País cobra investigação de todos que têm envolvimento com Daniel Vorcaro/Banco Master. Não se deve expor apenas a direita
16 maio 2026 às 21h00

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Quem não se lembra da Operação Lava Jato? Talvez parte da imprensa tenha esquecido o furor dos jornais e emissoras de televisão. Era quase um “furo” por semana. Os repórteres disputavam a primazia de que qual integrante das elites políticas e empresariais seria “queimado”.
Muitos foram os denunciados, alguns foram presos e vários assinaram confissões de culpa ante o Ministério Público Federal e a Justiça.
Até um presidente da República, Lula da Silva, do PT, mourejou atrás das grades. O príncipe da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, depois de preso, denunciou aqueles que haviam recebido dinheiro da construtora.
O tempo passou, a banda não voltou e a moça saiu da janela, diria Chico Buarque. Lula da Silva e tantos outros foram liberados pela Justiça. “Perdoados”.

As elites políticas (parte delas), empresários, banqueiros e magistrados decidiram apostar em Lula da Silva para presidente, em 2022, porque Jair Bolsonaro fez um governo escandalosamente ruim (basta lembrar os mais de 700 mil mortos por causa da Covid) e começou um processo de “isolar” o país de parte substantiva do mundo.
A colocar a ideologia de extrema direita como política de Estado, Jair Bolsonaro começou a prejudicar interesses dos empresários, produtores rurais e banqueiros brasileiros. Nem o Posto Tabajara, Paulo Guedes, conseguiu convencer os poderosos da Faria Lima de que a extrema direita era o melhor para a economia. Porque não era.
O pacto pela volta de Lula da Silva
Daí surge o pacto das elites, de parte delas, para promover a volta de Lula da Silva ao poder. Por sinal, arrancar Jair Bolsonaro do poder, via voto, foi importante tanto para a economia e quanto para a democracia.
Jair Bolsonaro, talvez por não entender de economia — por isso passou a acreditar que a ideologia de extrema direita poderia movimentá-la —, adotou uma política anti-China que não tinha nem o endosso de seus apoiadores do agronegócio.

O agronegócio brasileiro depende muito mais da China do que dos Estados Unidos. Disso sabem os grandes produtores rurais do Oiapoque ao Chuí.
A volta de Lula da Silva à Presidência da República foi, em larga medida, uma reação das elites e do povão ao governo isolacionista e insensível (no caso da Covid) de Jair Bolsonaro.
O Brasil é um país sutil e faz suas conciliações pelo “alto”, informando que os “de baixo” estão participando, para, diria Tomasi di Lampedusa, não mudar fingindo que está mudando.
É óbvio que Lula da Silva é um político de esquerda, mas é, acima de tudo, um realista. Não dá para governar um país capitalista como o Brasil, uma das dez maiores economias do mundo, adotando medidas socialistas. Ah, e a China que é comunista e monitora uma espécie de capitalismo inovador? Frise-se: o Brasil, ocidental, e a China, oriental, são países e culturas muito diferentes.
Por isso, Lula da Silva sabe que precisa governar, pragmaticamente, o capitalismo. Não há um grande capitalista que esteja perdendo alguma coisa sob o governo do petista-chefe. Bancos, industriais e produtores rurais não deixaram de ganhar milhões de reais durante os últimos três anos e quase cinco meses.

O que diferencia Lula da Silva de outros governos é que tem genuína preocupação com o social. Mas poderia ser um social ampliado, mais inclusivo, sem deixar de ser assistencial. O New Deal de Franklin Roosevelt datou-se, claro, mas ainda poderia inspirar a gestão do petista.
O governo Lula da Silva poderia avançar, colocando mais recursos públicos na educação e na saúde. Poderia criar programas para incluir, por meio da educação, aqueles que são beneficiados pela Bolsa Família. Eles precisam “migrar” de indivíduos dependentes para cidadãos autônomos.
A Bolsa Família é vista apenas como assistencial, e é. Mas só de repassar dinheiro para as pessoas comerem, sobreviveram, já é uma inclusão mínima e importante. Mas os que são atendidos pelo programa certamente querem mais do governo. Querem profissões. Aprender alguma coisa e ter uma renda mensal adequada.
Flávio: político jovem de práticas velhas
Retomando o início do Editorial, o fato é que, para destronar Jair Bolsonaro — que não compreendia a inserção do Brasil no concerto global —, as elites priorizaram Lula da Silva. Agora, parte destas elites entusiasmou-se com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, por ser mais racional do que os bolsonaristas radicais.
Porém, como o bolsonarismo barrou Tarcísio de Freitas para presidente da República, a turma da indústria e da Faria Lima entusiasmou-se com Flávio Bolsonaro. Parece que, na visão de empresários e banqueiros, Flávio Bolsonaro é mais palatável do que Lula da Silva e Jair Bolsonaro.
Mas é mesmo? Talvez seja. Mas, como disse V. S. Naipaul, no livro “Os Mímicos”, só o poder revela o político. Flávio Bolsonaro é uma incógnita. Fica-se com a impressão de que seu principal “projeto”, por enquanto o “único”, é retirar o pai da cadeia. É anistiá-lo. Noutras palavras, é um projeto pessoal-familiar, e não coletivo, para o Brasil.
Flávio Bolsonaro, se eleito, certamente patrocinará um confronto direto com o Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de retirar de lá ao menos o ministro Alexandre de Moraes. Será bom para o país? Será péssimo.
Com Flávio Bolsonaro no poder, o país poderá caminhar para uma sociedade autoritária? É possível. Por isso, muita gente da direita certamente, na hora agá, não vai apoiá-lo. Os pré-candidatos do PSD, Ronaldo Caiado, e do Novo, Romeu Zema, poderão crescer durante a campanha e destronar o filho de Jair Bolsonaro. O goiano e o mineiro são melhores políticos e gestores. E são democratas.
Até poucos dias, Flávio Bolsonaro voava em céu de brigadeiro, praticamente empatado com Lula da Silva. Vai continuar assim?
Depois de surgir pedindo (implorando por) milhões de reais a Daniel Vorcaro, do Banco Master, Flávio Bolsonaro enterrou seu discurso moralizador e sua própria candidatura a presidente? Ainda não se sabe. Mas ficou com a testa carimbada: é um político jovem adepto de práticas velhas.
O eleitor certamente vai cobrar uma explicação mais ampla: que serviço Flávio Bolsonaro prestou a Daniel Vorcaro para receber tanto dinheiro do ex-banqueiro? Ele precisa explicar isto. Porque nenhum banqueiro sai distribuindo 2 milhões, 61 milhões ou 134 milhões de reais de graça. Sempre quer alguma coisa em troca.
O senador Ciro Nogueira, presidente nacional do pP, recebeu benesses, muitas, de Daniel Vorcaro. Prestou serviço, como o apoio ao projeto para aumentar o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de 250 mil para 1 milhão de reais. Outros serviços talvez tenham sido prestados.
Mas qual serviço Flávio Bolsonaro, o mais moderado dos Bolsonaros — afirma-se que é também o mais mafioso (no sentido de articular de maneira mais ampla nos bastidores) —, realmente prestou a Daniel Vorcaro? Terá prometido “salvar” o banco, possibilitando sua retomada, a partir de 2027, se for eleito presidente?
Flávio Bolsonaro, num arranjo mal ajambrado, disse que o dinheiro de Daniel Vorcaro repassado para o filme sobre o pai não é público. Quer dizer que político pode sair pedindo dinheiro para qualquer um, desde que não seja público? E, mais grave, nos negócios do ex-banqueiro há dinheiro público sim. Tanto do público quanto do setor público. Por exemplo, dinheiro do Banco de Brasília, que é público. (Lembrando que o BRB financiou parte de uma casa de Flávio Bolsonaro, em Brasília.)
Não se pode investigar de maneira seletiva
A partir de agora, discute-se a questão mais espinhosa. Quando se está combatendo a corrupção, o aplauso é geral. Por isso, é complicado reabrir a discussão, sob pena de ser tachado de conivência.

Não há a menor dúvida de que Polícia Federal é excelente e faz um trabalho sério. Inclusive cumpre determinações da Justiça.
Mas uma instituição de Estado pode investigar denúncias de maneira seletiva? Será que apenas a direita e o Centrão estão envolvidos com Daniel Vorcaro & Banco Master?
Fala-se numa conexão baiana do Banco Master, que seria operada pelo banqueiro Augusto Lima (casado com Flávia Peres, do pP e ligada a Ciro Nogueira e ao deputado federal Arthur Lira), ex-sócio de Daniel Vorcaro. Chega-se a citar o nome do ex-governador da Bahia e ex-ministro Rui Costa (o programa Credcesta). Mas as investigações não andam, não se tornam públicas. Não há estardalhaço algum. Não há vazamento algum para a imprensa. Exceto mexericos em colunas de jornais.
Por que a conexão baiana não é exposta? Por que a Bahia é administrada por políticos do PT? Não se sabe.

O ex-ministro da Fazenda Guido Mantega — da gestão da ex-presidente Dilma Rousseff — levou Daniel Vorcaro ao presidente Lula da Silva e pouco se fala do assunto. O economista teria agido como lobista. Teria recebido 5 milhões de reais para fazer o quê exatamente? Portas foram abertas: quais, onde?
As relações de Guido Mantega, ligado ao PT, com Daniel Vorcaro precisam ser expostas de maneira mais ampla. Há conversas e mensagens entre os dois?
A Polícia Federal e a Justiça, como institutos públicos, não podem e nem devem operar de maneira seletiva. Devem expor todos que estão envolvidos com Daniel Vorcaro & Banco Master, não apenas a direita e o centro político. Porque, se continuar assim, vão deixar a impressão de que estão a serviço da reeleição do presidente Lula da Silva.



