moderados.