O Brasil encerrou 2025 com o maior número de empresas em recuperação judicial já registrado. De acordo com o Indicador de Falências e Recuperações Judiciais da Serasa Experian, foram 977 processos abertos ao longo do ano, um crescimento de 5,5% em relação a 2024. No total, 2.466 CNPJs foram envolvidos, o que representa um avanço de 13% e marca o maior patamar da série histórica.

O cenário reflete a pressão da inadimplência sobre o caixa das empresas brasileiras. Em janeiro de 2026, 8,7 milhões de CNPJs estavam negativados, com dívida média de R$ 23.138 e cerca de sete restrições por empresa inadimplente. Historicamente, esse indicador antecede novos pedidos de recuperação judicial, o que sugere que a tendência deve se manter ao longo deste ano.

Os setores mais afetados foram o agronegócio e os serviços, que concentraram 30,1% e 30% dos pedidos, respectivamente. O comércio respondeu por 21,7% e a indústria por 18,2%. A baixa adesão a alternativas extrajudiciais também chama atenção. Entre 2024 e 2025, para cada 16 pedidos de recuperação judicial, apenas um correspondeu a uma negociação extrajudicial. Apesar disso, houve melhora em relação a 2023, quando a proporção era de 26 para 1.

Ao Jornal Opção, o advogado Rafael Brasil, especialista em recuperação judicial e reestruturação de empresas, explica que o recorde veio de uma soma de fatores. “No lado econômico, o que mais pesou foram os juros altos. Muitas empresas se endividaram no crédito barato da pandemia e foram pegas por anos seguidos de juros elevados, que encareceram a dívida e sufocaram o caixa. Junte a isso a queda dos preços das commodities agrícolas, os problemas climáticos e o aumento de custos que ficou desde a pandemia”, aponta.

Advogado Rafael Brasil, especialista em recuperação judicial e reestruturação de empresas | Foto: Acervo Pessoal

Segundo ele, houve também amadurecimento estrutural. “Depois de vinte anos de lei, jurisprudência firme e varas especializadas, o empresário passou a enxergar a recuperação judicial como uma ferramenta de reorganização, e não como o fim da linha. Tanto que 2025 foi o primeiro ano da história em que os pedidos de recuperação, cerca de 1.680, superaram os de falência, cerca de 1.400”, afirma.

O especialista destaca que os pequenos negócios são os mais vulneráveis. “O pequeno negócio tem pouca reserva para atravessar a crise. Trabalha com margem apertada, capital de giro curto e depende de crédito caro. Quando o faturamento oscila, não sobra gordura para queimar. O grande grupo renegocia com o banco, mas o pequeno muitas vezes só enxerga a saída pela Justiça”, comenta.

Ele aponta três motivos para a demora em buscar ajuda. “Primeiro, custo e desconhecimento, porque ainda acha que recuperação é coisa de grande empresa. Segundo, o lado emocional, porque confunde a saúde da empresa com a dele mesmo e vai empurrando com a barriga. Terceiro, um obstáculo real da lei, que exige dois anos de atividade regular e contabilidade organizada, algo que boa parte não mantém em dia. Quando finalmente batem na porta do Judiciário, já gastaram todas as reservas e chegam com o caixa no vermelho, o que diminui muito a chance de recuperar o negócio”, explica.

Sobre a baixa adesão às soluções extrajudiciais, o advogado observa que a recuperação extrajudicial é menos de 0,6% de todos os processos, pouco mais de 90 pedidos em 2025 inteiro. “Ela só funciona quando já existe um acordo prévio com boa parte dos credores, e isso a empresa em crise raramente consegue montar, principalmente quando a dívida está concentrada em bancos e credores com garantia, que têm pouco interesse em ceder fora do processo”, afirma.

“Falta também a cultura de negociação no nosso ambiente empresarial. E tem um ponto decisivo, a extrajudicial não oferece a proteção que o empresário mais procura, que é a suspensão imediata das cobranças e execuções”, completa.

O advogado defende que a atuação preventiva evitaria tantos pedidos. “A recuperação judicial deveria ser o último recurso, e não o primeiro. A maioria chega até ela porque agiu tarde. Prevenir é resolver o problema enquanto ele ainda tem conserto. Na prática, é acompanhar de perto o fluxo de caixa e ficar atento aos sinais que aparecem meses antes do colapso, como a dívida crescendo mais rápido que a receita”, aponta.

“É renegociar com os credores enquanto a empresa ainda tem força para negociar, porque o banco trata de um jeito bem diferente quem procura antes de deixar de pagar. E é usar instrumentos mais leves, como a mediação e a conciliação, antes de partir para o processo completo”, acrescenta.

Ele chama atenção para um dado do levantamento. “Nas petições, o empresário quase sempre culpa fatores externos, como clima e juros, e raramente admite falhas de gestão. Mas o que é externo você não controla, e o que é de gestão você controla. A prevenção de verdade começa por olhar com honestidade para dentro de casa”, pontua.

Em relação aos setores mais afetados, Rafael afirma que são setores que parecem opostos, mas dividem a mesma fragilidade. “São muito sensíveis a fatores que não controlam e dependem demais de crédito. No agronegócio, que em Goiás respondeu por cerca de 80% dos pedidos, vale a lógica do descasamento”, explica.

“O produtor se financia na entressafra para pagar na colheita, e quando o preço da commodity cai ou a seca quebra a safra, a receita some, mas a dívida continua de pé. Nos serviços, a fragilidade é a da margem e da folha de pagamento. É um setor que emprega muita gente, quase não tem bens para dar em garantia e vive da demanda do dia a dia, então sente na hora quando o consumo cai e o crédito encarece”, afirma.

Ele acrescenta que o que une os dois é a exposição a choques externos, com pouca reserva e muita dívida, exatamente a combinação que 2025 trouxe.

O especialista aponta ainda os desafios de um plano viável. “São três desafios principais. O primeiro é a credibilidade. O plano não pode ser uma peça de ficção com prazos impossíveis. Ele precisa mostrar, com números que se sustentam, de onde vai sair o dinheiro para pagar, e a empresa que chega sem contabilidade em ordem já começa em desvantagem”, aponta.

“O segundo, e talvez o maior, é a estrutura da dívida. Em boa parte dos casos, algo entre 40% e 60% do passivo está nas mãos de credores com garantia real, como bancos e tradings, que muitas vezes ficam fora do alcance do plano e são os mais difíceis de convencer a esperar e a aceitar desconto”, explica.

“O terceiro é a aprovação em si, que depende de maioria por classes na assembleia e exige equilibrar interesses que se chocam. O trabalhador quer receber logo, o fornecedor quer manter o cliente e o banco quer preservar a garantia. No fim, plano bom não é o que passa na assembleia, é o que a empresa consegue realmente cumprir”, completa.

Para 2026, Rafael prevê aumento dos casos no segundo semestre. “O principal motivo está no campo. Muitos produtores que já vinham no limite ainda apostavam na safrinha de milho para equilibrar as contas e renegociar suas dívidas. Com a quebra dessa safra, essa última esperança se foi, e quem estava só adiando a decisão agora não tem mais para onde correr”, pontua.

“É esse tipo de gente que costuma chegar ao Judiciário nos meses seguintes, então o efeito deve aparecer com força na segunda metade do ano. Some a isso o crédito ainda caro e o grande número de CNPJs negativados, que é a antessala da insolvência, e o cenário aponta para mais pedidos, e não menos”, comenta.

Ele conclui que esse crescimento não é só notícia ruim. “Ele mostra que mais empresários e produtores estão tentando reorganizar o negócio em vez de simplesmente fechar as portas, e negócio preservado é emprego preservado. O desafio, daqui para frente, é fazer com que essas pessoas procurem ajuda mais cedo e mais bem orientadas, antes de esgotarem todas as reservas”, finaliza.

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