Se Flávio Bolsonaro derreter, Ronaldo Caiado pode herdar o espólio eleitoral bolsonarista
11 julho 2026 às 21h00

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Há analistas na imprensa, sobretudo nas redes sociais, pregando que o bolsonarismo “morreu”.
Na verdade, o bolsonarismo está mais vivo do que nunca e é o que faz Flávio Bolsonaro, cuja história política é quase nenhuma, aparecer em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto — perdendo apenas para o presidente Lula da Silva, do PT.
É provável que, sem o bolsonarismo, Flávio Bolsonaro teria cerca de 3% ou 5% das intenções de voto. Ele seria o pré-candidato Riobaldo Hermógenes Bebelo, ou seja, ninguém.
Então, a bem da verdade factual, o que está “derretendo” não é o bolsonarismo, e sim Flávio Bolsonaro, o pré-candidato a presidente da República pelo PL.
Parte da direita e parte substantiva do Centrão hesitam em apoiar Flávio Bolsonaro. Porque não se sabe até quando o senador irá resistir à pancadaria generalizada.

Há uma expectativa, notadamente no Centrão e na direita democrática, de que, se cair abaixo de 30%, Flávio Bolsonaro poderá desistir. Poderá mesmo? Muito difícil, mas não impossível.
Flávio Bolsonaro é meio incógnita. Obviamente que é bolsonarista, tributário do movimento de direita “criado” pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Mas talvez seja possível sugerir, por mais estranho que possa parecer, que não se trata de um bolsonarista-raiz, ao contrário do irmãos Eduardo e Carlos Bolsonaro.
O senador Flávio Bolsonaro está “presenteando” Lula da Silva com seu novo terno de posse. Porque não cresce e não deixa ninguém crescer. De algum modo, funciona como “cabo eleitoral” do petista-chefe. Até quando?
Mais pragmático que os irmãos, Flávio Bolsonaro é visto como afável pelos políticos e bon vivant. Ele seria um agente “moderador” numa família de radicais.
Entretanto, o conflito com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro — que dizem pretender ser candidata a presidente em 2030, ou até antes — mostra a imperícia conciliatória de Flávio Bolsonaro. O escorpião habita o cara de anjo? É possível.
Se fosse menos agressivo e mais cordato, Flávio Bolsonaro teria pacificado o relacionamento com Michelle Bolsonaro.
A ex-primeira-dama fez um estrago forte na campanha do pré-candidato do PL. As mulheres podem concluir, a partir das palavras de Michelle Bolsonaro, mais ou menos o seguinte: “Se nem a mulher de Jair Bolsonaro apoia Flávio Bolsonaro porque nós devemos apoiá-lo?”

Há uma espécie de canibalismo não-amoroso entre os Bolsonaros. Eles alimentam-se de crises, familiares ou não, ante a tese de que é preciso ficar no topo da mídia, galvanizando a atenção, a qualquer custo.
De alguma maneira, com ou sem habilidade, os Bolsonaros sabem ocupar espaço no mundo político-midiático-digital. Fica-se com a impressão de que eles, altamente invasivos, ocupam todos os espaços. Só se fala deles. É um jogo que, de alguma maneira, funciona. Porque, positiva ou negativamente, estão sempre nas manchetes.
O PIB do Brasil, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI) — que nada tem de esquerdista —, tende a crescer 2,4% em 2025. Trata-se de uma boa notícia. Mas a atenção continua voltada para assuntos de somenos importância, como: “Será que Jair Bolsonaro autorizou Michelle Bolsonaro a atacar Flávio Bolsonaro?”
Ante o ataque (e o estrago) feito, altamente comentado em todos os jornais e emissoras de televisão e rádio, muda alguma coisa saber se Jair Bolsonaro ordenou a crítica ao filho? Não muda nada.
Mas uma pergunta é pertinente: Michelle Bolsonaro, ao criticar o enteado, pode substitui-lo como candidata a presidente da República já em 2026?

Não é fácil responder à questão. Mas Michelle Bolsonaro teria muita dificuldade de disputar a Presidência agora. Porque, em confronto direto com a ala mais radical do bolsonarismo, poderia perder parte substancial do eleitorado de direita.
“Novo” herdeiro eleitoral do bolsonarismo
Porém, se Flávio Bolsonaro derreter, caindo para 30% ou até menos — o que elevaria a possibilidade do presidente Lula da Silva ser reeleito no primeiro turno —, alguém da direita poderia herdar o legado bolsonarista. Talvez seja a grande questão se examinar.
No campo bolsonarista não há outro nome do porte de Flávio Bolsonaro, exceto a própria Michelle Bolsonaro.
Mas Michelle Bolsonaro, como se disse, esbarraria no bolsonarismo radical — que, em tese, é o que tem voto, ao menos no campo da direita.
Quem, não sendo do campo bolsonarista, mas de direita, poderia, se Flávio Bolsonaro derreter de vez, ocupar seu espaço?
O pré-candidato do Novo, Romeu Zema, de Minas Gerais, não parece ser o nome adequado. Parece almofadinha demais e pouco ideológico para os bolsonaristas. Ele é, de algum modo, da direita festiva ou da direita caviar. “Jovem” bom para casar, mas não para ser amado. Algo assim.

Renan Santos, do Partido Missão, é populista e o tem o hábito de confrontar o bolsonarismo, com o objetivo e absorver o voto da direita não bolsonarista. É um jovem populista similar aos da velha guarda, com apelo entre os jovens. Talvez seja uma espécie de Jânio Quadros sem uma missão, exceto a de ser candidato a presidente.
Mas quem acredita que Renan Santos tem condições de governar a 10ª maior economia do mundo? É provável que nem mesmo ele acredite. É um outsider do quilate do destemperado Pablo Marçal.
Há uma alternativa? O pré-candidato mais sólido da direita, em termos políticos, ideológicos e de experiência com gestão, é o pré-candidato a presidente pelo PSD, Ronaldo Caiado.
Mas Ronaldo Caiado teria condições de absorver o voto bolsonarista? De todos, é o único, acima até de Michelle Bolsonaro, que pode conquistar os votos que “eram (ou são) de” de Flávio Bolsonaro. Porque tem discurso que o bolsonarismo apoia e contempla.
É fato que, democrata, Ronaldo Caiado não tem apreço por golpe de Estado. Mas é forte combatente do crime organizado, com resultados altamente eficazes em Goiás.
Uma política de segurança sólida e dura é pauta tanto da direita quanto de Ronaldo Caiado. Com a diferença de que o goiano de Anápolis não precisa buscar o exemplo de El Salvador. Pode, na campanha, mencionar o que fez em Goiás. Nunca se viu tantos cariocas em Goiás como agora. O motivo é prosaico: qualidade de vida, que, para eles, tem muito a ver com segurança.
Se alguém duvida ande de Uber — há muitos motoristas cariocas — ou pergunte para o sommelier-chefe do Cucina Mia, do francês Claude Troisgros. Ele veio para ficar três meses, mas não quer mais ir embora de Goiás. Está praticamente se tornando “goiano”. Motivo: segurança pública eficiente. O restaurante fica no shopping Flamboyant, em Goiânia.
As palavras dos cariocas e de outros motoristas — muitos deles do Maranhão e do Pará (alguns vendem açaí — “sem açúcar, claro”, afiançam) — são sempre as mesmas: Ronaldo Caiado “resolveu” o problema da segurança em Goiás. Com recursos infinitamente menores do que os do governo federal.
Outra coisa agrada o bolsonarismo: Ronaldo Caiado é mesmo de direita. Não é de direita numa eleição e de esquerda noutra eleição. Desde quando disputou a Presidência pela primeira vez, em 1989, apresentou-se com adepto do ideário da direita liberal. A que não advoga o fim do Estado — uma tese mais anarquista do que liberal —, e sim o aumento de sua eficiência para a sociedade, para todos.
A rigor, há uma identidade entre Ronaldo Caiado e o bolsonarismo. Mas, claro, identidade não quer dizer apoio. Porque, no momento, Flávio Bolsonaro persiste no jogo. Mas, se derreter, abre espaço para o pré-candidato do PSD.
Ronaldo Caiado, dado o fato de pertencer à direita moderna mas firme ideologicamente, é, dos atuais postulantes, talvez p único capaz de obter o apoio do bolsonarismo. Ele está criticando Flávio Bolsonaro? Na verdade, mais do que criticando, está se posicionando, de maneira moderada, ante o quadro difícil — quiçá incontornável — enfrentado pelo senador.

No momento, há um quase-movimento, ainda ligeiramente discreto, clamando pela substituição de Flávio Bolsonaro por um candidato mais consistente e menos atacável (fica-se com a impressão de que, há qualquer momento, pode surgir mais uma bomba contra o senador, inclusive no plano pessoal, que supostamente não tem a ver com o Banco Master/Daniel Vorcaro).
O “movimento” está mais forte no Centrão, mas começa a caminhar rumo à direita. A Faria Lima — o capital financeiro — está cada vez mais distante de Flávio Bolsonaro.
A situação está ficando cada vez mais difícil para o filho de Jair Bolsonaro. De alguma maneira, é o senador que está “enfraquecendo” tanto o bolsonarismo quanto a direita. Trocá-lo pode ser, quem sabe, a “salvação” eleitoral da direita e do centro. No momento, Flávio Bolsonaro está “presenteando” Lula da Silva com seu novo terno de posse. Porque não cresce e não deixa ninguém crescer. De algum modo, funciona como “cabo eleitoral” do petista-chefe.



