O presidente Donald Trump defende, acima de tudo, os interesses do capitalismo dos Estados Unidos. Depois, do capitalismo em geral.

Na batalha contra a China, que busca superar a economia dos Estados Unidos, vale tudo, ao menos do ponto de vista do republicano Trump.

No caso do Brasil, fica-se com a impressão de que Trump joga ao lado de Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente da República pelo PL, contra o presidente Lula da Silva, do PT.

Na verdade, não é só impressão. Trump prefere mesmo a direita bolsonarista, pois considera Lula da Silva como um dos aliados geopolíticos da China de Xi Jinping.

Mas, como estrategista e gestor da maior economia global, Trump não joga apenas com o bolsonarismo. Ele também usa Flávio Bolsonaro para pressionar Lula da Silva a atender os interesses americanos do norte (por exemplo, em relação às terras raras).

Na questão das tarifas, Trump não está tencionando apenas com o Brasil, e sim com vários outros países, inclusive o vizinho Canadá.

Especificamente em relação ao Brasil, procede que Trump opera, de alguma maneira, para desestabilizar a economia e, assim, gerar crise política.

Porque a crise política pode aumentar o desgaste de Lula da Silva e beneficiar Flávio Bolsonaro, o aliado sem reservas de Trump.

Prevalece, no momento, a lógica do realismo político e econômico. “O amigo de meu inimigo é meu inimigo” e “o inimigo de meu inimigo é meu amigo”. Flávio Bolsonaro é “amigo” dos Estados Unidos, ao menos o de Trump. Já Lula da Silva é “amigo” da China de Xi Jinping.

Esta é a lógica, às vezes enviesada, de Trump. Trata-se da lógica de seu realismo e é assim que avalia defender a economia dos Estados Unidos.

Pix, Mastercard e Visa: guerra comercial

Na questão das tarifas, mais uma vez, Trump prejudica a economia do Brasil. Procede que Flávio Bolsonaro pediu ao líder americano para elevá-las? Talvez sim. Porque, para tentar ser eleito presidente, daqui a três meses e alguns dias, vale tudo.

O problema é que o tiro pode sair pela culatra. O tarifaço, ao prejudicar os empresários brasileiros, em seus vários nichos, pode jogar o país contra Flávio Bolsonaro.

Mas o problema maior tanto para Trump quanto para Flávio Bolsonaro pode ser a guerra americana contra o Pix.

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Lula da Silva e Flávio Bolsonaro: Pix pode decidir a disputa presidencial deste ano | Fotos: Reproduções

De acordo com dados divulgados recentemente, o Pix é usado por 175,3 milhões de pessoas físicas. Quer dizer, 80% dos brasileiros são seus usuários.

Ao impor a taxação de 25%, Trump apontou que, em parte, tem a ver com o fato de que o governo do Brasil, seu Banco Central, “favorece” o Pix. Noutras palavras, empresas americanas do norte, como Visa e Mastercard, estariam sendo “prejudicadas”.

Então, mais do que política, Trump estaria defendendo os interesses das empresas americanas, como as duas citadas. Seria mais economia do que política.

Economista e estrategista-chefe da gestora de recursos Krivo Capital, Marco Saravalle disse ao “Estadão”: “Sempre fomos vanguardistas nessa parte de pagamentos; eles [americanos] deveriam estar pensando em vir aprender com a gente”.

“Não há justificativa que traga alguma compreensão de que o Pix tenha sido prejudicial. Talvez seja um pouco mais de inveja, ciúme, do que algo econômico (sobre as críticas ao PIX)”, sublinha Saravalle. O mais provável, ao contrário do que enfatiza o economista, é que a que a questão seja mesmo econômica. Trata-se de um mercado de bilhões de reais.

Saravalle faz um acréscimo pertinente: “O Pix deixou a economia aquecida, bancarizada e legalizada. Tudo isso, em algum momento, acaba também estimulando o crescimento das transações nos cartões”. A ressalva é que as empresas de cartão estão pensando no curto prazo, ou seja, estão perdendo mercado e, portanto, dinheiro.

Pesquisador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira da Fundação Getúlio Vargas, Adriano Kemmer Cernev diverge de Saravelle. Ele avalia que, se outros países adotarem o Pix, as empresas Visa e Mastercard poderão mesmo serem prejudicadas.

Visa e Mastercard tratada aliança contra o Pix
Visa e Mastercard: aliança contra o Pix brasileiro | Foto: Reprodução

Recentemente, um repórter do Jornal Opção, em visita à Argentina do presidente Javier Milei, descobriu que algumas lojas de Buenos Aires já aceitam PIX. Brasileiros que trabalham nas empresas ensinaram os portenhos a operar o Pix. Pagando com Pix, há até desconto.

A pressão americana pode acabar com o Pix? De maneira alguma, haveria uma rebelião no país, digamos assim.

“O Pix é econômica e tecnicamente viável e caiu nas graças do brasileiro. Seria suicídio político [tentar extingui-lo]. É irreversível”, frisa Kemner Cerney.

A Meta, de Mark Zuckenberg, também se sente prejudicada pelo Pix. Kemmer Cerney diz que a dona do Facebook, com o WhatsApp Pay, entrou no sistema de pagamentos, mas no Brasil acabou “barrada” pelo Pix.

Kemmer Cerney postula que o governo americano se equivoca ao taxar o Pix de “concorrência desleal”. “Dizer que o Pix é anticompetitivo não é verdade. Mas que o Pix afrontou os interesses de empresas estrangeiras” é um fato, destaca o pesquisador.

A Fitch Ratings, agência de classificação de risco, divulgou um relatório no qual sustenta que o Pix Parcelado afeta o mercado de cartões de crédito.

Mark Zuckerberg: a Meta é concorrente do Pix | Foto: Reprodução

Relatório da consultoria americana PCMI sugere que o Pix Automático “retiraria volume de transações dos cartões de crédito” (o trecho entre aspas é da reportagem “Por que o Pix incomoda tanto os EUA? Especialistas veem confusão entre inovação e barreira comercial”, assinada por Vinicius Neder e Carolina Nalin, de “O Globo”).

Chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, José Júlio Senna pondera que “o Pix é uma inovação que trouxe maior eficiência ao sistema de pagamentos no Brasil. E ajudou a colocar fatia importante da população mais próxima do sistema bancário”.

“Os Estados Unidos são o país mais inovador, sempre com consequências práticas para o mercado. O que eles fazem são práticas comerciais injustas? Todos os afetados pelas inovações americanas deveriam retaliar comercialmente?”, inquire Júlio Senna.

Professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ernani Teixeira Torres Filho corrobora o pensamento de Júlio Senna: “Todo mundo gosta de competição, mas empresas detestam, principalmente quando não têm os instrumentos para competir”.

A Federação dos Bancos (Febraban), contestando o governo de Trump, sublinha que “o Pix não é um produto comercial, mas um meio de pagamento [uma infraestrutura de pagamento] que favorece a competição”.

O Pix, acrescenta a Febraban, é “um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs, instituições financeiras nacionais e estrangeiras”.

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Pix: eficiente mas contraria os Estados Unidos | Foto: Reprodução

Pix pode eleger e derrotar candidatos

O Pix, ante as pressões americanas, pode sair de cena? Ninguém acredita nisso, nem mesmo a equipe de Trump.

Porém, as pressões de Trump contra o Pix, atendendo o pleito das empresas de cartões de crédito e, entre outros, da Meta, podem prejudicar, em larga medida, a candidatura de Flávio Bolsonaro a presidente da República.

Noutras palavras, o “cabo eleitoral Pix” pode se tornar o grande aliado de Lula da Silva na disputa eleitoral e o grande rival de Flávio Bolsonaro.

Por mais que Flávio Bolsonaro diga que não é contra o Pix, sua aliança com Trump, que é contra o Pix, pode levar os eleitores a concluir que o pré-candidato do PL, se eleito presidente, pode acabar com o eficaz sistema de pagamento.

Ressalve-se que o líder do PL não disse que, se eleito, acabará com o Pix. Mas isto é o que quer seu principal aliado global, o presidente Trump.