O economista Daniel Bueno Vorcaro é um milagre do capitalismo financeiro brasileiro. Ficou bilionário praticamente da noite para o dia e, por isso, certamente incomodou os aristocratas do sistema financeiro patropi — leia-se os herdeiros do Itaú/Unibanco e do Bradesco (talvez não aristocratas, pois o banco foi criado por um plebeu).

Espécie de deus das finanças, Daniel Vorcaro, cresceu como banqueiro, num ambiente antropofágico — diria o poeta Oswald de Andrade —, muito rapidamente, desafiando as leis gestadas pelos potentados do mercado financeiro. Para além da corrupção em si, que o anabolizou em pouco mais de oito anos — entre o Banco Máxima e o Banco Master —, é um caso a ser estudado com atenção.

Depois das prisões e delações premiadas, os especialistas em economia precisam estudar o case Daniel Vorcaro & Banco Master.

Nelson Tanure empresário
Nelson Tanure, suposto sócio oculto de Daniel Vorcaro, é um empresário de múltiplos negócios | Foto: Reprodução

Responsabilidade do Banco Central

Por que o Banco Master cresceu em progressão geométrica, sem entraves, pelo menos durante quatro anos? Por que o sistema bancário, setor aristocrático no país — com seus Moreira Salles e Setúbal —, sempre tão bem informado e atento, demorou a “perceber” que o outsider Daniel Vorcaro, que estava se tornando insider, poderia se tornar, a médio ou longo prazo, um abacaxi para todo o setor?

Por que as financeiras, pontos fortes dos grandes bancos, demoraram ou não quiseram perceber que Daniel Vorcaro, com seu Banco Master, era um ponto fora da curva, no pior sentido? O mais provável é que os bancos e as financeiras — no fundo, uma coisa só — tenham esbarrado numa teia poderosa entre o latin lover mineiro de 42 anos e uma rede poderosa de políticos.

Ao lado dos bancos, como Itaú/Unibanco, Bradesco, BTG e XP, o Banco Central sabia que dia menos dia o Banco Master implodiria.

Ciro Nogueira, presidente nacional do pP: “amigo” do ex-banqueiro Daniel Vorcaro | Foto: Reprodução

Primeiro, porque possibilitava aos investidores ganhos acima da média — quase irreais. Segundo, Daniel Vorcaro gastava a rodo e exibia sua vida de playboy como nenhum outro banqueiro patropi. Terceiro, a partir de certo momento passou a torrar dinheiro com políticos, advogados e funcionários do Banco do Central. Para tanto, teve de montar uma ampla rede de lavanderias, via fundos.

Nas gestões do ex-presidente Jair Bolsonaro, do PL, e do presidente Lula da Silva, do PT, o Banco Central falhou, de maneira clamorosa, em relação ao apodrecido Banco Master. O ex-presidente do BC Roberto Campos Neto deixou o barco correr e o presidente Gabril Galípolo demorou a agir — quiçá, ambos, com receio de a crise da institutição financeira dirigida por Daniel Vorcaro contaminar todo ou parte do sistema bancário.

Investigações revelam que funcionários do Banco Central — poucos, mas em posições decisivas — colaboraram com as falcatruas de Daniel Vorcaro. Por sinal, no governo de Jair Bolsonaro e em parte do governo de Lula da Silva. Ressalve-se que, na gestão do petista-chefe, procedeu-se à investigação que resultou na revelação do escândalo.

Ibaneis Rocha: o ex-governador do Distrito Federal | Foto: Reprodução

Funcionários de proa do Banco Central impediram uma ação efetiva da instituição contra o Banco Master. A proteção, portanto, começou (ou se desenvolveu) no BC, a instituição crucial do sistema bancário brasileiro.

Com os dados atuais, não dá para cravar — exceto se se quiser cometer injustiça — que Jair Bolsonaro e Lula da Silva se envolveram com Daniel Vorcaro. Conversar com o banqueiro, quando era poderoso e, portanto, recebido por todo mundo, não é nenhum crime.

Lula da Silva recebeu Daniel Vorcaro a pedido do economista Guido Mantega, condestável do PT e ex-ministro da Fazenda do governo da ex-presidente Dilma Rousseff. O ex-professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas e da PUC-São Paulo atuou, tudo indica, como lobista. O que o trio conversou? Não se sabe exatamente. Na delação premiada, o ex-banqueiro poderá esclarecer o que aconteceu.

Banco Master: até um político de Goiás recebeu para fazer “consultoria” | Foto: Reprodução

A rede de proteção política

Não se sabe quem foi o expert que desenhou o quadro para Daniel Vorcado atuar como banqueiro. Teria sido Augusto Ferreira Lima ou Nelson Tanure, com mais presença no mercado e em várias áreas? Não se sabe. Mas os dois têm sido citados com frequência como tendo ligação estreita com o banqueiro do Master. Seriam “sócios”. Tanure nega.

A montagem do esquema do Banco Master não parece “arte” de apenas um invidíduo, por mais que seja superdotado em termos de conhecimento do mercado financeiro.

É preciso entender também como, a partir de determinando momento, Daniel Vorcaro percebeu a necessidade de articular uma rede de proteção política. Quem lhe deu a dica, o caminho das pedras? Teria sido Augusto Lima? Teria sido o senador Ciro Nogueira, do pP? Quem, de fato, o aconselhou a dialogar com os homens chaves da República?

Sede do Banco Central
Banco Central: funcionários envolvidos na corrupção do Banco Master | Foto: Reprodução

Quem formulou o projeto de usar o Banco de Brasília como tábua de salvação do Banco Master e de Daniel Vorcaro? Teria gente dotada de expertise do Banco Central ou do BRB?

Se fez tudo sozinho, agindo como uma espécie de Ulisses homeriano do setor financeiro e político, Daniel Vorcaro será conhecido, quando a tempestade persecutória amainar, como um santo milagreiro. Trata-se de um “gênio”.

Não deu certo? Não. Mas, até os ventos fortes o derrubarem, levando-o à cadeia, fez e aconteceu. Daniel Vorcaro se tornou, durante certo tempo, um dos homens mais poderosos e bem-sucedidos da República. Circulou e festou com quis. Viajou nos melhores jatos e helicópteros, de sua propriedade, por todo o mundo. Namorou belas mulheres.

O que manteve Daniel Vorcaro no alto, por um longo tempo, foi, evidentemente, a rede de proteção política.

Banco de Brasília: ligação com Daniel Vorcaro | Foto: Paulo H. Carvalho

Daniel Vorcaro repassou parte de sua imensa fortuna para vários políticos. Era proteção. Políticos agiram como mafiosos e milicianos, quer dizer, venderam proteção. Deram garantia de que nada de grave aconteceria com o banqueiro distribuidor de dinheiro.

Ibaneis Rocha e o BRB

O que deu errado? A “gula” dos políticos e do banqueiro-ostentação? Em parte, sim. Mas a derrocada se deu mesmo quando Daniel Vorcaro, com o apoio do ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha, decidiu usar o Banco de Brasília para salvar o Banco Master e, digamos assim, a própria pele.

O Master, com seu mercado de papel — o mercado financeiro é, quase sempre, puro papelório — construído por Daniel Vorcaro, quando começou a negociar com o BRB já era o Titanic dos bancos. Mas o que acelerou a queda foi usar um banco público como tábua de salvação.

Aí o escândalo explodiu e Daniel Vorcaro, de deus do dinheiro, foi rebaixado a anjo caído, quer dizer, a uma espécie de Lúcifer infausto das finanças (Lúcifer era, no início, um belo anjo).

A Polícia Federal — e a imprensa deve divulgar de maneira mais ampla — precisa investigar quanto custou a Daniel Vorcaro a rede de proteção política em Brasília e outros lugares. Como se deu a operação para aumentar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de 250 mil reais para 1 milhão de reais? Sabe-se que Ciro Nogueira articulou para aprovar a mudança, que acabou não ocorrendo.

É muito provável que Daniel Vorcaro só não caiu antes devido à imensa rede de proteção política que comprou e, sim, pagou. À vista. Às vezes, em caras prestações.

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Consultoria: novo nome de lobby

É preciso legalizar o lobby no Brasil. Porque, na verdade, já funciona a todo vapor com o “nome” de “consultoria”. É um eufemismo positivo ante a negatividade da palavra lobby.

Digamos que uma empresa chinesa, do ramo automobilístico, contrate um político para assessorá-la. Ele não terá função administrativa, com presença diária nos escritórios da empresa. Porque, na verdade, atua como lobista. É contratado, isto sim, para “destravar” problemas da indústria no trato com governos e Congresso.

Por isso, urge legalizar oficialmente o lobby no Brasil. Porque, na realidade, já está “legalizado” e funciona a todo vapor com o nome de “consultoria”.