O mercado imobiliário de Goiânia encerrou o primeiro semestre de 2026 consolidando sua posição entre os maiores polos de comercialização do país, com um volume total de vendas que atingiu R$ 4,1 bilhões. Mesmo em um cenário de juros elevados e de retração na taxa de juros, a capital goiana manteve o desempenho no patamar recorde registrado em 2025, impulsionada por uma demanda aquecida e pela forte valorização do metro quadrado.

No entanto, lideranças do setor alertam que a burocracia e a lentidão na aprovação de projetos estão represando investimentos e travando o avanço de programas de habitação de interesse social como o “Minha Casa, Minha Vida”.

O diretor de pesquisa e estatística da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO), Credson Batista, abriu a apresentação apontando que há um otimismo do setor e o cenário macroeconômico atual.

“Apesar do desafio da taxa de juros, temos notícias positivas. Esse cenário nos leva a acreditar que o ciclo de alta da Selic, que começou de forma discreta, mas já está em andamento, deve impulsionar ainda mais o desempenho do nosso mercado”, declarou.

Diretor de pesquisa e estatística da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Goiás (Ademi-GO), Credson Batista | Foto: Divulgação

Segundo Credson Batista, os indicadores consolidados mostram que a capital goiana vem ganhando projeção no cenário nacional ao apresentar resultados superiores ao histórico recente da própria cidade.

“Goiânia vem conquistando cada vez mais destaque nacional no mercado imobiliário. Esse reconhecimento se deve ao desempenho superior em relação a outras cidades e também ao avanço significativo em comparação com os resultados de venda de três ou quatro anos atrás. Todos esses fatores representam pontos positivos”, completou.

“Minha Casa, Minha Vida” e o Impacto da Construção Civil na Economia

Ao abordar o panorama do financiamento habitacional, Credson Batista destacou o marco histórico alcançado pelo orçamento do programa de habitação popular do governo federal no início deste ano. “Vamos começar destacando a notícia que inaugurou 2026 com muito otimismo”, disse.

“O mercado do ‘Minha Casa, Minha Vida’ recebeu neste ano um impulso significativo. Desde 2021, observamos uma curva crescente nas contratações do programa e, no ano passado, o governo federal aprovou uma verba de R$ 180 bilhões para este ano, o maior valor da história do programa. Com isso, já iniciamos 2026 com a expectativa de que esse segmento terá uma performance muito positiva em todo o Brasil”, completou.

Além dos números de vendas e unidades lançadas, a construção civil mantém papel central no desenvolvimento econômico e social da região metropolitana da capital. “Quando analisamos os dados mais gerais do setor, percebemos o potencial econômico que a construção civil traz para a cidade. No início da apresentação, sempre destacamos os números de geração de emprego formal em Aparecida de Goiânia e Goiânia, segundo o Caged [Cadastro Geral de Empregados e Desempregados]”, apontou.

“Em 2026, o segmento foi responsável por 11% dos novos postos de trabalho, representando diretamente os empregos criados. Além disso, sabemos que a cadeia como um todo gera também empregos indiretos, envolvendo parceiros, pintores e profissionais que atuam na construção e na entrega dos apartamentos. Esses resultados reforçam a importância da construção civil para a economia de Goiânia”, acrescentou.

Posição no ranking nacional, vendas e redução de estoques

No ranking nacional de comercialização de imóveis residenciais, Goiânia se mantém firme no topo da lista das capitais mais desejadas pelos compradores. “Analisando os dados gerais do mercado, é importante entender a posição de Goiânia no contexto nacional. Durante dois anos consecutivos, a cidade ocupou o terceiro lugar entre as capitais que mais comercializaram imóveis no Brasil e, no fechamento do primeiro semestre de 2026, aparece em quarto lugar”, disse.

“Esses resultados são celebrados porque os dois primeiros postos pertencem às únicas megacidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro, que possuem mercados muito mais populosos e com demanda mais intensa. O fato de Goiânia se manter por três anos seguidos entre a terceira e a quarta posição reforça que alcançamos o patamar mais alto possível em comercialização de imóveis para uma capital fora dessas duas megacidades”, completou.

Ao analisar o desempenho do setor no âmbito nacional e regional, o diretor comparou a evolução das vendas no primeiro semestre de 2026 com o mesmo período do ano anterior, respaldando-se nos dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção e da Brain Inteligência Estratégica. “As análises do mercado nacional mostram que o fechamento do setor residencial no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período de 2025, registrou um aumento de vendas de 5,4%. Esse resultado foi bastante celebrado na coletiva, principalmente porque ocorreu em um cenário de juros adverso para o setor”, apontou.

“Além disso, houve também um crescimento de 8% na oferta final, o que evidencia que o mercado nacional vem se expandindo de forma consistente, impulsionado pelas medidas do ‘Minha Casa, Minha Vida’ anunciadas no início do ano. Quando observamos especificamente Goiânia, os números se tornam ainda mais expressivos. Enquanto o mercado nacional evoluiu 5,4% no semestre, Goiânia cresceu quase oito vezes mais, alcançando 42% de aumento no número de unidades comercializadas. Esse desempenho levou a cidade a atingir a marca histórica de 7.219 unidades residenciais vendidas no primeiro semestre de 2026”, explicou.

O crescimento das comercializações não ficou restrito ao mercado residencial vertical, mas alcançou também outras tipologias e segmentos da construção civil, somando 7.323 unidades no total geral do mercado. “Esse aumento também se mostrou expressivo quando analisamos o VGV [Valor Geral de Vendas]. Ao observarmos a dinâmica do mercado de forma mais ampla, incluindo unidades comerciais, casas e outros segmentos, verificamos que o crescimento também se manteve, evidenciando que essa é uma tendência geral em nosso setor”, relatou.

Mesmo com um aumento significativo nos lançamentos de empreendimentos imobiliários na capital no acumulado do semestre, o volume total de vendas superou a chegada de novas unidades no mercado. “Falando em lançamentos, Goiânia registrou um incremento significativo no volume no primeiro semestre. O aumento no número de unidades residenciais lançadas foi de 35%, alcançando 6.500 unidades nos seis primeiros meses do ano e 6.606 unidades no mercado total, resultado 16,4% inferior ao do segundo semestre de 2025”, disse.

Ao comparar o desempenho financeiro entre 2025 e 2026, Credson chamou a atenção para o comportamento da demanda no mercado imobiliário local. “Trazendo os dados consolidados do mercado e considerando unidades residenciais, comerciais e casas, o volume de vendas no primeiro semestre de 2025 foi de R$ 4,2 bilhões. Nesse período, Goiânia alcançou seu recorde na série histórica iniciada em 2010, encerrando o ano com R$ 8,5 bilhões comercializados”, disse.

“Já em 2026, no fechamento do primeiro semestre, mantivemos um volume de vendas de R$ 4,1 bilhões, praticamente o mesmo patamar de 2025, que foi o nosso recorde. Esse resultado ocorreu em um cenário em que, em 2025, foram lançados R$ 4,8 bilhões no semestre, enquanto em 2026 o volume de lançamentos foi de R$ 4,5 bilhões, uma redução de aproximadamente 10%. Normalmente, os lançamentos funcionam como indutores de vendas, já que as empresas vão ao mercado e intensificam a publicidade. Mesmo com essa retração no volume de lançamentos, conseguimos manter o nível de vendas, o que demonstra que a demanda existente em Goiânia é latente, consistente e não depende de impulsos de lançamento para se consolidar”, avaliou.

Essa aceleração constante do ritmo de comercialização provocou uma queda no volume total de imóveis em oferta disponíveis nas construtoras. “Como já havia adiantado, ao analisarmos o estoque entre o fechamento de 2025 e o primeiro semestre de 2026, observamos uma redução de 6% no mercado como um todo. Essa queda ocorreu em função de uma velocidade de vendas mais acentuada”, informou.

Gargalos na habitação popular e perda de recursos federais (FAR/FGTS)

Ao direcionar a análise para a habitação voltada às famílias de menor renda, o diretor expôs o contraste entre o potencial do mercado e a falta de oferta. “Falando sobre o mercado do ‘Minha Casa, Minha Vida’, o ano de 2026 começou com uma expectativa muito grande de aceleração porque havia recurso abundante disponível. É importante destacar que o governo distribui esses recursos por região e, caso ao final do ano a região não contrate todo o volume de unidades, o recurso é retirado e remanejado para outras localidades que necessitam”, contextualizou.

“Em Goiânia, entre o primeiro semestre de 2025 e o de 2026, observamos um crescimento significativo nas vendas, passando de 1.605 unidades para 2.944 unidades dentro do programa, o que representa um aumento expressivo de 83,4% em unidades comercializadas”, completou.

Entretanto, o aumento nas contratações provocou uma redução drástica nos estoques de imóveis populares na capital goiana. “O número de unidades lançadas também cresceu de maneira expressiva, com alta de 77,1%, passando de 1.352 para 2.395 unidades. O número de unidades comercializadas superou o de unidades lançadas. Nosso estoque dentro do programa caiu de 2.907 para 1.941 unidades, uma redução de 33,2% no volume disponível em apenas seis meses”, disse.

“Hoje, o estoque do programa representa apenas 17% do mercado total de Goiânia. Isso mostra que o mercado de ‘Minha Casa, Minha Vida’ aqui ainda é muito discreto em comparação com o nacional. Em São Paulo, cerca de 50% das unidades comercializadas estão dentro do programa, enquanto em Goiânia esse patamar é bem menor. O mercado imobiliário local poderia ser ainda maior se o Minha Casa, Minha Vida tivesse um volume de ofertas sustentável”, concluiu Credson.

Presidente da Ademi-GO, Felipe Melazzo | Foto: Divulgação

Impactos socioeconômicos e críticas à burocracia

O presidente da Ademi-GO, Felipe Melazzo, alertou que a omissão na aprovação dos projetos urbanísticos traz severas consequências econômicas e sociais para o município nos anos seguintes, podendo acarretar graves problemas urbanos como a proliferação de ocupações irregulares e favelas. “Ocupação desordenada do solo ocorre quando deixamos de fazer essas aprovações, levando a população a ocupar espaços de forma irregular e deixando receita na mesa. Estamos vendo a reforma tributária a partir de 2027, quando a receita dos municípios passará a ser por consumo”, disse.

“Ou seja, o município que tiver mais habitantes consumindo terá maior arrecadação. O município que não olha para isso, além de deixar sua receita de lado, perde R$ 8,00 na economia para cada R$ 1,00 investido. É com muita preocupação que a associação enxerga que, a partir de 2024, começa a haver decréscimo e retração das aprovações nas contratações do FGTS e MCMV. Quando comparo Goiânia com outras capitais nas contratações de financiamentos pelo MCMV, a cidade registrou a terceira maior queda do país, com retração de 16,1%, ficando atrás apenas de Porto Velho e Cuiabá. São dados preocupantes que mostram que o município tem perdido espaço, receita e recursos, além de comprometer a promoção da moradia digna, que é um direito constitucional”, enfatizou Felipe Melazzo.

Diante do cenário de travamento dos processos administrativos, o presidente da Ademi-GO apontou que a burocracia tem afetado de forma ampla diversos setores da economia local. “Por que a produção de moradia digna está tão baixa? Temos percebido uma letargia muito grande no processo de análise, o que é preocupante. Isso não impacta apenas o mercado de incorporação, mas também o pequeno construtor, o engenheiro, o arquiteto e o comércio de rua. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU) e o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) já fizeram apontamentos e manifestações públicas alertando para essa letargia injustificada do município”, apontou.

Mesmo nos casos em que a análise técnica é concluída, a burocracia municipal, segundo ele, continua atrasando o início efetivo das construções na cidade. “O que pedimos é apenas o cumprimento da determinação legal, principalmente quando se trata de Habitação de Interesse Social. A lei de HIS aprovada em Goiânia prevê aprovação prioritária. Hoje temos seis projetos aprovados aguardando a expedição da taxa, sendo um deles há mais de 200 dias”, declarou.

“Quando o projeto é aprovado, a prefeitura emite a taxa de recolhimento de aprovação. Após a compensação dessa taxa, sai o alvará de execução para iniciar a obra. Estamos com seis empreendimentos parados aguardando essa emissão e não sabemos o motivo. Quando o município deixa de emitir uma taxa, renuncia a receitas. É algo inexplicável e injustificável. Falta atenção e cumprimento da lei”, acrescentou.

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