Pesquisadores e jornalistas escreveram livros de qualidade sobre o Primeiro Comando da Capital. Quem quiser conhecer o PCC precisa ler tais obras, que são incontornáveis. Nenhum candidato a presidente da República pode deixar de consultá-las.

Uma lista breve: “A Guerra — A Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil” (Todavia, 344 páginas), de Bruno Paes Manso; “Irmãos — Uma História do PCC” (Companhia das Letras, 408 páginas), de Gabriel Feltran; “Laços de Sangue — A História Secreta do PCC” (Matrix, 248 páginas), de Claudio Tognolli e Márcio Sérgio Christino; “Cobras e Lagartos — A Verdadeira História do PCC” (Via Leitura, 224 páginas), de Josmar Jozino; e “Segurança Pública — O Brasil Livre das Máfias” (Contracorrente, 190 páginas), de Lincoln Gakiya e Walfrido Warde.

Bruno Paes Manso capa de livro sobre o PCC

O Jornal Opção (https://tinyurl.com/2u4tjkbf), a “Folha de S. Paulo”, o “Estadão”, “O Globo” e a “Veja” têm publicado uma série de reportagens esclarecedoras a respeito tanto do PCC quando do Comando Vermelho (CV). De alguma maneira, as máfias tropicais estão mapeadas por pesquisadores e jornalistas. Ainda assim, os jornais “babaram” ao repercutir a reportagem “How a brazilian prison gang became a blobal cocaine power” (“Como uma gangue de prisão brasileira se tornou uma potência global no tráfico de cocaína”), assinada por Samantha Pearson, do “Wall Street Journal”.

A repórter Samantha Pearson conversou com Bruno Paes Manso — talvez o mais importante pesquisador do tema PCC — e com o promotor Lincoln Gakiya. Jurado de morte pela máfia patropi, o membro do Ministério Público de São Paulo não recua.

Lincoln Gakiya, que merece ser ministro da Justiça ou da Segurança, assinala que, se o governo federal não agir, e rápido, o Brasil pode se tornar um narcoestado.

Gabriel Feltran capa de livro sobre o PCC

Em alguns Estados, notadamente em São Paulo, o nome Primeiro Comando da Capital (PCC) é insuficiente para interpretá-lo. Já há um Primeiro Comando do Estado (PCE) ou até um Primeiro Comando do País (PCP).

O PCC é uma máfia, similar às da Itália — como sua parceira ‘Ndrangheta, da Calábria —, de caráter multinacional. Seu exército de 40 mil soldados e oficiais está instalado em praticamente todos os Estados (no Rio de Janeiro, prevalece o Comando Vermelho). Vários de seus integrantes estão presos, mas, mesmo assim, atuantes. As penitenciárias se tornaram extensões das ruas, portanto não limitam a ação dos comandantes do narcotráfico e outras atividades ilegais e, sim, “legais” (usinas de álcool, postos de combustíveis, distribuidoras de bebidas, hotéis, concessionárias de automóveis).

Um equívoco é tratar o PCC tão-somente como facção. Não é mais. Trata-se de uma máfia altamente organizada, poderosa e sofisticada (lava dinheiro com a excelência dos paraísos fiscais). Até integrantes do Estado — fixos ou provisórios — o temem. Há pouco tempo o PCC matou um delegado de polícia aposentado em São Paulo. E ameaça promotores e juízes.

Lincoln Gakiya sobre as máficas

O “Wall Street Journal” nada publicou de novidade, apesar da babação de ovo da imprensa brasileira. Só reverbera o que saiu na imprensa e em livros, como os cruciais de Bruno Paes Manso e Gabriel Feltran.

O texto de Samantha Pearson parece ter usado como fonte — excetuando as entrevistas com Bruno Paes Manso e Lincoln Gakiya — o que saiu na imprensa dos tristes trópicos nos últimos anos.

Não é novidade que o PCC opera em “quase” 30 países (talvez seja mais). Um ramo da máfia instalou-se nos Estados Unidos — possivelmente o país que mais consome drogas, como cocaína, em todo o mundo.

Se são uma potência, a mais armada da história, por que os Estados Unidos, com suas várias polícias e serviços de inteligência, não conseguem barrar a entrada de drogas em seu território? “Wall Street Journal” não toca no assunto.

Claudio Julio Tognolli capa de livro sobre o PCC

O PCC montou uma ampla estrutura nos Estados Unidos porque neste país há milhões de consumidores de cocaína (além de outras drogas), com alto poder aquisitivo. Por sinal, com suas mandrakices habituais, o presidente Donald Trump ainda não falou em taxar os “empresários” das drogas do México e do Brasil.

À reportagem de Samantha Pearson faltou verificar se o PCC atua nos mercados legal (com empresas de fachada) e não apenas no ilegal (o comércio de drogas) dos Estados Unidos. A repórter informa que vários membros da máfia verde-amarela foram identificados por autoridades americanas do norte.

Os bens de Diego Gonçalves do Carmo — preso no Brasil, mas atuando firme na área de operações financeiras do PCC — foram congelados pelo Departamento do Tesouro americano. O pececeiro é acusado de lavar 240 milhões de dólares do PCC nos Estados Unidos.

Samanta Pearce foto Acervo pessoal
Samantha Pearce: repórter do “Wall Street Journal” | Foto: Acervo pessoal

O “Wall Street Journal” sublinha que, “em Massachusetts, o Ministério Público dos Estados Unidos anunciou, no ano passado, acusações contra 18 brasileiros que, segundo os promotores, estavam ligados ao PCC por tráfico de pistolas, rifles e espingardas — e, em um caso, fentanil”.

Samantha Pearce ressalta, o que é do conhecimento da imprensa brasileira, que o PCC mantém parceria com a ‘Ndrangheta, a Yakuza, do Japão, e máfias albanesas e sérvias. Lincoln Gakiya define tais alianças comerciais como “convergência criminosa”. A múlti do Brasil atua fortemente na Europa.

O jornal americano do norte destaca que governantes brasileiros não operam para eliminar o PCC. “Mas, sim, em gerir sua convivência instável com o Estado — o que muitas vezes deixa os investigadores frustrados ou perplexos com as ligações entre os criminosos e o próprio Estado”, anota Samantha Pearce.

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Lula da Silva: o governol não é conivente, mas é leniente em relação ao crime organizado | Foto: Divulgação

É grave o que reporta Samantha Pearce. Porque deixa a impressão de que o Estado paralelo, o do narcotráfico, está submetendo o Estado oficial, o que representa todos os brasileiros. A repórter deveria ter apresentado dados objetivos sobre a possível conexão — quiçá por omissão — entre o PCC e instituições estatais. Onde isto ocorre?

Na quinta-feira, 23, a “Folha de S. Paulo” publicou uma reportagem, “TSE aposta em precedentes da corte para conter infiltração de facções e milícias nas eleições”.

Com informações processuais em mãos, o Tribunal Superior Eleitoral vai agir, de maneira rigorosa, para evitar que membros ou laranjas do PCC ou do CV, além de outros grupos do crime organizado, lancem candidatos na disputa deste ano.

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Ronaldo Caiado, ex-governador do Estado de Goiás: dos pré-candidatos a presidente da República é o que tem mais expertise no combate ao crime organizado | Foto: Divulgação

O TSE considera, informa a “Folha”, que “a vinculação a milícia ou facção gera inelegibilidade, que pode ser apurada no momento do registro” da candidatura.

Relatório da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) revela, na síntese da “Folha”, “que a influência do crime organizado se manifesta tanto em ações de financiamento de campanhas quanto de coação de eleitores e indicação de candidatos próprios, chegando, em casos extremos, à eliminação de adversários políticos”.

O Painel do Crime Organizado, lançado em março pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), “reúne informações processuais sobre organizações criminosas e milícias”. O TSE e os TREs dos Estados, de olho nos nomes envolvidos com o crime organizado, poderão barrar, se não todos, a maioria dos integrantes das máfias que planeja disputar mandato este ano.

Flávio Bolsonaro foto de Andressa Anholete Agência Senado
Flávio Bolsonaro: estranha ligação com Adriano da Nóbrega | Foto: Andressa Anholete/Agência Senado

A reportagem do “Wall Street Journal” pouco acrescenta, mas mexe com os humores dos homens e mulheres do poder no país. Quem sabe assim, cutucados pela vara internacional, acordem.

Wall Street Journal deveria visitas Goiás

Samantha Pearce revela uma sensação de impotência, que é real. Mas faltou à reportagem verificar se há Estados que combatem o crime organizado com mais eficácia. Talvez tenha faltado à repórter um banho de Brasil.

O crime organizado está instalado em todos os Estados. Não salva um. Nem há como. Porque o país é integrado e não há barreiras que consigam impedir os dirigentes e soldados do PCC e do CV, para citar apenas dois grupos, de circularem pelas regiões do Brasil.

Como não é uma ilha, Goiás não está livre do crime organizado. Mas, no Estado, a violência e o tráfico de drogas ocorrem em menor escala. Diz-se que as polícias Militar e Civil “jogam duro”. De fato, são firmes. A PM, sobretudo, combate os narcotraficantes de maneira tenaz. Com firmeza absoluta.

Romeu Zema parece avaliar que o STF é mais perigoso do que o PCC | Foto: Agência Minas

Entre os cidadãos de bem — inclusos aí os policiais — e os criminosos — altamente organizados, às vezes com armas mais potentes do que a dos militares —, o realismo (e não a ideologia) indica que é adequado ficar ao lado dos primeiros.

Engana-se, porém, quem avalia que é apenas o jogo duro da PM que “afugenta” o crime organizado em Goiás. Na verdade, a Polícia Militar e a Polícia Civil têm sistemas de inteligência altamente desenvolvidos tecnologicamente, o que contribui, em larga medida, para evitar o crime. Há, por assim dizer, um sistema preventivo.

Mapear o crime organizado, seus integrantes, é crucial para combatê-lo de maneira eficaz. É o que fez, durante sete anos e três meses, o governo de Ronaldo Caiado. O governador Daniel Vilela está dando continuidade à sua política — duríssima e necessária — de segurança.

Então, dos pré-candidatos a presidente da República, Ronaldo Caiado, do PSD, é, por certo, o que tem a melhor proposta sobre segurança pública. Porque pode exibir resultados, e não retóricas eleitorais.

O governo do presidente Lula da Silva combate o crime organizado, mas não com a energia necessária. A gestão red não é conivente, mas chega a ser leniente com as máfias verde-amarelas.

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema pouco fez para reduzir a força do crime organizado no Estado que dirigiu por sete anos e três meses. Parece que o mineiro pensa que o problema-chave do país é o Supremo Tribunal Federal — na verdade, é mero marketing eleitoral — e não o crime organizado e as desigualdades sociais.

Flávio Bolsonaro, um corpo à caça de um cérebro, parece não ter proposta sobre nada. Ronaldo Caiado tem discurso pronto, construído por sua prática como combatente duro ao crime organizado.